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Arte de Roubar (2008)

artederoubar

Em Portugal há décadas que se procura a fórmula do sucesso internacional. Frequentemente se apregoa prematuramente a eminência do reconhecimento da genialidade lusitana, seja cinema, música ou outras artes. Tal é o desespero pela fórmula milagrosa que os nossos produtores disparam em todas as direcções sempre com o papo inchado de superioridade e pedantismo e sempre desaguando nas fétidas águas do esquecimento. Todo este estrabuchar de desânimo e este clamor por atenção faz com que só existam em Portugal alguns filmes bons, filmes transparentes (que passam despercebidos) e depois uma enorme gama de categorias de filmes maus, desde o hilariante involuntário ao perfeitamente idiota sem nexo, passando pelos políciais com cheiro a sexo e rata badalhoca, o falhado aspirante à candidatura a Oscar ou a indiscritível posta de inocuidade deslavada que Manoel de Oliveira cospe anualmente.

E é com este espírito de “agora é ké!” num decalque disléxico e pueril a Tarantino que este filme arranca. Ah, antes de continuar deixem-me que vos diga duas coisas: é um filme falado em inglês apenas pela aparente razão de ser falado em inglês, como se estivesse num universo alternativo e eu só vi 41 minutos até ceder à dor esquartejante que me carcomia as entranhas que clamava por um STOP imediato. O meu cérebro a proteger-me de nocividades desnecessárias.

Bom, e neste clima de inglês com sotaque tugalhãozão encontramos de tudo, desde Pedro Tochas a ser engraçado em inglês (a tentar), uns cromos dos malucos do riso a fazer um reprise ao estilo “The loony guys of the laughter”, um Nicolau Breyner no seu habitual registo (com odor a merdum), gajas boas que falam pouco ou nada porque chumbaram a inglês consecutivamente até terem desistido dos estudos ao 5º ano e todo um rol de actores portugueses a mugir palavras inglesas de maneira disconexa.

Mas eis que a determinada altura um personagem aparece, saído directamente dos meus piores pesadelos. Um monstro tão vil e disforme que uma palavra sua me faz gelar de horror, apenas descongelando quando as primeiras diarreias de choque começam a cair pernas abaixo. Olavo Bilac, num ginásio, a falar inglês com aquela voz de cana rachada pejada de aguardente e o quociente de inteligência de uma sandes mista. Olavo a urrar qualquer coisa que eu não ouvi pois carregava naquela altura em pânico em todos os botões do controlo remoto, mas foi apenas quando atirei um vaso de cactos pela TV adentro que o pesadelo terminou.

No hospital contava esta história a um amigo médico que me estava a remover os vidros do ecran da TV e ele não acreditou em nada que eu disse. Mais tarde foi ao clube de video para tentar procurar esse filme a até hoje nunca mais ninguém o viu.

10 Comments

  1. Esta critica está divinal. Orá aqui está um regresso ao grande estilo…
    Não vi o filme, mas consigo acreditar piamente em cada palavra tua, tal não é o estado do cinema português

  2. Looooool! De puta madre a crítica.

  3. sim… mau…
    eu vi-o na antestreia, e falaram todos em português, a seguir.
    estranho…

  4. foda-se, aqui está uma bela critica à moda antiga do cinema xunga xD
    até me vieram as lágrimas aos olhos…
    e sim, o filme é mesmo uma merda, concordo a 100% com tudo o que foi dito

  5. Obrigado a todos, mas quando temos esta qualidade de filmes a fornecer inspiração, há coisas que têm que ser ditas…

  6. Na estrita competição do cinema comercial em Portugal este Arte de Roubar é do melhor que temos visto… e isso é um grande infelizmetne. Mas queria aproveitar para fazer um pedido: já viste o 100 Volta? Gostava muito de ver aqui uma crítica no cinema xunga ao 100 Volta. Quando puderes fazer o sacrifício (e é mesmo um sacrifício), não te acanhes, por favor.
    Ah já agora, o próximo do Leonel de Vieira, depois do Arte de Roubar, vai ser filmado nas favelas brasileiras…

  7. I like. I like sex too.

  8. Muitos parabéns, a crítica está muito bem conseguida! 🙂

  9. Sim. Eu também estive na ante-estreia. Sim. Posso sugerir um filme? (um desafio?) “A Raiz do Coração”, de Paulo Rocha. É de ir às lágrimas.
    Como esta crítica.

  10. “atirei um vaso de cactos pela TV adentro” hehehehe

    Muito boa a critica ao contrário do filme que pelo que dizes (e pelo que se tem visto) deve ser uma bela caca =(

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