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Second Life (2009)

secondlife

Se hoje o planeta fosse atingido por um cataclismo que acabasse de vez com a nossa existência, diria apenas que veio atrasado uns dias. É que ao sofrimento atroz do Armagedão teria ainda que adicionar a agonia eterna que são as memórias de ter assistido ao filme “Second Life”. Há pessoas que conseguem reprimir memórias de um tio gorduroso que brincava ao “esconde o chouriço” e há cônjuges que aceitam a desculpa “Querido/a, no rabinho não conta como adultério”. Mas nem com psicanálise de máxima densidade nem com anti-depressivos para cavalos as memórias  de Second Life se tornam inertes. Não há um dia em que não acorde molhado em suor com pesadelos do Nicolau Breyner a falar inglês ou o Malato a representar com o àvontade de um vampiro na praia de Copacabana. Aliás, já nem se viam cenas de sexo tão mau gosto desde que a Cicciolina mandou uma cagada no peito do seu parceiro em Chocolate e Banana (1986)*.

O cinema português mainstream procura desesperadamente um rumo. Quer fazer lucro, atrair espectadores e criar uma indústria nacional, um Tugawood com direito, quiçá, a uma entrega de prémios. Mas o problema é que não aprende com os seus erros grotescos. Recentemente tivemos alguns dos mais bafientos pastelões do cinema nacional. Amália, O Contrato, A Arte de Roubar são apenas alguns que vi (nem sempre até ao fim) e que atestam um vazio imenso de aptidão, talento e capacidade técnica de fazer um filme. Aliás, nota-se mesmo a total falta de existência de um projecto e uma descoordenação tão típica nas nossas praças.

Mas nesta demanda pelo sucesso sem honra, os produtores metem-se pelos caminhos obscuros da batota. O sexo em primeiro lugar. Pega-se numas mamalhudas que aparecem ocasionalmente na FHM e metem-se a abanar a peida, mostrar as mamas e em cenas de sexo a imitar a volúptia americana, mas sempre a resultar em badalhoquice amadora. Depois são as celebridades sem jeito absolutamente nenhuma. Neste caso temos Figo a fazer figura de urso, numa altura da sua vida em que precisava tanto disto como de forúnculo nos testítulos. Fátima Lopes (da SIC) a tentar destoar do seu registo maternal, mas a criar um dos momentos mais deprimentes da sua carreira. José Carlos Malato, as himself, as apresentador que saiu da TV e foi a correr para as filmagens dizer “Espera aí, conte lá isso melhor!”. Um horror indiscritível.

O realizador tentou criar uma obra Lynchiana, mais independente, naquele estilo “será que é real ou não?”. A esta estrutura independente  e cheia de boas intensões foi depois colado pelos produtores todos os factores supracitados, fazendo o filme parecer uma árvore de natal de pirosice e imbecilidade. Como se toda a responsabilidade do sucesso fosse colocado nos ombros dos canais de TV, e nos Famas Shows e essas programas para saloios. E são depois esses casais de saloios que ocorrem às salas para ver as mamas e o sexo para depois poderem imaginar que estão com a Liliana Santos quando estão a comer a namorada na parte de trás do Fiat Punto comercial (com neons).

Já para não falar dos diálogos em Inglês. A questão nem está no ridículo que é as pessoas portuguesas falarem inglês sem razão aparente. A questão é esta subliminar prostituição a outros mercados como se pelo facto de ser em inglês se tornar mais fácil a internacionalização. Pelo contrário, com estes sotaques foleiros e as expressão sacadas dos filmes americanos toda a gente se vai rir às gargalhadas de tão ridículo se tornar. Almodovar fez filmes em inglês para ser aceite internacionalmente? Kusturica? Fernando Meirelles? Jean Pierre Jeunet? E a colagem óbvia à comunidade 3D online com o mesmo nome?

É, portanto, um horror de filme. Um produto de híbrido em que, por inaptidão, são plagiados os bocados piores de outras obras, e mesmo esses são distorcidos para além do limite do admissível. Pior que isto é que se forem ao site do filme aparece uma secção de comentários em que um exército de barrascos com problemas em acabar a 4ª classe tecem maravilhas a este filme. Alguns dos comentários vêm de pessoas que nem viram o filme. Eu acho que são todos falsos e que terá sido obra de alguém a tentar promover o filme. Talvez o Figo, numa noite de insónias.

Faço já aqui um apelo à comunidade de realizadores e produtores de Portugal: Por favor, poupem o nosso martirizado povo. Vocês sabem que temos uma secreta esperança de que os filmes sejam bons. Honrem o vosso público e apliquem-se. Façam filmes com o coração, não metam sexo gratuito nem celebridades sem jeito. Façam um guião, um projecto, algo com princípio, meio e fim. Eu tenho internet para ver porno, não preciso de ir ao cinema ver as gajas do Morangos com Açucar a simular umas fodas. É que se eu vejo mais algum filme com o Pedro Lima a falar inglês, enfio um garfo num olho e depois vou ao Goucha contar a minha história.

* – Por lapso meu tinha colocado o filme Carne Bollente (1987) como sendo aquele em que Cicciolina assenta uma valente cagada no colega. Na realidade o filme é Chocolate e Banana (1986) como todos nós tão bem sabemos… Banane al Cioccolato no original.

5 Comments

  1. Demais! O que me ri!
    Eu cá deixei de ver cinema português depois do Amo-te Teresa…

  2. com esta (mais uma vez) excelente critica convenceste-me a ver o tal… Banane al Cioccolato

  3. Tentei ver o “filme”, mas desisti passados alguns minutos…
    Será que algum dia Portugal vai produzir filmes que não sejam deste calibre, ou do outro lado do espectro, punhet@s intelectuais contemplativas do Manoel Oliveira* e afins? Comprei no outro dia um DVD de um filme françês chamado Fantomas dos anos 60, que mistura o lado comercial de acção e humor com referências pop, e passado quatro décadas, acho posso dizer que Portugal ainda não produziu um filme que me fizesse levantar do sofá e pensar “Porra **, tenho que ir ver isto ao cinema!”.

    *Antes que me matem, um filme ganhar prémios não quer dizer que seja assistivel, certo?
    ** Desculpem a linguagem, hoje acordei mal-disposto e a minha cidade está com o cinema fechado…

  4. Adorei essa critica ao filme “Second Life”. Embora seja mais participativo no mundo virtual a que curiosamente tem o nome dessa telenovela mexicana (ui) a verdade é que muita gente ficou horrorizada com tamanha calamidade.

    Um abraço

  5. Completamente de acordo. Portugal não tem meios para fazer filmes de jeito. O ridículo de ser preciso falar em inglês sem razão evidente… mais um filme sem conexão lógica. E o sexo… para quê tanto sexo (ou algo que se assemelhe a sexo) nos filmes portugueses? Até tenho gosto em gabar a música portuguesa (Zé Manel, Amália, projetos como Amália Hoje, Ornatos) mas a nível cinematográfico já me convenci que não há hipótese.
    P.S.: excelente blog, com a dose certa de ironia.

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