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Crank: High Voltage (2009)

crank2

Infelizmente, todos nós sabemos a anatomia de um filme de gaja, pois temos que o gramar ocasionalmente para preservar a harmonia conjugal. Mas o filme de gajo? Existe filme de gajo? Existe sim, e  é em Crank 2 que este conceito atinge um novo patamar: violência desmesurada, sexo gratuito, perseguições diabólicas, o mais profundo desprezo pelas leis de Newton, sangue aos baldes, montagem rápida, bordoada de três em pipa, um herói duro como o aço capaz de resistir a uma queda de um helicóptero.Tendo todas as características para ser um mau filme, acaba por ser estranhamento apelativo e está cientificamente comprovado que faz os testículos mais negros.

O sentido de humor e a capacidade de se deixar por aquilo que nos dá algum prazer é uma característica essencial a qualquer cinéfilo. Todos nós concordamos que o Michael Bay e o Roland Emmerich fazem filmes imensamente idiotas mas no fundo há uma voz que nos diz que temos que ver. A mesma voz que nos faz adorar o “Plan 9 From Outer Space” ou todo o catálogo da Troma. Para compreender isto é preciso perceber que dentro do nosso superior cérebro de Homo Sapiens Sapiens existe um pequeno cérebro primordial que é semelhante a outras criaturas inferiores e é basicamente aquele que traz o nosso firmware de origem. É responsável por impulsos básicos e primitivos que associamos a um estado de “falta de civilização” ou “pouca sofisticação”. É a parte do cérebro que trata dos instintos de sobrevivência e de garantir que os nossos genes sejam passados para a próxima geração. Aqui não se diz fazer amor, diz-se foder e com quantas mais melhor. E dentro da maior badalhoquice possível, onde o ass-to-mouth ou o dickslaping são opções a ter em consideração. É também a parte que gosta de violência e se delicia com umas boas bastonadas na cabeça de alguém, até a parede ficar forrada com tecido cerebral ensanguentado.

Serve o parágrafo anterior para explicar que no fundo, reduzidos à nossa essência, somos uns animais. Animais que precisam de entretenimento, agora que a violência foi afastada do nosso dia a dia, as tribos foram substituídas por claques desportivas e fingimos concordar com a monogamia. É aqui que se insere o prazer de ver Crank 2. Este aglomerado de improbabilidade de Chev Chelios e do seu Crank tem todas as características para ser um filme mau, mas o constante fluxo de violência e actividades supra humanas faz-nos sentir um pouco mais próximos dos romanos que gostavam de ver os leões a comer criancinhas cristãs ao pequeno almoço.

Chev Chelios é assim elevado à categoria de Die Hard, ao lado de Chuck Norris, Rambo, John Matrix ou Jack Bauer. Um novo herói a preencher o imaginário juvenil e será lembrado em futuras nostalgias dos putos que agora o apanham em idade mais impressionável.

Eu gostei deste filme. Não o irei colocar em nenhuma lista de preferidos nem digo que seja a excelência da industria cinematográfica mas o certo é que toda aquela irrealidade me lembrou as bandas desenhadas de Frank Miller, mais concretamente Hard Boiled, onde a espiral de confusão e violência é tanta que já nem sabemos muito bem em que ponto da narrativa estamos, mas isso não interessa nada desde que a violência seja especialmente doentia e o sangue continue a jorrar.

8 Comments

  1. É por causa de textos como este que eu continuo a achar que este blog está um passo á frente de tudo o que se escreve sobre cinema em portugal. continua

  2. Ler esta critica deu-me vontade de ver esse filme.

  3. Pois, pois. Eu achei-o demasiado idiota e irrealista. Demasiada electricidade para o meu gosto! Gostei sim do primeiro, especialmente da cena inicial ao som dos Refused! “Can I scream!!!!”

  4. Concordo com o comentário acima. O primeiro Crank foi brutal, o segundo já teve travos de megalomania directiva, do género “vamos f*der o Chev todo… apenas porque sim!”.

    Foi quando deixou de ser coerente e foi longe demais que o mandei à merda, não obstante ter apreciado a cena de luta na central eléctrica.

  5. devo dizer que, apesar do filme ser o que é, a banda sonora original recomenda-se. É toda da autoria do Mike Patton.

  6. Só pela informação acima vou já pedir o filme emprestado ao meu primo norueguês!

  7. Grande critica… É por obras de arte como esta que continuo a frequentar este blog assiduamente… Quanto ao filme? É tão bom como o seu antecessor e prova uma vez mais que Jason Statham é o maior badass da actualidade. Ainda bem que Stallone lembrou-se dele para o Expendables em vez do vergonhoso Steven Seagal

  8. Já muito foi dito, mas não esquecer que dentro dessa montra para o nosso “pequeno cérebro primordial” também lá aparecem as gajas da industria porno numa “manif”. hehe

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