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Thirst (2009) a.k.a. Bakjwi

Então ouvi a última criatura: as trombetas de marfim anunciavam o fim do existência. Vinha com um cavalo de um plasma muito denso produzido por cisão termonuclear, o nome do cavaleiro era MORTE e o séquito do inferno seguia atrás (de mota). Os anjos ditavam aos mortais a origem do fim. Dos seus ouvidos escorria sangue e o efeito Doppler deixou de existir, como que num prenúncio do final do mundo racional. Antes do universo implodir numa massa disforme de sangue e tripas, projectaram um filme de vampiros para adolescentes, o sinal do fim dos tempos. Quando toda a esperança morria, enquanto as labaredas da humanidade lentamente se extinguiam, quando as mães choravam os filhos perdidos para as novelas de vampiros e os filmes da Disney eis que apareceu o novo filme de Chan-wook Park, resgatando mais uma vez a humanidade da sua mais que merecida extinção. So say we all!

Depois da universalmente venerada trilogia da vingança, Chan-Wook Park muda de cenário. O força deste realizador consiste em contar uma história de profunda dor e imensa maldade como se de um conto de fadas se tratasse. O seu segredo? O andamento. Um andamento metódico e quase místico que transforma um simples passeio numa experiência esotérica invocando quase sempre o cinéfilo para um imaginário sobrenatural, apenas com uso de câmara, enquadramento, luz e  o uso cuidado da fotografia. Aliás, poder-se-ia decorar uma mansão só com fotogramas de superior qualidade fotográfica retirados deste filme. Se virem este filme em casa, sugiro que façam pause aleatoriamente e comprovem com os vossos próprios olhos que dá sempre uma foto que todos nos gostaríamos de ter na sala, exceptuando alguns planos de badalhoquice que poderiam dar azo a bocas foleiros por parte da sogra ou a um outro familiar mais conservador.

É porém sabido que um filme não vive apenas de beleza e estética. Voltemos ao início: um padre sujeita-se a uma experiência científica para ajudar a combater uma doença. É o único sobrevivente em 500 (300? não me lembro já) voluntários. Quando volta ao seu convento é venerado como um Jesus Cristo milagreiro e descobre um efeito secundário desconfortável: transformou-se num vampiro. Começa a sentir uma sede visceral (a tal “thirst”) e um incontrolável e tenebroso pau latejante dentro das calças a cada vez que a esposa do amigo se baixa para apanhar uma moeda, expondo a gloriosa peida à consideração da plateia. Daqui até ao descontrolo vai um saltinho e depois acaba de um modo bastante interessante, apesar de não me considerar um romântico inveterado.

Bom, o início do filme é manhoso e mal contado. Como se houvesse necessidade de rapidamente explicar que o padre se vai transformar num vampiro. É desnecessariamente rápido e isso causou-me algum transtorno. Mas a partir daí Park gere a sua obra com mestria. O balanço moral de um padre empenhado na causa dos santos a reprimir impulsos fortemente sexuais e a vontade de arrancar a cabeça dos amigos para lhes sorver o sangue com uma palhinha e um chapelinho. A cegueira do amor, os personagens ambíguos e cheios de humanidade, fora do habitual bom/mau do cinema mainstream. O sentido de humor é equilibrado e pungente. As cenas de sexo estão bastante longe daquilo que nos habituámos a ver no cinema, são impulsivas, animalescas e furiosas.

No geral não considero ser a melhor obra de Chan-Wook Park, mas ainda assim é um “filho da puta dum filmão”. Fica o trailer para os cépticos coçarem o queixo em assombro e soltarem um ponderado “hummm!

1 Comment

  1. Hehe! Boa review! 🙂

    Por acaso vi, este filme há 2 dias atrás e também achei um “filho da puta dum filmão”!! 😛

    O “grande mestre” Chank-wook Park fez mais uma vez um belíssimo trabalho.

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