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The Exorcist (1973)

Corria o ano de 1987. Meados de Julho. Já havia passado mais de um mês de férias grandes e a euforia lentamente se transformava num quase imperceptível tédio. Suave, mas a ganhar força. Eram 4 da manhã e eu, o meu amigo Zé  e o meu primo João regressávamos de um baile de uma aldeia vizinha, onde fomos na esperança de ver pelo menos uma cover de Judas Priest ou Ramones. Recusamos várias danças e o balanço da noite resumiu-se a dois apalpões e a promessa de um aquecimento de pescoço lá mais para o final da semana. Chegados a casa decidimos meter um VHS alugado no dia anterior. O exorcista… Duas horas depois três teenagers apavorados jaziam imóveis num sofá, sem pestanejar, quase sem respirar, a esperar pela luz do dia. Só com os primeiros raios de sol ganhámos força nas pernas e o sangue voltou a fluir com naturalidade. Até ao dia de hoje continua a ser uma das experiências mais aterrorizantes da minha vida.

Estamos a falar de um tempo além do tempo. Uma altura em que só havia 2 canais de TV em Portugal. RTP1 e RTP2. Ambos muito eclécticos, eruditos, empenhados na qualidade e embebidos numa nova onda de cultura europeia. Ora, isto para um puto de 14 anos significa que não dava um caralhinho que se aproveitasse. Cinema de características mais mainstream era mentira. Séries ainda vá que não vá. Apesar de hoje parecerem peças de teatro de saltimbancos romenos, nos anos 80 representavam um maravilhoso mundo novo.

Muito diferente da realidade dos morangos com açúcar, em que pitas de 17 anos fazem product placement a margarina naquilo que me parece ser uma apelo à sodomia indolor. Longe da cascata anestesiante de canais de TV que nos atulham com tal excesso de informação que somos incapazes de reter a mais simplória instrução. Sem Internet, feeds RSS nem conteúdos baratinhos à conta da famosa metáfora dos senhores que assolavam os oceanos de papagaio ao ombro e pala no olho. Longe da banalização da pornografia.

Continuando… Eu, o Zé e o meu primo João tínhamos visto o nosso primeiro filme porno hardcore de 1º escalão há pouco tempo e andávamos ainda a dissecar o espectro cinematográfico, a explorar vários géneros, cinematografias, a dar início a uma odisseia cinematográfica que ainda hoje continua. Era tudo novidade, por mais imbecil que possa parecer hoje. Como éramos fans da extrema violência e dos efeitos especiais que na altura pareciam bons, o Exorcista parecia uma excelente alternativa, uma vez que o trailer aparecia em quase todos os filmes que alugávamos no clube de vídeo.

Mas o certo é que não estávamos à espera disto. Nem nadinha que se parecesse. Para quem conhece, O Exorcista embrulha-nos rapidamente num ambiente familiar, em algo com que nos podemos identificar. A cadeia de acontecimentos evolui rapidamente para uma criança possuída pelo diabo (himself) e nalgumas das cenas mais icónicas e tenebrosas da História da 7ª arte. Ainda que com 14 anos de atraso, as nossas mentes puras e formatadas segundo uma tradição judaico-cristã foram de tal maneira confrontadas com os nossos piores medos, os nossos sentidos assaltados por todo um imaginário de tal modo assustador que quase poderíamos jurar ser verosímil.

Ainda hoje o grito demoníaco de “Merrin, merrin!” ou ” Lick me, lick meeee!” me faz levantar todos os pêlos do corpo. Quem diz estas diz outras dezenas de quotes do demónio, todas elas tão provocadoras como poderosas. Os diálogos e o argumento deste filme são algo de outro mundo, um mundo lá em baixo, onde  não é preciso forno para cozinhar e onde alguns dos mais notáveis lideres de outrora passam os dias em suaves banhos de azeite fervente ou engolidos em confortáveis labaredas…

Feitos os devidos ajustes contextuais, este é, não só, um dos mais assustadores filmes da história do cinema, como também um dos seus melhores exemplos de sucesso e qualidade. Perguntem ao Zé e ao João…

Em 2001 voltei ao cinema para ver o directors cut, mas já lá não estava aquela densidade quase infinita de cagaço que senti no corpo da primeira vez. Revi-o com um sorriso nos lábios da minha grossa carapaça de décadas de ultra-violência cinematográfica e uma forte nostalgia da minha ingenuidade de adolescência. Mas a verdade é que em 1987, uma semana depois de ter visto o filme ainda não dormia bem e a quanto à promessa de aquecimento de pescoço acabou por dar razão ao ditado popular “Se queres um trabalho bem feito, fá-lo tu mesmo”. Falo, hehehe!…

6 Comments

  1. “Falo, hehehe!…” 😀

  2. Não sei se foi por ser o primeiro, mas este também deixou marcas em mim… também foi o meu primeiro filme de terror à séria… depois ainda me lembro do primeiro nightmare, e depois vi um casa assombrada que me fez morrer de rir… e nunca mais gostei de filmes de terror… pois já não surtiam o mesmo efeito.
    Este sim… este deixou marcas… apesar de como tu dizes e bem… visto agora… até tem graça.

  3. Depois do novo Nightmare on Elm Street, este será provavelmente o último clássico do terror que ainda não foi re-feito. Sim, foi sequelado, prequelado e até parodiado, mas remake… ainda ninguém teve tomates para tal! Mas cheira-me que nem este escapa a mais uma produção executiva do Miguel Baía…

  4. As tuas reminiscências e reacções ao Exorcista fazem-me lembrar as minhas, mas ao contrário de ti, ainda hoje eu tenho medo daquela merda:
    http://mausdafita.blogspot.com/2009/10/exorcist.html

  5. Acabaste em grande!

    Quanto ao filme, eu fiquei um pouco desiludido. Os anos passam e acredito que Exorcista seria uma experiência muito perturbadora mas nos dias de hoje, para mim, não o foi. Assisti com boa disposição e só um ou outro momento é que perturba!

    Abraço
    Cinema as my World

  6. Realmente é um sacana de um filme de terror… quando o vi a primeira vez na RTP, só a muito custo é que me consegui deixar dormir, já quase de manhã, mesmo com a porra da luz acesa… Entretanto os anos passam e o filme acaba por perder toda aquela intensidade que tinha quando o vi ai com os meus 12 ou 13 anitos… mas que ainda arrepia de vez em quando… isso ninguém o pode negar!

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