Quando um cinéfilo inexperiente cataloga uma obra como sendo um “filme marado” é porque não conseguiu encontrar no seu saco de clichés americanos algo com que o comparar. “Marado” é adjectivo que realça a não convencionalidade da obra, sendo que esta característica poderá ser uma coisa boa ou má. Há o “marado” saudável e imaginativo de Terry Gilliam, o “marado” deliciosamente pérfido, herege e debochado de John Waters e Cronenberg, o “marado” que escreve nonsense surreal e depois diz que há um significado que só ele conhece de David Lynch. Temos ainda os japoneses encabeçados pelo sociopata Takashi Miike ou mesmo o centenário  alucinogénico supertuga Manoel de Oliveira. E depois há Idiotern de Lars Von Trier, um filme que desafia qualquer catalogação, o marado dos marados, uma delicia de filme que amamos odiar.

Não podemos falar deste filme sem antes falar no Dogma 95, que é uma manifesto criado por Thomas Vinterberg e Lars von Trier com um conjunto de regras e códigos de conduta sob os quais se devem fazer filmes que queiram ser acreditados com o selo “Dogma 95″, alegada garantia de pureza cinematográfica. Entre outras características, este filmes devem filmados em locais reais (sem adereços nem cenários), o som tem que ser directo sem pós-produção nem sobreposições, tem que ser em tempo real, sem uso a tecnologia para criar efeito, sem manhas narrativas, etc. Procurem na google que há lá muito quem explique melhor. Assim acabamos por ter filmes muito crus, emocionalmente intensos e desconfortáveis e na maior parte das vezes secas monumentais. O que não é o caso deste, note-se.

Idioterne (The Idiots no no seu título internacional) conta-nos a história de um grupo de amigos que abandonam todos as regras e protocolos sociais para se deixarem tomar pela selvajaria primordial, sem se preocuparem com convenções e obedecendo apenas ao seu córtex límbico e ao cerebelo, naquelas que são as necessidades básicas para garantir a sobrevivência e procriação. Em público fazem-se passar por um grupo de deficientes mentais, mesmo com a própria família, e em privado é o deboche mais completo. Sim, este filme tem cenas de sexo explícito, bastante audazes dentro do género.

Fortemente emocional como é apanágio de Lars Von Trier, o filme vai carregando no tom ao longo do tempo, até que se torna quase insuportável para o final. A densidade de desconforto é tão alta que nos sentimos envergonhados, decepcionados, tristes e deprimidos. E como todos sabemos, nos dias que correm esta é uma característica de se lhe tirar o chapéu.

Como

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