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A Minha Primeira Vez

A primeira ida ao cinema das nossas vidas é sempre polvilhada de magia e fogo de artifício. É um entrar num fabuloso mundo novo de assombro, uma dimensão paralela onde afinal tudo é perfeito. Independente do filme que se vai ver. Seja o Breakdance 2: Electric Boogaloo, o Naked Lunch ou o “Dois paus no cu da Avó”, é um filme que nos acompanhará até ao final dos tempos. Aos 106 anos, no leito da morte, com uma câmara da TVI apontada à nossa moribunda fronha e um clone de Manuel Luis Goucha a fazer perguntas como  “Sente-se feliz por ir finalmente morrer?” somos incapazes de reconhecer qualquer uma daqueles idiotas que dizem ser nossos filhos e netos, mas o primeiro filme que vimos no cinema é projectado frame a frame de um hemisfério cerebral para o outro, incluindo trailers, intervalos e aquele pacote de Malteseres que conseguimos contrabandear porque havia ainda o bom senso de se proibir comida nas salas de cinema.

Tenho que dividir a minha primeira vez em duas primeiras vezes. Sou oriundo de uma terrinha que apesar de pequena é famosa pela doçaria que produz. Nos finais dos anos 70, inicio dos 80 havia um projectista free-lancer que se deslocava às Casas do Povo das vilas sem acesso directo a grandes salas com um projector portátil e dois ou três filmes para passar à malta que se dignasse a pagar uma bagatela pelo bilhete. Incluia dois filmes, normalmente um de artes marciais de Hong Kong (o mítico filmezinho de Karaté) e o erotico/porno. Só me deixavam ver o primeiro e ao intervalo parecia haver sempre uma ruptura de stocks de Sumol e os putos eram expulsos ao pontapé por uma matilha de jovens adultos com ganas quase animalescas de ver a Inga a lamber chantilly das mamas da Helga…

A minha primeira vez oficial foi no dia de Natal de 1982. Sessão da noite. Se não me engano foi no Tivoli, em Coimbra, sala gigantesca para os parâmetros actuais. Centenas de famílias faziam fila na Avenida Emídio Navarro. O vento gélido corria suave como facas afiadas e na marginal ainda se prostituíam crianças, situação que apenas cessou com os escândalo Casa Pia, senão ainda hoje lá havia rabinho de menino em promoção. Curiosamente era uma situação que ninguém falava, toda a gente olhava para o lado, apesar de ser uma rua enorme cheia de putos a atacar. Não fiz perguntas, afinal de contas ia ao cinema e esse seria o pináculo da minha existência.

As luzes apagam e a excitação de centenas de crianças sente-se vibrar em uníssono. Os trailers de Natal. Cão falantes, Pais Natais caídos em desgraça e um filme de porrada e explosões para o Verão. E começa ET. Se apenas a banda sonora arrepia cada pelo do corpo, ainda hoje, imaginem o espectáculo presenciado por uma criança de 9 anos, facilmente impressionável, numa época de TV a preto e branco, apenas um canal válido de televisão, só iogurtes naturais com sabor a ranço, o Dallas era o programa preferido da malta, as pintelheiras não se depilavam e uma mentalidade tacanha que fazia acreditar as nossas mães e irmãs que não se podia tomar banho durante a menstruação.

Foram horas de indescritível encanto, algo que não consigo imaginar acontecer-me nos dias que correm sem um dose dupla de drogas experimentais. Houvesse um máquina onde pudesse enfiar a cabeça para reviver esses momentos e eu não hesitaria, nem que envolvesse o risco de perder um testículo no processo. O que é um simples testículo comparado com a impagável memória da primeira ida ao cinema?

12 Comments

  1. Muito bem escrito. Lindo. Até me vieram lágrimas ao olhos…como se me tivessem apertado os tomates com demasiada força 😉

  2. Vi este em video na altura (não tenho a certeza se era VHs ou Beta) mas era pequenito e foi algo mágico mesmo. As bicicletas no ar…
    É um filme incontornável! Foste agraciado com um belo filme na tua primeira vez no cinema…
    Comigo aconteceu com o “Música no Coração”: http://armpauloferreira.blogspot.com/2010/02/um-dia-fui-ao-cinema-pela-primeira-vez.html

  3. Belo artigo. Ri-me imenso, alias, como já vem sendo habitual na grande parte das tuas escritas.

    Em relação ao conteúdo, a verdade é que não me recordo da minha primeira vez, a minha primeira memória de cinema é do Rei Leão. 😉

  4. Eu sei que ninguém me perguntou nada, mas aqui vai a minha primeira vez:
    Krull (http://www.imdb.com/title/tt0085811/) numa das duas salas do Unicentro El Marqués (http://wikimapia.org/2239962/es/Centro-Comercial-El-Marqu%C3%A9s) na longínqua cidade de Caracas, com uns 6 ou 7 anos de idade.

  5. Gostaria de ter esse tipo de recordaçao, mas infelizmente nao faço absolutamente ideia nenhuma de qual foi o meu primeiro filme no cinema. Já ia ao cinema ainda nem 6 anos de idade tinha, provavelmente ver filmes de animaçao da Disney, mas curiosamente a recordaçao mais especifica q tenho dessa altura foi mesmo de ver filmes do Charlot num festival qualquer dedicado á personagem…nada mau pra um puto q nem sabia ler começar logo a ver filmes mudos a preto e branco lol

  6. A minha primeira vez foi… com o Jurassic Park, num centro comercial qualquer um Lisboa, tinha eu uns 5 ou 6 anos. Lembro-me que não conseguia ficar quieto 5 minutos, e fudia o juizo ao pessoal que estava ao pé de mim.
    Velhos tempos…

  7. Aminha primeira vez foi um filme do Mel Brooks, “History of the world”,.
    Alguém se lembra desse filme???http://www.imdb.com/video/screenplay/vi2343371033/

  8. Claro que me lembro desse filme. Tinha aquela mítica cena do gajo que inventou a música com um calhau nos pés dos colegas.

  9. Não faço ideia de qual o primeiro filme que fui ver ao cinema. Lembro-me da primeira vez mas não sei qual era o filme.Tenho uma memória de uma imagem em que as personagens principais estão a sobrevoar um Oceano num zepelim, ou seria um balão?, e nesse Oceano, ou seria um lago?, estão 2 espadartes, ou algo semelhante, a acompanhar a trajectória do zepelim. Não sendo espadartes eram uns peixes enormes com um chifre bem longo:-). Uma memória demasiado vaga para conseguir achar o mesmo. Devia ter uns 3 anos, talvez,em 83/84, isto sem contar que nesse tempo demorava a chegar cá:-)

  10. Engraçado que também tive a minha primeira experiência cinematográfica aos 9 anos. Corria o ano de 1989 e estreava no cinema lá da terreola (com um modesto atraso de 3 meses!) o muito aguardado – Batman! Foi tudo o que eu esperava e muito mais! Porrada, mortos, um herói equipado com montes de gadgets, uma Kim Basinger com tudo no sítio e um vilão que ainda hoje reservo num lugar especial. Nunca nenhum outro vilão conseguiu ser tão comicamente selvagem como o Nicholson.
    Como ponto alto dessa 1ª vez fica a situação minha situação com um funcionário do cinema que insistia que eu tinha entrado na 2ª parte e não me tinha visto lá sentado na 1ª (por aqui podem ter a noção de duas coisas: 1- a já então fraca adesão ao cinema por aqueles lados e 2- a minha baixa estatura :))

  11. Rei Leão, por volta de 95. Ocupa o único lugar de “filme perfeito”, no meu “eu”.

  12. Não me recordo do ano mas lembro-me que a minha 1ª vez foi a toque de murros com o Rocky no Cinema Charlot em Setúbal… algures em 84 ou 85 talvez… se bem que até custa a acreditar o tempo que o filme levou a estrear naquelas bandas visto ser 1976!

    Doces memórias do ínicio de uma paixão pelo cinema que ainda hoje me custa os olhos da cara…

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