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The Social Network (2010)

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Se eu fosse um multibilionário cujo negócio online rendesse valores na ordem dos milhares de milhões por ano, muito provavelmente gostaria de imortalizar o meu nome na cultura popular. Se os romanos faziam estátuas, hoje fazemos filmes. Eu tiraria da minha carteira de trocos uns míseros 100 ou 200 milhões de dólares, contrataria um renomeado realizador como tarefeiro do meu projecto cesariano e criaria um mito à minha volta. Gostaria de ser retratado como um génio de personalidade granitosa, aparentemente impiedoso e calculista, mas na realidade um coração mole que apenas demonstraria em momentos de vulnerabilidade ou quando quisesse facturar em larga escala, o que na realidade nem era preciso porque, convenhamos, com milhares de milhões a caírem anualmente até poderia ter 24 tipos diferentes de SIDA e hálito a sardinha podre e a própria miss Universo me viria pedir permissão para se ajoelhar e assim me doar um generoso felácio.

Compreendo perfeitamente a existência neste filme, o momento é o ideal. A imagem de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, como a mais intergaláctica super-estrela da actualidade e se há momento para a rentabilizar, o momento é este. Também compreendo o fascínio mundial por este filme, numa altura em que tudo o que é Facebook é motivo de interesse. É a buzzword do momento, que ameaça mesmo destronar o verbo googlar no topo dos chavões tecnológicos para impressionar parolos inebriados em festas pouco inspiradas. Até na Antena 1, todas as manhãs há um desgraçado que tem cerca de um minuto para fazer a ronda pelas redes sociais e esse minuto é sempre algo do género “Nas redes sociais temos grandes novidades. Existe uma página nova no facebook que exige o regresso de Olga Cardoso às manhãs da TVI ou, em alternativa, um novo gelado de sabor a fiambre com a forma do Suriname, período 1924-35.” Resumindo, o mundo anda apaixonado pelo facebook.

Social Network vem mamar todos aqueles dólares perdidos na órbita do Facebook, aquelas migalhas que o comilão Zuckerberg deixa para trás que os seus seguidores usam para se financiarem também na vaga do social networking.

Mas como filme não me seduz. Olhando para a obra de David Fincher, não consigo compreender como se deixou enredar neste folhetim de hype, tendo prescindido de toda a sua personalidade e capacidade de grande realizador que é. Tirando a sua equipa técnica que produz um belo visual dourado e rico em texturas, temos uma fraca narrativa que podia muito bem ser condensada em 4 páginas na Lux Woman com o título “Mark Zuckerberg trai o seu melhor amigo em noite de orgia de sexo e drogas. A sua mãe fala-nos do drama que ainda vive e o seu avô exibe pela primeira vez em público o par de ceroulas que tinha vestido quando III Reich sucumbiu à investida soviética a Berlim.”

Temos, portanto, um filme fraquinho que se aproveita do povo para sacar dólares, uma narrativa perdida e ténue que se nunca se decide do que abordar, se o drama existencial de Mark como o Forrest Gump da Internet ou a guerra judicial pelos direitos da plataforma. Além disso também o achei demasiado polido, como se tivesse sido branqueado para abarcar camadas mais jovens de público, no sentido de … Exacto, sacar mais dólares! O próprio núcleo propulsor do filme, a facto de Mark ter iniciado a sua carreira meteórica porque foi rejeitado por uma namorada, nunca nos faz identificar e compreender a sua personalidade e motivações. O que é estranho, porque foi um belo alicerce emocional que Fincher não aproveitou bem. Ah, e já agora, o mambo jambo informático também é de enfiar os dedos à boca.

É hype, puro e duro. Um caça tansos épico que se arrastou pelas bilheteiras adentro qual locomotiva descontrolada, acabando mesmo por estacionar nos oscares, garantindo um belo resultado na venda de DVDs, Blurays, VODs e direitos de transmissão.

Em anexo deixo-vos o já incontornável “How… Should Have Ended” que faz um belo resumo do filme mas que também não traz lá grande frescura ao final.

4 Comments

  1. Concordo a 100%, esopero que o Fincher se redima disto.

    Quero é ver um critica ao True Grit, acho que vais gostar desta nova encarnaçao do Rooster Cogburn

  2. Concordo com TUDO o que dizes, mas ao mesmo tempo não desgostei do filme, e até gostei. Mas daí a estar metido nos Oscares e receber toda a aclamação que recebeu….vai um longo caminho de suits mafiosos e broches de bastidores.
    Como filme pra se ver no PC assim como quem não quer a coisa (foi o meu caso), até se come muito bem e nao chateia nem ofende. Mas de resto, ya, não fica na memória nem nada do género. Não é realmente um BOM filme, imo.

    Btw, kudos pela referencia ao Suriname. Pra mim qualquer pessoa que mencione algum país dessa zona em particular merece respeito. Eu é mais Guiana Francês, lol

  3. Nem todas… Há ainda algumas que resistiriam e não se deixariam seduzir pelos míseros milhares de milhões. Era um sacrifício que não valeria a pena.

  4. gostei do filme. é um bocado fincher por encomenda, mas o argumento é muito bom, e os diálogos também. o true grit e o black swan são melhores though.

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