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Escape From New York (1981)

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Todos sabemos que o Apocalipse tem muito pouco interesse cinematográfico. Muito frouxo. Uns misseis nucleares, a malta a ser incinerada viva enquanto foge, os governos do planeta a colapsar em anarquia e vazio de poder, as infra-estruturas a falharem e um regresso à idade média devido à destruição da última tecnologia existente por bombas de impulsos electromagnéticos. E depois, nada… Silêncio, fumo, pó, mortos, milhões de mortos nas ruas. Não há pássaros no céu nem animais nas florestas. As cidades arrasadas e os campos que ainda parecem produtivos todos contaminados por radiação e armas químicas. É depois disto, quando começam a emergir os primeiros sobreviventes, quando começam a juntar-se os primeiros grupos, quando o engenho primitivo começa a reconstruir uma nova ordem mundial é que as coisas começam a ganhar interesse. É esta reconstrução que tanto amamos, esta esperança que mesmo depois do fim as coisas podem continuar. Benvindos ao pós-apocalipse.

Tecnicamente Escape From New York não é bem um filme pós-apocalíptico. Trata-se de um género quase gémeo, o filme de Sociedade Distópica. Mundo colapsa, é necessário um regime totalitarista para meter o sociedade no sitio. Estamos em 1997 e o crime subiu tanto que tiveram que transformar Manhattan numa ilha prisão para albergar todos os criminosos violentos num ambiente contido, sem autoridade, vedado do mundo. Azar dos azares, um evento “Deus Ex-Machina” faz com que o Air Force One caia na ilha e o presidente fica refém dos gangs de tresloucados que habitam a ilha. Cabe a Snake Plissken, um bad ass da velha guarda, entrar à cowboy na ilha, distribuir bofetada nos “crazies” e trazer de volta o tão amado presidente.

Esta é uma das obras primas de Carpenter, uma referência pelo qual todos os seus outros filmes são medidos. A história é simples, entrar, salvar, sair, com alguns malabarismos narrativos pelo meio, mas o excesso dos anos 80 (ainda nos primordios) era já óbvio no espampanante modo de vida dos “Crazies”. O cinema pós-apocalíptico dos anos 80 era muito popular porque permitia exercícios de estilo nas tribos pós holocausto, fosse nas roupas alucinogénicas, nos meios de transporte onde o factor utilidade era secundário face à necessidade de futurismo ou na própria organização social das tribos, com muita poligamia, bisexualidade, pessoas “diferentes” ou o mais gratuito espalhafato multicolor próprio de quem não tinha limites para criar.

A palete de actores é uma invocação de todo o imaginário do final dos anos 70. Lee Van Cleef é o habitual cowboy alpha dog, Ernest Borgnine o bonacheirão side kick, Isaac Hayes o chefe dos crazies e um jovem Kurt Russel que acaba por convencer contra toda as vozes que diziam não ser papel para ele. E ainda a então esposa de Carpenter, Adrienne Barbeau, dotada de um impressionante par de marmelos que Carpenter gostava de ostentar nos seus filmes. Como quem diz “Mamas, aqui!”.

Revi este filme a semana passada, em glorioso HD, e posso dizer que gostei tanto de o ver agora como da primeira vez que o aluguei em VHS. De lá para cá as coisas mudaram. Este filme tem alma, textura, garra de artesão. É certo que Carpenter não entra quase nunca na primeira divisão dos realizadores dos últimos anos, mas provavelmente nunca foi essa a intenção. No entanto o seu nome está constantemente a vir à baila quando se fala de cinema de culto, de filmes que vimos que nunca mais nos abandonaram. Carpenter é grande, apesar do colapso na sua carreira depois dos anos 90.

Como nota de rodapé, deixo-vos uma fotografia do absolutamente genial carro de Isaac Hayes como lider das gangs maléficas. Eu próprio me sinto tentado em arrancar os candeeiros de casa da minha avó para os afixar no meu carro. Mas sei que a inveja dos meus pares seria lesante da minha integridade física e moral. Não se nota, mas pendurado por baixo do espelho está uma bola de espelhos à escala de 1:1.

1 Comment

  1. Laser operator

    July 29, 2011 at 11:19 pm

    Depois de ter lido a tua crítica, adquiri esta preciosidade. A primeira vez que o vi deve ter sido lá para o final dos anos 80, e de facto envelheceu muito bem, lindamente embrulhado em HD.
    É das temáticas no cinema que mais aprecio, e era um dos tais que tinha que rever. Só lhe acrescentava mais factor nipple, se bem aquele decote maroto… ui ui!

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