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Total Recall (2012)

totalrecall2012

Nos anos 80 não havia Internet para as pessoas se rirem de patetices, então recorria-se a cassetes de anedotas que eram passadas de amigo em amigo numa rede social analógica de partilha. Eram cassetes sem dono, aventureiras com vida própria que numa semana estavam em casa do filho do padeiro e noutra estavam entaladas numa pilha de Playboys daquele puto esquisito que só vestia camisolas tricotadas pela mãe. As mais famosas eram de uma enigmática figura chamada Canty (O Cantinflas Português), numa homenagem de qualidade duvidosa ao célebre actor mexicano de comédia Cantinflas. Uma das anedotas de que me lembro melhor era do formato “Joãozinho” em que a professora faz perguntas e os alunos respondem. Neste caso a pergunta era “O que viram ontem na televisão?”. Os meninos responderam normalmente e no final o Joãozinho respondeu “Nós não temos televisão, mas o meu pai vai para o meio da sala dar peidos e a gente bate palmas e ri-se…”. Na altura não me ri porque nem sequer percebi o conceito de alguém juntar um grupo de pessoas em seu redor para os entreter com flatulência. Fastforward quase 30 anos para os dias de hoje e começo a compreender que dar peidos para uma pequena audiência familiar já não parece tão ridículo como antes e que poderá ser uma melhor alternativa de entretenimento do que 70% da programação de cinema/TV da actualidade.

E é impregnado pelo espírito “mais vale ver o pai aos peidos que assistir a este horrendo filme” que insiro o novo Total Recall na categoria de “nunca deviam ter deixado sair vivo da reunião o tipo que lançou esta ideia”. E é a minha sincera opinião, não o escrevo apenas porque gosto de meter longas frases em itálico dentro de aspas.

O Total Recall de 1990 apanhou-nos a todos, os filhos dos gloriosos anos 80, numa época de crescente esplendor schwarzenegguiano que ainda ia a meio mas que nunca no tinha desiludido. Isto porque ainda não sabíamos que nesse ano iria estrear o Kindergarten Cop. Só que, para nossa surpresa, Total Recall foi muito mais que uma extravagância Schwarzeneggesca. Porque tinha sido baseado numa história de Philip K. Dick, que lhe garantia a profundidade narrativa e as múltiplas interpretações que convém a uma história intemporal. Porque foi realizado por Paul Verhoeven, o enfant terrible de Hollywood que nunca viu a sua genialidade reconhecida. E porque Sharon Stone nos mantinha as hormonas no topo da efervescência. Além de tudo isto, é um filme que se renova 3 ou 4 vezes durante a narrativa expandindo novas e impressionantes possibilidades de modo perfeitamente contextualizado. É certo que há quem não lhe dê o devido valor porque é associado um filme de plebeus só porque tem o Schwarzenegger.

Com a estreia deste remake dá-se final finalmente valor à profundidade do original. O que Len Wiseman (quem?) fez aqui foi absorver apenas que no original havia porrada, perseguições e uma ou outra explosão, construindo um dispendioso episódio de duas horas do Tom e Jerry onde de positivo apenas arranjou dois gloriosos rabos sem nem sequer os saber usar como mecanismo de “arrebita hormonas”. Diluiu o filme original, cagou e mijou por Philip K. Dick abaixo e contribuiu para que se dê valor às grandes obras do passado em detrimento destas poias fumegantes que Hollywood agora parece defecar semanalmente. Num mundo destes, rir e bater palmas dos peidos do papá não parece um plano muito mau para uma noite de diversão.

O casting foi também errado. Colin Farrell não é, nem nunca será Douglas Quaid, seja nas colónias pobres da Terra ou nas planícies vermelhas de Marte. Tirando os rabos gloriosos de Jessica Biel e de Kate Beckinsale, nada mais fica para oferecer por partes destas actrizes. Jessica enjoada, Kate faz o que pode mas nunca será uma action star. Nem com lobisomens, nem com vampiros, nem com polícias cyborgs, nem com o caralho…

É o fogo de artifício e excesso de presunção que fazem deste filme um vazio absoluto que nem para acompanhar pipocas serve. Saliente-se ainda uma cena em que o realizador quis dar profundidade ao filme, o célebre cliché sci-fi “Is this the real life, is this just fantasy” em que me apeteceu jogar os braços ao ar e gritar “Porquêêêêêê?!?!?…”com o Adagio in G Minor de Albinoni e o som de helicópteros em câmara lenta em música de fundo.

Fiquemos então com Canty, o Cantinflas Português.

2 Comments

  1. também tem a gaja com as três mamas?

  2. Tem a gaja das três mamas, mas não tem a naturalidade da original. Enquanto que no original dava mesmo vontade de ter três mãos, aqui dá vontade de tirar uma foto e mandar para o Correio da Manhã.

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