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Red Dawn (1984)

Uma das maiores ameaças à nossa felicidade é quando alguém nos quer desvalorizar as ilusões. Pequenas coisas que mantemos à tona da consciência sem forçar o raciocínio sobre as razões da sua existência, pois sabemos que se podem tornar tóxicas ou desinteressantes levando à desintegração de algumas das memórias de sensações que nos fizeram felizes. Isto acontece frequentemente a nós, os chorões dos anos 80, que encontramos em cada memória de infância uma caixinha de surpresas, que pode ser uma confirmação de algo realmente significante ou o constatar que andámos quase 30 anos a idolatrar uma bela poia de merda fumegante.

Digo isto sem o relacionar directamente com o filme em epigrafe, mas porque há uns dias li um artigo numa conceituada revista online estrangeira (logo credível) que pensar que as referências culturais da nossa geração têm mais qualidade que as das gerações seguintes é um mito urbano provocado pelo nosso cérebro que se agarra demais à altura em que fomos mais felizes. Que costuma coincidir com a idade pré-adulta, sem chatices de emprego, créditos, casamentos, filhos ou qualquer estaca metafórica que nos obrigue a ficar no chão, amarrados às chatices do dia-a-dia. Quererá isto dizer que o remake do Total Recall é melhor que o original de 1990 e o meu cérebro é que me distorce de tal maneira a realidade que não consigo distinguir com clareza o mérito do embuste? Não, claro que não. O remake do Total Recall é unanimemente reconhecido como “um tumor cinematográfico indutor de tédio”. No entanto não se poderá dizer o mesmo do remake de BSG Galactica. Por muito que tenha amado a série original quando andava na escola primária, a fazer naves de tampas de canetas BIC e a escolher os putos que gostava menos como cylons nas brincadeiras do recreio, tenho que admitir que as 4 épocas e a mini~série da Galactica de 2004 são puro êxtase televisivo.

Fast forward para a semana passada. Vi o Red Dawn em gloriosa alta definição com som cristalino, bem diferente da minha cópia VHS de 7ª geração, quase sem cor, formato 4:3 com os bordas comidas, o som de uma coluna mono rasgada e tapada com um par de meias. O resultado foi um misto de estupefacção com encanto adolescente.

O que é afinal Red Dawn e o que significa para um rapaz de 13 anos em 1986?  O argumento de Red Dawn foi algo de maior do que a própria vida nos anos 80. Era o tempo da guerra fria e o mundo inteiro vivia da ameaça de eminente guerra mundial. Mesmo em Portugal, longe da URSS e dos States havia alguma perigo, porque as TVs passavam todo o tempo a dizer que o armamento nuclear das superpotências era suficiente para destruir o planeta meia dúzia de vezes, e por muito no cu de judas que fosse um país, não havia hipóteses de se aguentar aos 100 anos de Inverno nuclear que se previa. Era o chamado sindrome da espada de Democles.

Red Dawn conta a história de uma invasão soviética que ataca de surpresa uns Estados Unidos da América desprevenidos. Tudo começa numa escola, num dia de aulas perfeitamente banal. Quando começam a cair paraquedistas e toda a gente começa a ser metralhada percebe-se que “all hell breaks loose”. Um grupo de miúdos da idade do público alvo do filme enche uma carrinha de armas e munições e foge para as montanhas para armar um acampamento de resistência. Ataque em ataque vão enfrentando os russos, que se tinham associado aos cubanos e a meia dúzia de países sul americanos que na altura não morriam de amores por Ronald Reagen. Os elementos das mais comuns fantasias juvenis estavam lá, um grupo de miúdos a combater como nos filmes de acção que tanto gostávamos, emboscadas, lança misseis, tudo aquilo que eu preferia fazer em alternativa a ir para as aulas aturar velhos a debitar discursos monocórdicos de Eça de Queiroz e fotossíntese. De batalha em batalha os wolverines iam conquistando o poderio soviético que parecia nunca aprender como se defender de meia dúzia de crianças. Ainda havia um personagem do lado evil que no final se redimia porque se identificava mais com o american way do que com a ideologia comunista do soviete supremo. O sonho molhado republicano. O mundo a preto e branco, bons e maus, paz e guerra, connosco ou contra nós.

Anos passados e como se sobrevive esta obra ao tempo? Uma mistura de emoções. É fabuloso ver Patrick Swayze e Charlie Sheen novíssimos numa das suas primeiras performances. Muitos actores novos que mais tarde iriam conhecer a fama da primeira divisão, como a gaja do Dirty Dancing ou a mãe do McFly J. Fox. O tom do filme é muito mais negro do que me pareceu nos anos 80. Aquelas crianças a verem os seus pais serem assassinados em pelotões de fuzilamento, genocídio e a morte de amigos e namoradas dos modos mais inesperados e violentos. Ah, bons tempos! Curiosamente não havia sexo, porque as crianças que podiam chocar-se por ver nudez entre um ou outro esventramento ou decapitação.

Por outro lado o argumento é escasso, demasiado preocupado em mostrar a raça da resistência americana e pouco interessa em demonstrar como foi possível milhões de soldados, milhares de aviões, barcos, tanques, comboios de equipamento tenham chegado ao centro do país sem ser detectado. Na altura queria ver tiroteio e matança, desta vez estava mais interessado em perceber o contexto geopolítico do conflito. É da velhice, presumo.

Foram belos momentos que revi, com os cheiros e sensações dos anos 80 ali sentados ao meu lado, invisíveis e omnipresentes como que a dizer “Everything’s gonna be alright” mas que eu interpreto nos dias de hoje como “Never gonna give you up, Never gonna let you down, Never gonna run around and desert you

Só quando fui aos foruns da IMDB ver a malta toda à bofetada por causa de pormenores insignificantes deste filme (e de todos os filmes) é que vi que ia estrear um remake. Protagonizado pelo Thor e por um bando de bandalhos e umas jeitosas que parecem andar  sempre lavadinhas, penteadinhas, depiladas e maquilhadas independentemente do facto de todas as infrastruturas terem colapsado e viverem no meio da floresta a limpar o cu a couves e a comer bagas e frutas que não ajudam nada a um trânsito intestinal regular.

Lets Luke ETA treila:

RedDawn198400

1 Comment

  1. É um dos meus filmes favoritos dos anos 80. Passava regularmente no Canal Sur e eu via-o sempre até ao fim. É como dizes, um filme que se dirigia a um publico jovem como eu o era na altura, mas a verdade ainda actualmente sempre que sempre que faço um percurso pedestre pela serra de S.Mamede me vêm esta ideia de que em caso de invasão posso sempre fugir para lá e montar a minha própria guerrilha.

    Há também um filme com um mote idêntico que gosto bastante – apesar de levar normalmente na telha por admiti-lo, Invasão USA, do Joseph Zito e com o supremo Chuck Norris! “A América não estava preparada mas ele estava”. Inesquecível!


    Pedro Pereira

    http://por-um-punhado-de-euros.blogspot.com
    http://destilo-odio.tumblr.com/

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