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La Jetée e a subjectividade da segunda visualização

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Esta pretende ser uma primeira abordagem a um velho tema do universo da critica cinematográfica, que é uma segunda avaliação a um filme e um resultado completamente diferente da primeira. Todos já passámos por situações similares. Um filme que foi bom (ou mau) e que a uma segunda visualização, depois de um considerável período de tempo, afinal teve impacto completamente diferente. Os factores são vários, conhecidos e comuns. A companhia, o estado emocional ou hormonal, influencias psicotrópicas e índice de embriaguez, o peso do hype ou o amour (toujours l’amour). São influências temporárias que nos toldam o juízo e nos fazem, afinal, humanos.

Hoje falo em concreto do filme de Chris Marker de 1962, La Jetée, uma pequena jóia de valor incalculável. Conhecida por muitos como sendo a fonte de inspiração daquele que haveria de ser o Twelve Monkeys de Terry Gilliam, La Jetée é algo de muito mais abrangente. É uma curta história futurista (de meia hora) de um prisioneiro de guerra usado para testes científicos no âmbito das viagens no tempo. Faz incursões no passado e no futuro e acaba por se afeiçoar a uma jovem donzela da timeline actual (dos anos 60, vá!). A estética do filme é muito própria, pois trata-se de um slideshow narrado. Imagens de extrema qualidade que contam uma interessante história. Há apenas uma sequência de live action em que a moça abre os olhos franceses cheios de líbido feroz.

O que me traz aqui hoje é a disparidade nas minhas análises das vezes em que o vi. A primeira vez foi na altura da estreia de Twelve Monkeys. Uma sessão de cinema do submundo académico que nem chegou a lotar a minúscula sala onde foi projectado. Os habituais intelectuais dos óculos de massa de uma época pré-blog, pré-hipster, pré-facebook. Havia IMDb em HTML e gifs animados. Era a malta dos diversos núcleos das associações académicas, dos jornais de faculdade, das gajas que passavam por fases existenciais que achavam que depois de experimentar todos os tipos de macho, o intelectual seria o perfeito para casar. Seis shots de vodka e nove imperiais depois haveriam de estar de joelhos a fazer um felácio a um talego de desporto ou a um segurança da discoteca da moda e a chorar lágrimas de angústia por cima da maquilhagem que se estende até à base do rosto, qual Alice Cooper em final de espectáculo.

Esse primeiro visionamento de La Jetée deu origem a longas conversas pseudo-científicas de teorias de viagens no tempo e física quântica simplista e pueril movida muitas vezes a álcool e THC de péssima qualidade. Foram largas as semanas em que se multiplicaram as implicações das viagens no tempo, do efeito de matar o próprio pai antes da nossa concepção, as tropelias do gatinho de  Schrödinger e no que faria Einstein se afinal a ciência vier a dar razão aos motores Warp idealizados por Gene Roddenberry. Os plot holes, os paradoxos, os what ifs, cenas man cenas…Bom, e era isto que nos fazia passar as longas noites em bares mal iluminados e provavelmente ilegais onde havia sempre uma insuportável criatura mal lavada que insistia em nos importunar com uma guitarra acústica e as suas versões ainda mais desafinadas de Nirvana.

Voltados estes anos todos, em que os nossos sonhos mais loucos se perderam nas areias do esquecimento e outros mais realistas e humanos os substituíram para nos tornar em seres funcionais e normalizados perante uma sociedade que não dá grande tolerância á diferença, voltei a ver Jetée. E tive que o fazer duas vezes seguidas.

Eis que o filme se revelou como sendo uma versão diferente de si próprio. O peso da idade e da experiência dos anos fez-me compreender de modo totalmente díspar daquele que foi uma trip “bué espectacular” em 1995 (talvez 1996). O que me deslumbrou desta vez? Todas as considerações acerca de viagens no tempo me passaram ao lado. Implicações, possibilidades, paradoxos, bifurcações e o loop que encerra a narrativa. O que me fascinou foi a história de um homem, o protagonista que aprendeu a viajar no tempo, que foi criando laços e ligações nas suas viagens. No final, quando lhe foi dada a possibilidade de ter tudo, de ganhar a imortalidade, da segurança, fortuna e glória, o que é que este homem escolheu? Qual foi a sua decisão final? Este homem escolheu voltar à mulher que aprendeu a amar, voltou para um tempo que sabia ser fatal, curto e sem futuro. Mas este homem trocou tudo por um momento, que sabia curto, por um pouco de amor. E não estou a ser lamechas, porque quem não precisa de um pouco de aconchego no seu coração? O próprio Nietzsche que negou por completo o sentimento e defendeu a causa emocional Terminator enlouqueceu por causa de uma mulher e passou os últimos anos da sua vida a escrever o seu nome nas paredes com fezes e sangue.

Essa é que é essa. Deixo-vos o filme integral no Youtube com legendas em Inglês. Cultivem-se suas bestas, porque este é um dos melhores filmes de todo o sempre. Powerpoint style. E é com amor que me despeço, para cada um de vocês que estão desse lado, estejam nus ou vestidos, brancos ou menos brancos, gostem de mulheres, homens ou animais de médio porte em estado de decomposição. Tudo é amor.

Koniek.

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