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Os scifis alucinogénicos dos anos 90

Naked Lunch 2

Esta semana um amigo chamou-me a atenção através de um link no facebook para uma review a um filme scifi dos anos 90 chamados Space Truckers. Cliquei no vídeo e de imediato o meu cérebro explodiu em recordações e referências obscuras de filmes que tinha visto e por alguma razão o meu cérebro achou por bem omitir. Os anos 90 foram profícuos em projectos imaginativos e de multicores caleidoscópicas, em arrojo e coragem de avançar por terrenos desconhecidos ou excêntricos. De modo mais ou menos feliz, todos garantiram lugar na memória dos tempos. Ao contrário do que se faz actualmente, reciclagem e reaproveitamento de fórmulas gastas, os estúdios dos anos 90 permitiam-se a algum divertimento, os actores aceitavam papéis perfeitamente fora do âmbito da sua paleta de representações. Os executivos, imersos em trips intermináveis de cocaína, assinavam qualquer delírio narrativo que lhes colocassem na mesa, enquanto os sesu advogados se deliciavam sexualmente com autocarros de putedo multigénero (e às vezes equídeo)  que lhes era entregue ao domicílio.  Vamos aqui falar de alguns destes filmes e dos elementos que fazem deles autênticas pérolas de devaneio criativo, coragem e testículos de aço. Dois de cada vez, para não enfartar.

Space Truckers (1996)

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Space Truckers é um filme que dificilmente passa despercebido. Tive o prazer de o receber depois de algumas semanas de hype nos newsgroups de cinema e fiquei deleitado com o resultado. Digamos que cor não lhe falta. É um filme de camionistas, em apuros, no espaço. O esquema é cheesy e divertidíssimo e o resultado é uma obra chave no género que costumo apelidar de “alienígena escaganifobético”. Não estamos a falar de um obscuro filme europeu com fundos coreanos e holandeses filmado em inglaterra para parecer americano, estamos a falar de um filme com meios e pessoas das listas A de Hollywood, orçamentos à grande. Dennis Hopper, pelo menos um Lannister e o realizador que nos trouxe Re-animator e From Beyond. Não é propriamente o rei do box office mas os seus filmes são bons.

É um filme impressionante à época, com uma saudável mistura de CGI com efeitos práticos e um vilão digno do estrela na calçada da fama. Uma liberdade criativa sem limites levaram a um filme divertidíssimo que só peca por não passar uma vez por semana no canal Hollywood.

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O elemento chave que nunca irei esquecer são os porcos cúbicos transportados pelo camionistas do espaço, mais fáceis de armazenar e com os ossos geneticamente removidos para as pessoas não se engasgaram ou para que uns amotinados numa lua prisão não possam usar um pernil como arma branca . Há que admirar pessoas que se preocupam com esta logística. Resta dizer aos amantes dos animais que nenhum porco viu a sua geometria alterada no decorrer das filmagens, aliás, nenhum porco verdadeiro foi sequer usado nas filmagens, excepto algumas costoletas, febras, salsichas e entremeada nos intervalos para almoço.

Tank Girl (1995)

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Tank Girl aterrou nas salas com a suavidade de um camião de tijolos desgovernado a chocar contra uma ala de cuidados intensivos de um hospital pediátrico. Nada neste filme é subtil, é pura fúria punk, tensão lésbica e libido marsupial. Nunca ninguém consegue tirar da cabeça a imagem de um Ice-T (na altura no pico da fama) Canguru e da sua tribo claramente metáfora para “Hey psst, isto é um gang de negros. Aqueles que costumamos chamar de pretos quando eles não estão presentes” que, com boa orientação e motivação, conseguem combater o mal e ajudar gajas boas. Algumas alusões a sexo inter-espécies, lesbianismo e um hino à anarquia. O que há aqui que não se possa amar?

Uma distopia Madmaxiana com naves espaciais num regime liderado pelo omnipresente Malcolm McDowell (versão holograma), uma Naomi Watts sidekick em versão morena geek de levar pau de modo fulminante, banda sonora pós-Grunge tipicamente 90s (que vale por si só) e a melhor maneira alguma vez imaginada para arranjar água.

O elemento que se destaca é claramente a tribo de homens canguru que assusta a um nível perfeitamente visceral quando pensamos tratar-se de uma expiação racista de um qualquer escritor / desenhador. Muito me fartei eu de ver este filme em VHS em tertúlias aditivadas a coisas que não estão propriamente na graça do senhor. Uma vez mostrei-o a uma amiga para a impressionar e tentar facturar uma espetadinha de carne, mas a moça ficou horrorizada porque, aparentemente, eu não teria gostos normais. O desplante daquela puta…

Para a próxima vamos falar de Naked Lunch e Johnny Mnemonic para recordar aquilo que nos fez ferver o sangue quando achávamos que camisas de flanela e cabelo comprido era boa ideia para um look masculino.

Não irei falar aqui de BDs que possam ter dado origem a alguns destes filmes porque isso levar-nos-ia para um trilho muito obscuro e sinuoso.

Trailers destas obras máximas.

2 Comments

  1. Só agora vi o trailer, até hoje só tinha visto fotos, e agora fiquei com curiosidade para ler a BD da Tank Girl. Tenho que procurar nos scans…

  2. A única coisa boa que me recordo do Tank Girl é a Lori Petty, no que foi o último filme que vi com ela, tirando alguns episódios de tv aqui e ali. Acho que este filme acabou com a carreira dela.
    O Space Truckers vi-o muito recentemente na televisão pela primeira vez, esqueço-me do canal. Bem divertido. Pergunto-me se não terá sido a fonte de inspiração para o episódio Heavy Metal Queen do Cowboy Bebop.

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