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Zombie Hunter e a escassez contemporânea de boa série B

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Não sou contra a tendência dos grandes estúdios enveredarem pelo caminho do Grindhouse e filmes em homenagem à gloriosa série B que fez de nós homens (ou mulheres ou híbridos extraterrestres). Fazem-no com bons orçamentos permitindo a realizadores antes vetados à poupança extrema alargarem os seus limites a algumas das mais explícitas e realistas carnificinas alguma vez vistas. O problema é que esta vaga de série B mainstream veio matar a verdadeira série B, retirando-lho grande parte do escasso mercado que ainda tinha. De repente os pueris cinéfilos das nossas praças acham que Machete, Death Proof e Planet Terror são o “real deal”. Acham que os vampiros, lobisomens e zombies são assunto para blockbuster e para o Brad Pitt humedecer quanto vagináceo  trintão e quarentão por aí haja. Com este misto de boa vontade com o mais fétido mercenarismo comercial, as produções de série B que fizeram de países inteiros notáveis fontes da cinéfilia do culto do morticínio começam a desaparecer no nosso panorama. Onde antes haviam vagas de géneros exploitation capazes de encher duas salas de prateleiras com capas VHS amareladas, hoje lá vão saindo um ou outro ocasionalmente. Os Asilum e os SyFy não contam, porque são fruto da mesma desonesta exploração comercial que os blockbusters de zombies. Só que em vez de fazerem um filme, fazem 2500 com o mesmo orçamento. Opções…

Ao se ver sem espaço, a verdadeira série B volta-se para estratégias de financiamento alternativas. Há uns meses numa entrevista a um realizador de pequenos filmes de terror perguntavam-lhe pela fonte de financiamento dos seus filmes. É certo que são orçamentos de milhão ou milhão e meio de dólares, amendoins para a indústria de cinema americana, mas a feitura de um filme destes parte de dois pressupostos: a existência de financiamento e a subsequente recuperação box office (ou pelo menos o break even para manter o dinheiro a rolar). A resposta surpreendeu-me. Aparentemente o aparecimento de plataformas de Streaming (como o Netflix ou outras quaisquer que por alguma obscura razão continuam afastadas do mercado nacional) tem vindo a financiar esta indústria. O Netflix paga, por exempl0, 20 milhões por 20 filmes a serem entregues ao ritmo de 3 por ano. A produtora, ao estilo de Roger Corman, usa esse valor para construir uma plataforma onde possa fazer filmes reciclando elementos, um framework de produção partilhando recursos, filmando de ângulos diferentes, mudando as móveis, etc. Sobrevive-se e a indústria promete mesmo florescer, ao estilo Cinecitá. Consegue suaves lucros através de estratégias de gestão de recursos, dá para pagar as contas e é honrado.

Não estamos a falar de filmes que possam constituir uma dieta exclusiva para um cinéfilo íntegro, mas como em tudo na vida convém variar, consumir de todos os grupos da pirâmide alimen…  de conteúdo cinéfila. Neste espírito vi Zombie Hunter. Olhando para a capa, as fotos de promoção ou o trailer podemos facilmente depreender que ali não existe a presunção de elevação artística ao Olimpo dos mestres da sétima arte. Tem uma cena em que uma gaja pára para cagar a meio de um raid zombie. Um espelho da vida real, portanto.

A história é a mesma de sempre. Evento despoleta o zombie apocalypse. O que resta da humanidade tenta sobreviver num futuro ligeiramente steampunk despachando zombies à força de shotgun e catana. Os sobreviventes aniquilando-se mutuamente porque é esta a verdadeira natureza da humanidade. As jeitosas mostram as mamas e a depilação meticulosamente efectuada mesmo depois de meses a viver na idade da pedra, os machos alfa anulam-se ao pontapé até haver só um, as armas e munições parecem ter um stock eterno, há uma salutar homenagem ao V8 do Road Warrior. Danny Trejo aparece uns minutos a fazer “graurrr” e cortar cabeças à machadada no seu eterno registo “machete kills”, grafismo grindhouse de Tarantino/Rodriguez (provavelmente os mesmos templates pirateados por torrent) e monstros CGI perfeitamente desenquadrados da realidade. Aquilo que todos amamos.

Resumindo, todos sabem ao que vão quando se vê um filme destes. Mamas, gore de baixo orçamento, clichés narrativos porque não há muito tempo a perder com aprofundamento de personagens e do inter-relacionamento, safardanas sem escrúpulos e os vilões ainda são piores. Aquele familiar limbo permanente de que ou é assustador ou é involuntariamente hilariante. Ou voluntariamente, dependendo da capacidade de encaixe do realizador.

E foram assim que cresceram grandes nomes, como Sam Raimi que parece acertar pouco quando anda fora dos filmes de terror, James Cameron e as suas piranhas amestradas que ainda hoje incute algum espírito B às reviravoltas dos seus argumentos (apesar da qualidade questionável das suas obras recentes), a oscarizada Kathryn Bigelow que andou ás turras com monster movies, Hitchcock que podia ter tido azar na sua onda e safou-se que nem um lord, etc. O que quero dizer é que esta plataforma tem potencial de criar grandes artistas e por vezes boas obras criadas nesta incubadora de cinema passam despercebidas por causa do estigma preconceituoso associado a estes filmes. Por isso vos peço que adoptem um filme de série B de vez em quando, falem dele, mal se for preciso, mas falem. Tirem ocasionalmente a cabeça do anus de Hollywood para olhar em volta, ver filmes de terror europeus, policiais orientais ou dramas familiares sul americanos.

Já agora, querem saber como aceder ao Hulu e ao Netflix neste jardim à beira mar plantado e completamente dominado pelas máfias dos videoclubes da Meo e da Zon e os seus 5 euros por filme. Ok, é simples. Instalem um plugin chamado Media Hint. É tão espectacular que o Chrome o removeu do repositório oficial, mas pode ser retirado do site oficial. https://mediahint.com/ Depois é seguir as instruções e o Hulu começa logo a funcionar. Ainda agora o fiz para testar e já ia quase a meio de um filme do Chuck Norris. Aproveitem enquanto há. Para o Netflix é preciso criar uma conta e pagar os miseráveis 9 ou 10 dólares por mês para terem acesso a um acervo gigantesco. Força nisso!

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Bonus track:

10 Ways B-Movie Master Roger Corman Changed Filmmaking

http://www.wired.com/underwire/2011/12/roger-corman/all/

3 Comments

  1. mas no netflix e hulu dá para ver os filmes com legendas pt?

  2. Nop. Isso já era demais. Pelo menos até disponibilizarem o serviço em PT.

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