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Edge of Tomorrow (2014)

edgeoftomorrow

Há algum tempo atrás estava num fórum de cinéfilos duros, malta insensível às formulas gastas do mainstream, e numa thread de  novidades perguntei que tal era o novo filme do Tom Cruise. penso que na altura era o Jack Reacher. Esperava eu um tom jocoso e brutalmente cruel para com a vida e obra deste excelso cientólogo quando um dos históricos me responde assim: “Há algum filme do Tom Cruise que seja mau?”. Ora isto meteu-me a pensar na vida, no universo e, na verdade, em toda a existência. Um movimento gasto, inconstante e empoeirado de velhas rodas dentadas deu-se na zona encefálica desta velha carcaça e começou um exercício de pesada ponderação que viria a durar dias.

Nunca fui grande admirador de Tom Cruise porque, como tão bem sabemos, é um galã do mulherio e um gajo sente-se sempre um bocado ameaçado com estas coisas de machos que humedecem os entrefolhos ás nossas mulheres, mesmo que num plano perfeitamente hipotético. É certo é que a estratégia masculina é minimizar. “Ah, esse? É um minorca. Ri-se como uma menina de 12 anos. É líder de uma religião maléfica. Faz sempre o mesmo papel. Só sabe correr de um lado para o outro a emitir sons estridentes. Provavelmente já terá sido mesmo uma menina de 12 anos.” Bom, e com isto lá se ia dando distãncia e este bandido de corações.

Passados estes anos todos começamos a fazer contas de cabeça, nomeadamente desta fase mais recente. Esta fase que leva alguns actores a acomodarem-se e a nunca saírem da sua bolha de conforto. Mujir umas sequelas, alimentar ad eternum um personagem famoso, apanhar o autocarro da Marvel, realizar uns filmes merdosos que ninguém tem coragem de dizer que são a personificação da banalidade, este tipo de rotinas que os afaste dos pântanos do esquecimento e lhes mantenha a cocaína ao alcance de uma chamada telefónica.

Só que Cruise tem sido arrojado ao manter-se afastado da epidemia de sequelas, prequelas, remakes, reboots, spinoffs e da franchisação em geral. Tem arriscado em projectos originais, aproveitado matéria prima com potencial para criar êxitos e provar que Hollywood não tem que ser um cópia de uma cópia de uma cópia. É certo que os seus filmes não são a obra do século ou mesmo do ano, mas provam que as coisas não precisam de passar pela canibalização para funcionarem. As formulas têm que respeitar algumas convenções, tem que se lá enchouriçar meia dúzia de clichés para aqueles entre que entre nós não têm os neurónios bem sincronizados poderem ainda assim seguir a história nem que seja por reflexo condicionado. Ainda assim é sempre uma lufada de ar fresco ver novidades.

Edge of Tomorrow tem uma bela premissa, um esquema Groundhog Day aplicado a batalhas futuristas ricas em detalhe tecnológico e exo-esqueletos de metal (com metralhadoras nas costas). Falta o jetpack, é verdade, mas é sempre bom ver belas batalhas de Mechas. É bem equilibrado, mantém o esquema tão típico do storytelling americano do acção, reacção, resposta, desenvolvimento, e repete. A presença feminina a fazer suspirar as nossas senhoras por um desenlace amoroso (ainda que seja isco para gajas), o Bill Paxton em fase pós-jovem e um mistério omnipresente que leva o filme às costas com bastante suavidade.

Sofre do problema típico do blockbuster, os dois primeiros actos são aceitáveis e o últimos é uma tal overdose para os sentidos que a malta perde a sensibilidade para tanto fogo de artificio. É a nova versão daquelas lutas dos anos 80 que acabavam com uma faca apontada à cara do herói, depois para o vilão, depois para o herói, depois para o vilão, que a malta ia fazer um chichi que já nem queria saber da luta porque toda a gente sabia o fim de antemão. Ganha o bom, obviamente.

Saúdo, portanto, Cruise por não andar nos Expendables com uma mochila de comprimidos para a tesão e uma sonda para enfiar na gaita por causa dos problemas de próstata. Talvez ainda venha a ser, quem sabe, não me parece que o Stallone vá abandonar o modelo tão depressa.

Após escrever este texto digno do New York Times apercebi-me que os próximos 3 filmes do Tom Cruise atiram a baixo toda a minha bela teoria da qualidade na escolha de papéis. Que se foda, não vamos deixar que os factos se metam à frente de um belo argumento.

Tom Cruise   IMDb

1 Comment

  1. Fico contente em saber que estão a planear um segundo filme Jack Reacher. Gostei imenso do primeiro.

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