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2014, part un. Top of the pops.

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Agregar filmes em listas é uma maneira rápida de falar do que fomos esquecendo ao longo do ano. Já fui mais apologista das listas e dos tops, mas também já fui menos. Vou dar início a um série de artigos em que abordo o que se passou em 2014, nomeadamente na área do cinema. Fora o cinema as coisas não correram mal, nasceu o meu terceiro filho e aprendi a amar o caos do dia a dia, a doce carnificina dos extintos tempos livre e a aceitar que por vezes é normal chegar ao trabalho com uma mancha de 10cm de vómito de bebé nas costas. Uma das vantagens de ter pouco tempo livre é que o apreciamos mais e aqueles valiosos 90/120 minutos que nos restam ao final do dia, já a roubar sono madrugada adentro, terão que ser gastos em algo que valha a pena. Falemos em 2014 com uma taxa de erro de um ano. As datas de lançamento são sempre caóticas por causa dos festivais, das estratégias comerciais das produtoras e outros factores nos quais cagamos de alto. Este foram os meus filmes de 2014.

10. Snowpiercer (2013)

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Um dos filmes mais esperados por mim. Da Coreia do Sul, a pior Coreia, chega um verdadeiro mastodonte recheado de estrelas americanas e coreanas e produção asiática. A premissa é fenomenal: um comboio movido a motor de propulsão perpétua (science mambo jambo) transporta o que resta da humanidade. Estratificados por classes separadas pelas respectivas carruagens, surge o dia em que os 99% se insurgem e a batalha pela humanidade dá-se nos exíguos corredores de um alfa pendular do futuro. O capitão américa conta-nos que já comeu bebés e que não desgostou da carne e a Tilda Swindon fantástica como sempre. Ficção científica, porrada de três em pipa e filosofia mainstream a 1000km/h. Estava à espera de um dos melhores filmes de todos os tempos e saiu apenas um rico filmezinho. Ainda assim eye candy à bruta e sequências de acção de arregalar o sobrolho. Tenham em atenção que existe uma versão altamente cortada com menos meia hora feita para americanos. Evitar esta. (não gostaram da piada de comer bebés)

09. Calvary (2014)

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Numa confissão de rotina um padre é ameaçado de morte. Diz-lhe o fiel praticante do sagrado catolicismo que daí a uma semana lhe dará um balázio na mona. Durante a semana que se segue, o invulgar representante da cúria romana fala como praticamente todos os habitantes da aldeia, levantando o frágil véu que esconde as vis perversidades da raça humana. Negro e demolidor, consegue transportar com leveza toda esta negra seiva que cobre os pecados da fé. Um dos melhores da década.

08. Frank (2014)

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A história de um amável alucinado com uma cabeça de cartão pintado e da sua banda. Qualquer pessoa familiarizada com o ambiente de ter uma banda só sentirá ternura nestas aventuras do agrupamento mais obscuro de toda a existência. Ainda não tenho bem a certeza do que achar deste artefacto narrativo de usar a muleta das redes sociais para materializar a progressão do sucesso, como fez Chef (2014) ou em parte também Birdman (2014). Será inevitável, uma vez que faz parte dos nossos tempos, mas torna os filmes mais frios. Neste caso em concreto a frieza até ajuda a aquecer o filme, de tão geladamente autista que é.  Seria preferível uma training montage como no Rocky. Em todo caso, grande filme, grande final que não entra no esquema do template climático hollywodesco. Sempre benvindo.

Ninja, poney, peperonni, I love your wall!*

* adaptação livre.

07. The Zero Theorem (2013)

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Qualquer filme novo de Terry Gilliam é um acontecimento. Sempre acompanhados por um fait diver sortido de lançamento, Terry traz narrativas do arco da velha com a estética technicolor Gilliana que tanto amamos desde os anos 60. A busca do significado da vida, do universo e tudo o resto em cinema tem sempre a ver com o tipo de escapatória que o autor irá usar, porque se trata de um assunto difícil de digerir se abordado frontalmente. Neste caso o núcleo duro deste filme é evitar esta resposta a todo o custo, sendo que o vilão até poderia ser o próprio Gilliam a evitar entrar no lamaçal filosófico da existência humana. Ainda assim levanta voo para os céus da alucinogenia daquele modo que tanto amamos e parece ser este realizador o único capaz de o fazer.

When Terry Gilliam say jump I say “How high?”. Excepto, talvez, nos irmãos Grimm. Eww. Esse foi para esquecer.

06. The Babadook (2014)

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Digo muitas vezes que o género do cinema de terror tem sido mal tratado neste novo milénio. O cliché, o jump scare, a predefinição estrutural que nos leva a adivinhar quase de modo imediato a narrativa, a preguiça de trocar um escrita meticulosa pelos visuais mais explícitos do gore e do “tudo forrado a sangue”. Torna-se doloroso, mesmo para fans de longa data (ou principalmente para fans de longa data), atravessar penosamente um e outro exemplo de boçalidade criativa. O maior aliado deste cinema tem sido, curiosamente, o baixo orçamento que obriga os criadores a explorar aquilo que lhes custa menos a comprar, a imaginação. Babadook é um exemplo australiano deste tipo de cinema, com um ambiente e uma sensação de desespero total que nos leva a atravessar um dos mais assustadores filmes que vi nos últimos tempos. Sem recorrer ao jump scare e a outros artifícios farsolas do género.

O filme de terror a sério, aquela estirpe dentro do género de que não nos esquecemos 2 horas depois, vive da analogia com os problemas da vida. Os fantasmas, monstros, múmias, canibais, vampiros, etc não são mais do que expiação de males que assolam o nosso plano existencial, modificados em forma e mantendo o horror que transmite a quem os vive. Este é um exercício que faço sempre e aqui é forte a sensação de aperto e ténue a linha que divide as falácias da mente humana das provocações do paranormal.

Desde a tonalidade fúnebre da fotografia aos intimidantes movimentos de câmara, passando pela criança que transpõe cá para fora aquilo que preferíamos ver confinado lá dentro do ecrã, tudo obriga a manter o esfincter apertado para não borrar a cueca. Extra doloroso para quem tem filhos e ainda mais para quem tem filhos com problemas. Um dos melhores filmes que lida com a temática da perda que eu já vi. Garanto-vos que irá ficar na História do género e presente em antologias do terror a partir de agora.

Brevemente: os 5 restantes da lista e com 5 menções honrosos.

3 Comments

  1. Já agora, a propósito da duração do Snowpiercer, qual a versão americana? A de 126 minutos?

  2. A versão boa é essa de 120 e tal minutos. Depois de ter escrito isto andei à procura da versão cortada para avisar as pessoas e, aparentemente, essa versão nunca chegou a estrear. Ou seja, a Miramax abdicou da versão “censurada” na condição do filme ter uma distribuição mais contida. Ou seja, em vez da versão curta em 1000 cinemas, foi a versão normal em 10 ou 11.

  3. Obrigado pelo esclarecimento! Aguardo a segunda parte da lista. Fiquei particularmente interessado em ver o Calvary. Não conhecia. Continua o bom trabalho!

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