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2014, part deux. Top of the pops

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Continuação da análise ao que de melhor vi no ano que passou. Tal como todas as boas listas é desonesta, parcial e incompleta, um trabalho em progresso. Ou porque me esqueci de alguns ou porque ainda não os vi todos. O tempo lhe fará justiça.

05. Nightcrawler (2014)

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Da noite de Los Angeles aparece o mais aterrador personagem do cinema moderno americano. A história de um facínora interpretado por Jake  Gyllenhaal que procura fazer carreira como repórter de imagem na captação de acidentes e desgraças ignorando por completo os princípios da ética profissional, ainda que poucos nesta área de trabalho. Mais do que a linear interpretação, a história de Nightcrawler é uma história de motivação e entrega total a uma causa. O personagem é horrífico, com a alma cheia do mais negro que pode uma alma afligir, só que é difícil detestar verdadeiramente aquele homem, porque chega onde se propõe ir. Mais do que um filme, tem sido interpretado como um guia de vida ou filme de auto-ajuda em como se calhar, às vezes, um bocadinho de batota não faz mal a ninguém. Quer dizer, fazer faz, mas não ao batoteiro, note-se.

04. The Grand Budapest Hotel (2014)

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Por esta altura toda a gente conhece Wes Anderson e o seu The Grand Budapest Hotel. E raramente um filme é tão amado pela crítica e pelo público em simultâneo. Não é sorte, é porque Anderson é um realizador que afinou a sua fórmula e domina a sua arte. Um mestre da simetria e no uso da estética como elemento narrativo e manipulador de emoções. Vi este filme duas vezes seguidas, no mesmo dia, no cinema. Era isto ou 4 metros cúbicos de pipocas. 3 aspect ratios diferentes consoante a época, esquemas de cores para enquadrar as diferentes fases do filme, uma galeria de actores de luxo, cinematografia de topo e um magnifico trabalho com cenários e miniaturas. Uma espécie de Wes Anderson a esteróides. Deus nos ajude para o próximo filme. O pináculo da técnica não são a ILM ou a Weta, é o Wes e os amigos.

03. Enemy (2014)

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Enemy é uma adaptação livre do livro “O Homem Duplicado” de nosso hermano Saramago. Trata-se da história de um homem que encontra acidentalmente outro homem igualzinho a si. Não apenas parecido, o mesmo ser (duplicado). O enredo torna-se em volta da obsessão dos dois homens por si próprios e no impacto de tal encontro na vida dos dois. Jake  Gyllenhaal num ambiente pré-distópico e fotografia pós-apocalíptica cerrada em que a falta de elementos identificadores cedo nos levam a questionar o que estamos a ver. Fortemente simbólico, não linear e com um dos finais mais coze-miolos da década. Com um pé na realidade e outro algures lá fora no éter, Enemy é certamente um dos desafios para o cinéfilo que procura aventurar-se fora do Universo Marvel e do jugo do Blockbuster. Apesar do final não ter fácil interpretação, o filme percebe-se com um bocadinho de exercício mental.

02. Whiplash (2014)

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Nos meus tempos de jovem descomprometido e a ir para onde o vento me levava fui baterista e tive algumas bandas, não necessariamente por esta ordem. Eram tempos de grande azáfama, nos anos 90 centenas de pequenos bares e clubes competiam entre si para ter bandas ao vivo que era isso que a malta gostava. Viver um centésimo do que se vivia a latejante noite de Seattle. Eu não era do tipo rockstar, pelo contrário. Era aquele baterista soturno e cabeludo que servia de técnico de som e tratava de minimizar os estragos das condições nunca serem as prometidas enquanto o vocalista aproveitava a carrinha vazia para brincar ao esconde o martelo com duas noviças inebriadas facilmente impressionáveis. Entretanto abandonei por razões profissionais, mas o que vivi marcou-me para sempre. O músico que quer ter carreira é uma pessoa obcecada. Alguém que quer chegar ao topo da sua área. Mesmo o facto de saber de antemão que nunca o conseguirá não o irá demover de tentar. Os músicos mais empenhados tornam-se assim em ermitas num estado de quase permanente autismo. A música é a única coisa. Melhorar, ser melhor, progresso diário. Anos depois de abandonar a arte percebi que podes largar a bateria mas a bateria nunca te larga a ti. Um baterista, e também os baixistas e percussionistas, vivem em ritmo. Todas as coisas têm um ritmo e é a ele que obedecem. Procuram padrões, estão em estado de permanente batuque, seja com lápis, dedos, pés, seja em reuniões com a administração, funerais, em conversas que deviam estar a prestar atenção. É uma maldição. Mais belo que um ritmo só um poliritmo, essa estirpe de ritmo para aqueles em estados superiores de consciência, o nirvana rítmico.

Quando vamos a um festival de tunas há sempre uma ou outra que tem um amigo que não toca nem canta. Mas como gosta do ambiente e de malhar canecos com os comparsas eles metem-no no bombo. Existe esta ideia errada de que tocar bombo ou ferrinhos é aquela tarefa que se pode dar a quem não sabe mais nada. Essas pessoas costumam ser desprovidas de ritmo, mesmo sóbrias. O sentido de ritmo pode-se ajustar, melhorar, refinar, mas não se pode criar de raiz. As pessoas ou nascem ou não nascem com ele. Como o sentido de afinação. Não vale a pena batalhar muito nesta questão. Ora, esses bêbedos no bombo nas tunas rapidamente começam a acelerar ou a abrandar o ritmo. Ou ambos numa onda completamente irregular. O pânico instala-se entre os músicos. Quando estou a ouvir essas pessoas começa a ter suores frios. A desafinação ainda se aguenta dolorosamente. A falta de ritmo não. Depois dos suores frios e das sucessão calor/frio/calor vem aquela sensação de que um serrote ferrugento está a acabar de trespassar o crânio a caminho do cerebelo e até sinto sangue e pedaços de material de cérebro a escorrer pelas têmporas. Cada vez que o bombo sai fora do ritmo é um músculo que atrofia, e depois outro. Espasmos violentos percorrem-me o corpo até me sentir deformar numa bola de carne senciente, num celeiro em chamas, rodeado de animais calcinados e os cavalos ainda a correr em chamas e com as patas traseiras esmagadas por uma marreta. No primeiro andar um grupo de órfãos amarrados grita ao perceber que o chão irá desabar e fazê-los cair numa piscina de ácido também ele em chamas enquanto dois palhaços assassinos degolam um Noddy e lhes explicam que não existe Pai Natal, que são os pais que metem lá as prendas e que o mais provável é para ano receberem só roupa e em adultos perderem a esperança de receber outra coisa que não sejam meias ou cuecas. O espaço a implodir e a esmagar tudo contra o meu cérebro e passado um bocado haver só uma luz branca num silêncio ensurdecedor uma velhinha numa cozinha a fazer uma tarte bem cheirosa. E a velhinha vira-se para mim e a sua cara é o Skelettor do He-Man. E aí a luz apaga-se e tudo fica preto. Isto é falta de ritmo.

Quanto ao filme gostei muito, o meu segundo preferido do ano que passou.

01. Under The Skin (2013)

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No início do ano do Senhor de MMXIV vinham rumores das terras do norte que haveria de chegar um filme de ficção científica escocês onde, entre outras coisas, íamos poder ter um vislumbre fugaz na pachacha da Scarlett Johansson. A pachacha da Scarlett Johansson, amigos! Haverá pachacha mais cobiçada nesta época do que a da Scarlett Johansson? Um pachacha de um tempo que ainda não tinha filhos, uma pachacha bem tratada ainda não submetida aos horrores do parto onde é esgalhada para os lados ficando a parecer um idoso e latejante Predator enfurecido e ensanguentado. Ora, sob a promessa de tão pristina genitália esperamos impacientemente por aquele que seria o filme “da pachacha”. E eis que um dia, sem grandes anúncios, nos cai no regaço o tal filme, que alegadamente traria um fugaz brilho dos entrefolhos da Scarlett. Nada que assuste uma criatura do século XXI, com a navegação frame a frame e a possibilidade de utilizar o melhor utensílio da civilização contemporânea: o botão de pause.

Esperava um filme de ficção científica de acção com uma Scarlett seminua aos tiros e cambriolas pelas ruas e o que vi foi o filme mais hipnoticamente genuíno dos últimos tempos. O hype tinha sido mal direcionado. Naquele que considero ser uma obra de próxima geração é-nos apresentada uma história simples e linear narrada de modo não convencional. O filme é visto pela perspectiva da alienígena, a jeitosa da pachacha, que procura aquilo que todos os humanos procuram, um sentido para  humanidade e o amor. Magnífica obra de arte que sofre devido aos público que atrai, à procura de mais aventuras da viúva negra ou do erotismo prometido nos rumores do início do ano. “More human than human”.

Vi duas vezes seguidas, irei ver novamente.

Falta ainda uma parte deste top, se calhar até será o mais interessante. As menções honrosas e os filme que não estando no top na volta até são melhores.

1 Comment

  1. Ricardo Fernandes

    February 23, 2015 at 2:30 pm

    O que eu me ri… com esta da pachacha e do predador…

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