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Star Wars: The Force Awakens (2015)

Star-Wars

Está quase a fazer uma semana que me desloquei do recato do meu lar a uma estreia de Star Wars às 00:01, com o único intuito de não ser apanhado no jogo de spoilers que se estava a preparar na Internet. Comprei o bilhete com antecedência e fiz-me acompanhar com uma bela dose de optimismo para ver o que iria a Disney fazer ao Star Wars que tanto amamos. Resta-me dizer, para aqueles que ainda não viram e por isso não vão continuar a ler, que foi uma terrível desilusão, uma traição e o mais desonesto saca euros de que há memória. Passo aos spoilers propriamente ditos e se não viram ainda, retirem-se desta casa ou vejam outra review. Gajas em pelota nos peitinhos da quinta, por exemplo.


Cheguei à sala uns minutos antes da hora, ao contrário do que é habitual. Não queria perder o ambiente que não se revelou grande coisa. A malta de Coimbra é assim, não se manifesta muito, guarda as excitações para si. Sentei-me e mamei com 20 minutos de publicidade. Chata, longa e de total temática Star Wars, fossem automóveis, agências funerárias ou comprimidos para a caganeira. Escrevi também já sobre isto aqui.

O filme começou e preparei-me para sentir aquele fascínio da galáxia distante há muito muito tempo. Estava a demorar a chegar aquele feedback bom, as sensações de ser encantado por um mundo que nos é querido. Parecia tudo uma enorme introdução. Cena após cena, lá esperava eu pelo tal clique de arranque. Veio o intervalo e nada. Recomeçou e então bateu-me no cérebro o que estava a acontecer. Num misto de pânico e choque percebi que estava a ver um remake. Não um remake qualquer, um remake à JJ Abrams. Tudo neste filme é o tal “rehashing old shit” de que Karl Urban já se queixava em relação a Star Trek, aquela reciclagem e recauchutagem não assumida típica de JJ.

E assim foi, remake a esteróides. Acabou com a minha ilusão e constatei aquilo que sempre pensei e nunca tive coragem de dizer: a Disney não iria correr riscos, iria fazer um filme à base de fórmulas e elementos populares para monetizar a saga e vender mais bonecos e direitos de utilização da imagem e marca. Lucas fez o que fez, desgraçou a marca com a ambição das prequelas, mas Lucas arriscou. Star Wars em 1977 foi uma visão de arrojo, Lucas esteve um passo à frente ao criar algo nunca visto. Isso foi o que fez sonhar os jovens que o viram. A frescura. Repetiu no V e no VI teve um tropeções dos Ewoks, mas vá. Safou-se com a sua visão das tropelias de impérios galácticos nas estrelas. Quis fazer o mesmo em 1999. Falhou por todas as razões que sabemos. Mas atirou-se sempre ao risco, às novas abordagens. Estava corrompido e não percebeu, foi o seu erro. Devia ter arranjado uma jovem equipa criativa para o ajudar a materializar a visão. Não quis, porém, viver os filmes originais. O conceito da prequela, no seu grau puro, era bom. Foi má gestão de projecto.

JJ Abrams, seguindo ordens precisas da Disney, lá chupou da nostalgia, abusou de Harrison Ford para rentabilizar os 32 milhões de ordenado, e fez o plano de vôo mais seguro imaginável. Um filme simplório, infantil e risível. E não digam, por favor, que Star Wars é mesmo isto. Porque não é.  O original foi simples e teve sucesso, não foi simplório. Todos os elementos deste filme são um desperdício na nossa devoção. Vamos à análise detalhada.

Os personagens novos são dignos do Universo, porém altamente desiquilibrados no seu uso. Finn, o stormtrooper caído em desgraça rouba demasiado tempo a Poe que merecia mais alguma exposição. Ele é o verdadeiro herói, Finn acaba por ser um desertor dado a flutuações no discurso que pode vir ainda a expor o seu lado negro no futuro. E não me refiro apenas ao lado exterior da epiderme.

O filme vive de coincidências, numa galáxia de triliões de seres são sempre os membros da dinastia Skywalker os responsáveis pelos cenários mais extremos de geo-política. E não digam que é a Força, é apenas escrita preguiçosa. O vilão é agora filho de Leia e Han, neto de Darth Vader e sobrinho de Luke. O que seria compreensível se Darth Vader fosse um herói do Império Galáctico vindo de uma linhagem de grandes generais e senhores da guerra e tivesse deixado um invejável legado. Não, é apenas um orfão que subiu por caminhos obscuros e ignorando todos os procedimentos hierarquicos que caiu em desgraça ao trair o imperador e desertar para ajudar o filho num derradeiro passo responsável pela queda do Império. Kylo não terá entrado por cunha, uma vez que ninguém do lado negro deve suportar a simples menção do nome Darth Vader (esse traidor), o que nos leva a concluir que mais uma vez subiu por mérito, um segundo Skywalker a fazê-lo num trilião de triliões de pessoas em milhares de planetas. Mas… Se foi por mérito e Kylo merece todo o destaque como mestre guerreiro daquela malta toda, como se explica que seja tão imaturo e mimado, dado a birras e, pior que tudo, tenha apanhado no focinho por um stormtrooper especializado em limpar retretes e por uma franzina de 40kg que acabou de descobrir a força há 10 minutos? E logo em sabre de luz, uma arte apenas usada a quem é digno de a possuir. Já não falo do capacete porque… Enfim

Mais parvo que isto é se for revelado que Rey é filha de Luke. Que vai ser, para desespero de toda a gente. E pela maneira como ela pegou no sabre o pai, desculpem, de Luke. A tal cena de absorção instantânea. Se acharam parvo o Luke ter-se feito mestre por Yoda num fim de semana, agora então em 10 minutos ainda é pior. Tendo em conta que todos os grandes mestres do passado demoraram séculos a dominar a arte. Será que ela foi treinada pelo pai que lhe apagou as memórias? Talvez, se acreditarmos que se tornou mestre do treino Jedi aos 4 anos. Mesmo que tivesse a Força de modo instantaneo, explicava que se tinha tornado boa para a porrada mas não explicaria com sabia que se podia usar truques mentais para controlar stormtroopers.

Falando de personagens mal aproveitados não nos podemos esquecer de Captain Phasma, arremessada pelo promoção do filme para os holofotes da notoriedade para aparecer duas ou três vezes, a repreender um subordinado e a apanhar como gente grande (tem 2 metros) para trair o seu exército a abrir os escudos e ser enviada para o compactador de lixo.

E por falar em compactador de lixo, falemos de novas e inesperadas sequências foram colocados aos nossos novos heróis. Nenhuma, porque tudo o que aparece é merda velha dos outros 3 primeiros, não vão as pessoas pensar que se quis inovar. Um exemplo desta vaga de reciclagem para acariciar a nostalgia é daquilo que se fala depois do filme ter estreado, nos easter eggs, nos cameos, na referências à trilogia original e no BB-8. Porque já ninguém gosta do R2-D2 desde que ele, e nem acredito que vou dizer isto, teve uma depressão pela falta de Luke e se meteu em modo de Low Power. Só acende uma luz e faz um beep triste. De coração partido.

As batalhas e as cenas de acção são boas e o ambiente practical effects analógico joga a favor do filme, não se percebendo muito bem porque é que o Snoke (o novo imperador maléfico) parece uma criatura de CGI manhoso saído directamente do Hobbit de Peter Jackson. Talvez por ser interpretado por Andy Serkis que tem o exclusivo mundial dos personagens digitais interpretados por motion capture. Muito foleirinhas estas cenas do Snoke.

Tecnologicamente, a Primeira Ordem é um colosso que herda a avançada engenharia do Império. maquinetas de bom requinte maléfico, design apelativo. Fazem, pela terceira vez, uma estrela da morte. À primeira ainda se compreende que uma falha inesperada tenha saído no resultado final. À segunda um único ponto mal guardado foi suficiente para a destruir. Bom, à terceira é pura estupidez. A maior máquina de destruir, capaz de mandar às urtigas dezenas de planetas de uma assentada pode ser atacada porque quando se vai a hyperspeed passa-se pelos escudos. Toda a gente sabe isso. O argumento é que ninguém é suficiente louco ou bom para efectuar a manobra. Aparentemente é simples. E mesmo que fosse impossível, tornaria a base completamente vulnerável a misséis desde que entrassem por hyperspeed. Isto faz algum sentido? Nem nas mais simplórias histórias dos heróis da Hanna Barbera se escrevia de modo tão ranhoso.

Poderia ficar aqui a noite toda a enumerar todas as idiotices que não fizeram sentido, mas aquela que mais me agoniou foi mesmo o facto de ser um argumento guiado por coincidências e a injecção de melodrama e empatia instantânea. Como se eles estivessem a ouvir a banda sonora. 10 minutos depois de se conhecerem já eram nutriam sentimentos que às vezes nem temos em relação a amigos de longa data. E ainda que alguns o pudessem fazer porque “A Força blá”, outros estavam ali apenas para salvar o couro.

E assim acabou o filme, com Finn em carbonite, e aparece o Luke no topo de uma montanha a meditar. “Hey malta, o episódio VIII é que vai ser, vamos fazer coisas novas desta vez e até arranjar bonecos novos se estes estiverem a vender mal”.  Só faltou mesmo o Snoke aparecer no fim a brandir punho no ar e dizer “Desta vez ganharam mas eu hei-de voltar, mu hu hu ha ha ha ha”.

Ninguém que se considere fã de Star Wars pode estar imune a esta confusão de filme. Eu acredito que alguns o façam por orgulho de ter passado tanto tempo a defender um filme que não cumpriu, outros ainda se encontram atordoados pela estreia, mas o tempo irá nivelar os fãs a fazê-los acreditar de que a Disney é, definitivamente, Satan.

E não me acusem de ser picuinhas e ir ao detalhe porque todos vocês, fanboys assumidos e militantes, sabem que a essência de se amar Star Wars é ser picuinhas e ir ao detalhe.

2 comments on “Star Wars: The Force Awakens (2015)

  1. Parabéns, gostei bastante da tua visão do filme, já tenho lido vários textos e comentários relativos ao filme, e já começava a pensar que ninguém partilhava da minha opinião.

    Fui para a sala de cinema à espera de ver uma nova história da guerra das estrelas, mas durante o filme estive a ver um remake.

    Começou com a informação guardada num Droid, que vai parar a um planeta deserto, que é encontrado pelo personagem principal.

    Agora temos Rey em vez de Luke, curiosamente ou talvez não, é a sua filha, que tal como ele é abandonada no planeta sem conhecer os pais.

    Também como anteriormente esta descoberta muda a sua vida, e a leva a começar uma jornada pelas estrelas, abandonar o seu planeta e a sua antiga vida.

    Durante a sua jornada encontra Han Solo e Chewbacca, e justos vão procurar os bons da fita ainda liderada por Leia, agora um pouco mais velha, enquanto são perseguidos pelos maus. Como no anterior.

    E falando nos maus, agora não temos Darth Vader mas uma cópia, o seu neto, ao contrário do original que tinha uma razão para usar a máscara e falar daquela maneira, devido à sua batalha com Obi-wan Kenobi, o novo nem por isso.
    E já sabemos o que vai acontecer, no futuro vai se arrepender de ter escolhido o lado negro da força e morto o seu pai, e vai sacrificar se no final.

    Mas chegando ao que para mim mais me chatiou. Outra vez a Death Star, depois de todo o trabalho para a destruir, todas as vidas que morreram nessa missão, os anos passam e já há outra de volta. Isso para mim alem de ser uma cópia total da história antiga, mostra uma falta de originalidade tremenda.

    Neste em vez da morte de Kenobi temos a morte de Han solo, ambos mortos pelo protagonista dos maus.

    E embora ainda tenha acontecido já se percebeu que Luke é o novo Yoda. A lenda solitária que se escondeu do resto do universo num planeta isolado, que vai treinar a nova heroína a controlar a Força.

    Concluindo, não considero um mau filme, gostei de alguns dos novos personagens embora tenha detestado o novo Darth Vader Kylo, vou continuar com grandes expectativas para os próximos filmes, mas juro que se fizerem de Finn um novo Han Solo, e durante a história ele for congelado, abandono a sala de Cinema.

  2. Se disseres isso muito abertamente vão a tua casa com archotes e cruzes a arder.

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