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Paixões de Infância: Bad Taste (1987)

Bad Taste 1987

Depois de ouvir “Serei eu o único a achar que…” espero sempre por revelações realmente únicas, façam justiça à unicidade da expressão. Algo do género “…que gosta de borrar ambos os pés descalços em bosta de vaca, calçar de seguida uns sapatos de vela sem meias e ir à missa com uma galinha a tiracolo recitando palavra sim palavra não da versão não censurada do “Matracas da Minha Avó” de Celso Abrantes de Alforge?” ou “…que aprecia o Leitão Assado do Continente?”. Opá, coisas verdadeiramente únicas que realmente mais ninguém ache. O problema é que no mundo real as pessoas dizem “Sou eu o único a achar mal a fome em África?” Também há fome na Europa, senão a restauração seria uma área  de negócio vetada ao insucesso. Eu próprio proferi assim impropérios e um que me lembro de repente foi ali no inicio a meio dos anos 90 em que poluía o ar em redor dos meus pares com “Serei eu o único a adorar Bad Taste e este novo realizador Peter Jackson que é o gajo que faz filmes que apelam mais aos meus gostos pessoais e àquilo que espero num filme para me entreter?”. Ninguém sabia do que estava a falar. Fiz uma página na internet com uma conta num servidor da faculdade. Arranjei 4 amigos virtuais no cyberspaço que corroboravam a minha visão da cinefilia e um deles nem falava português. Muito menos ler a minha excelsa página HTML com um gif animado amarelo que dizia “new” e um senhor das obras de estrada ao fundo com a indicação “Em permanente construção”. Depois apareceram os foruns, os blogs e as redes sociais e encontrei os meus irmãos perdidos, aqueles que parece que pensam exactamente como eu em assuntos de cinema, se bem que ocasionalmente os apanho a dizer que os refugiados é tudo terroristas a cheirar a chamuça, a partilhar frases da Chiado Editora e opinar artigos de jornal sem os ler.

Quando aluguei o Bad Taste pela primeira vez fiquei em tamanho êxtase sensorial que fiz o impensável, o acto mais tresloucado que alguém poderia cometer no final do século passado; voltei a alugar no fim de semana seguinte. Durante essa semana intermédia sem Bad Taste, e ainda sem vizinhança a quem cravar um segundo gravador VHS para replicar, conheci mais profundamente o Caracol. Além do gosto por thrash metal e grindcore partilhávamos outra paixão, “Carne Humana Precisa-se”. É o título nacional deste filme. Eu e o Caracol tentámos evangelizar o liceu no sentido de se criar um culto ou uma espécie de religião à volta de Bad Taste mas a taxa de sucesso manteve-se estável ali nos 0%.

E hoje, lá está, é fácil arranjar um nicho onde um gajo se possa implantar. Antes havia o liceu com os seus 900 proto-burgessos, hoje pode-se criar um grupo de interesses de pessoas do mundo inteiro. Seja partilhas de pautas da banda sonora do Titanic, criação de galgos em estufa ou pessoas que escrevem ficção científica em pelota.

O que aqui me trouxe inicialmente, e que o meu raciocínio colateral roubou, foi este amor de infância chamado Bad Taste, bem como o início de carreira de Peter Jackson. Este Bad Taste manteve-se uma paixão por longos anos. Dos poucos filmes cuja cópia pirata mereceu um gasto excepcional numa fotocópia a cores para a capa. A primeira vez que tive acesso a uma impressora a cores, usei-a para imprimir o poster e o primeiro site que fiz foi-lhe dedicado. Tinha também, apaixonadamente catalogado, o seu making of gravado do segundo canal da televisão sueca ainda talvez nos anos 80.

Bad Taste é um filme que demorou 4 anos a ser feito, aos fins de semana, por Peter Jackson e seus amigos. É um trabalho de paixão produto de uma faina artesanal extinta, de um tempo de projectos de longo curso que se podiam dar ao luxo de receber o amadurecimento dos tempos, de ser lapidado, reestruturado até à perfeição. Nesta jóia de um tempo perdido de sonhos e demandas homéricas, um grupo especial do governo Neozelandês investiga uma cidade fantasma, cujos habitantes parecem ter subitamente evaporado. Esta equipa especial chamada AIDS (Astro-Investigation and Defense Service) descobre então que uma corporação de fast-food extraterrestre pretende comercializar carne humana na sua cadeia intergaláctica de restaurantes. Cabe ao AIDS acabar com esta ameaça e trazer novamente paz ao planeta Terra. Não sem antes vaporizar um ovelha com um lança rockets.

Um filme hilariante e recheado de técnicas geniais para esconder o baixo orçamento, um trabalho de puro amor de Peter Jackson que o criou como um pai cria um filho quando a mãe morre no parto. O homem fazia as cabeças dos aliens no forno da sua mãe e chegou a criar uma steadycam caseira para estabilizar a imagem. Com um tipo especial de laços de ternura que contaminam quem tem coração e gosta de uma boa prova de paixão. Ou pessoas que apreciem ver jovens de motosserra a atravessar as entranhas de outros seres ou mesmo beber vómito verde e recheado de pepitas de produto de digestão alienígena.  

Bad Taste parecia ter sido feito de propósito para mim, caso eu fosse uma daquelas pessoas que julga que a realidade que vivemos foi criada com o propósito de servir a sua existência em cenário contínuo. Quem me conhece sabe bem como fiquei quando Peter Jackson anunciou o King Kong. Aquele bardamerdas tinha prometido aos fãs que, assim que desse por terminada a hercúlea tarefa de realizar a trilogia do Lord of the Rings, iria fazer uma sequela para o Bad Taste e talvez para o Braindead. Reformar-se a fazer o que gosta. Um camadão de nervos foi o que apanhei. Deixo-vos com multimédia sortida e com aquele beijo quente e cheiro a bagaço que tão bem conhecem.

badtaste

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1 Comment

  1. Quando é que escreves um livro? A tua prosa é genial.

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