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Timecop (1994) – Ciclo “Mete-se Agosto”

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Para continuar este ciclo de amor e romance, nada melhor que Timecop. Um filme rude e mal limado, é certo. Abrutalhado, como se fosse pedido ao mais hábil relojoeiro suíço para fazer um relógio fino usando apenas um maço de madeira, molas de colchão do ferro velho e 239 rublos do Turquemenistão. É no entanto um filme cujo combustível é o amor, a procura pelo doce aconchego do quente afecto, o regaço de uma mulher amada, um beijo molhado, uma cama suada. Só que à força do bofetão.

Produto de um tempo em que a ficção científica era raínha e todo o conceito alucinogénico de viagem no tempo era bem vindo. Apesar de ter por detrás pessoas capazes de criar coisas boas, algo correu muito mal na execução deste clássico em potencial, tal quase-clássico. O problema é Van Damme. Um actor cujo contexto terá sempre que passar por porrada de criar bicho, saltitos e saltotes e a obrigação contratual da arpargata, pouco fica de fora para a criação da ficção científica propriamente dita. O filme é povoado por falhas de lógica e conceitos primitivos para serem usados no punchline e a sua obrigatória oneliner.

Tenho em boa conta o seu realizador, Peter Hyams, apesar da sua carreira estar sempre no limiar de ser “quase-bom” mas nunca lá chegar. Os vilões fazem o que precisam de fazer, enfurecer o público para no final ficar aquela sensação de trabalho feito quando estão esquartejados, degolados e decepados numa poça de sangue e tripas. “Bem feito cabrão, chupa!”, ri a plateia em delírio. Homens, mulheres, crianças, a avó Cremilde e um caniche que parece que percebe as pessoas. É o teste do vilão, e quando assim acontece é porque passou com distinção. Mia Sara, o tal amor que aqui nos trouxe, é a amada e sincera esposa. Benevolente, uma criatura de luz que serve de cenoura motivacional para o nosso herói ir desfazendo metade do cenário e do elenco à força de estaladão e murros no focinho.

Para o entusiasta da viagem do tempo e das possibilidades da disfunção do contínuo espaço temporal, da decomposição do tecido da realidade e dos paradoxos contraditórios desta ciência inexacta existe pouco a oferecer. A começar pelo mecanismo da viagem no tempo, digamos apenas que não é nenhum Delorean. Baixos valores de produção e pouco interesse em elevar a fasquia acima do típico “filme de porrada”. E tanto que se podia aqui fazer. Fosse protagonizado por Arnold Schwarzenegger e estaríamos a falar de outra estirpe de cinema. Pena que o ordenado do nosso Arnie por esta altura era superior ao valor necessário para acabar com a fome em África.

E o amor? Onde fica? O amor fica bem, o nosso herói encontra a felicidade e um pouco mais do que estava à espera. Aliás, o final do filme encerra um paradoxo medonho. SPOILER. Se bem se lembram, quando Van Damme consegue salvar a esposa e recriar toda uma linha temporal em que a sua esposa não morre, volta ao presente. Chega a sua casa e fica agradado porque a casa não está vazia. Está lá a esposa. Sorriso perfeito, jantar prestes a sair do forno. Arroz de polvo ainda com o molinho todo. Ele sai, olha para ela e a sua expressão ilumina-se. Ou pelo menos deveria iluminar-se, se ele fosse um bom actor. Ou actor. É então que se levanta na sua direção. Coração bate forte, música interior de Júlio Iglésias. Nesse momento aparece um miúdo, um filho deles. Uma criança com uns 12 anos. Van Damme olha para o puto e vai todo contente. “Ai que bom, a minha família” em vez de “De onde é que este caralhito apareceu?“. A minha pergunta é: ele tem memórias da criança e do casamento de 10 anos com a esposa? Da felicidade conjugal? Ou não faz ideia e fica contente só porque a mulher não está morta? E como será a relação com a criança? Não achará ele o filho parecido com o carteiro? Mil perguntas que Hyams responde com a escuridão dos créditos finais e uma musiquinha de ir ao pêssego a acompanhar.

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