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Trainspotting 2 e a Anomalia de Xunguing

Hoje entrei pelo facebook adentro com um volumoso cajado e espanquei Trainspotting 2 pelas costas. Caiu e continuei a bater, até a forma que antes se lhe reconhecia se ter transformado numa amalgama irreconhecível, numa polpa de indigna daquilo que pouco tempo antes teria sido reconhecido como um filme. “Olha um filme”, diriam vocês se passassem por ele na rua a fazer jogging, a passear o cão, a saltar por uma janela das traseiras depois de terem arrebentado à canzanada uma das melhores amigas do vossa esposa. Depois do evento, um filme já não era. Porque é que um filme analisado sobriamente e avaliado com 60% de mau e 40% de bom pode ser amado e um filme avaliado com 50/50 ou mesmo 55/45 pode ser detestado ou, alternativamente, “não gostado”. Sem nunca ser ignorado ou desvalorizado. Isto deve-se àquilo que resolvi chamar de “Anomalia de Xunguing”.

Depois de ser fazer a análise crítica e objectiva de um filme entra em cena a parte mais importante da avaliação, a subjectividade. A emoção que lhe atribuímos, as amarras sentimentalonas ou a falta delas. A identificação, o laço nostálgico ou por ter criado uma memória, mesmo que não relacionada directamente com o filme. Isto só acontece com filmes de paixão, que se amam ou que se odeiam, ou que se fica triste por serem maus ou chateados porque o nosso preconceito estava errado e o filme afinal era bom.

Demonstração da parte objectiva.

E agora com a parte emocional que neste caso está neutra mas que pode assumir uma das cores das peças de baixo e vai-nos toldar o juízo.

Isto não é mau, ninguém morre, ninguém perde o emprego, nenhuma menina vai para casa a chorar por ter ganho a medalha de bronze de ginástica quando a Marta Feiosa (que nem cambalhotas sabe dar) ganhou o ouro. Apenas se cria um momento de confraternização com amigos e inimigos, concordando ou discordando, acabando em sexo tórrido ou uma cadeira bem enfardada pelas costas abaixo. Confraternização pode também ser assassinato com tiro de caçadeira ou atropelamento com trator. Portugal é um país viçoso neste imaginário.

No caso de Trainspotting tudo começou no dia em que lhe chamaram T2. Dentro de mim fervia um caldeirão de fel. “Como se atrevem?”. De facto T2 só há um e não é o Trainspotting. Este ressurgimento conveniente numa altura em que se serve nostalgia como se de scones quentes se tratasse dá também que desconfiar. Isto era, porém, apenas aquela ebulição que depois passa porque entretanto, ao final da tarde, já outra irritação lhe tirou o pelouro.  Um gajo nos dias que corre não tem descanso, a vantagem é que os nossos cérebros mirram com tanto estímulo e estas irritações e estado extremos de emoção passam depressa. Ou porque são substituídos ou porque… olha, uma pedra tão lisinha. Será que saltita bem no lago?

Trainspotting 2 é de facto um filme que recicla e suga nostalgia para se alimentar e para nos alimentar. E nem o escondo, passo a citar, “é um turista do seu próprio passado”. Todos os momentos são repetições, homenagens e decalques do filme original. Certo que tem o intuito artístico e aquela vontade de fechar um ciclo. A mim deu a sensação que o decalcou com mais uns rabiscos extra, um pouco como aqueles, e nem acredito que vou dizer isto, remakes disfarçados de sequelas que agora nos atormentam as noites e escurecem os dias.

Os personagens são caricaturas de si próprios, amarradas ao tal cepo nostálgico de onde não podem sair mesmo que queiram. A superficialidade com que toda a temática é abordada é também aflitiva. Tudo bem que já o faziam em 96, mas agora estas pessoas têm quase 50 anos. A psique humana funciona de maneira relativamente standartizada. Mesmo com drogas e alterações sintéticas.

A narrativa confusa que não leva a nada. Demora uma hora a arrancar, com introduções, piscadelas de olhos e aquele monólogo que pretende ser espontânteo. Sabem qual é, anti redes sociais que todos partilharam nas redes sociais como que a servir de macumba para que não sejam confundidos com esses drogados do facebook que passam a vida agarrados àquela merda. “Eu não, Deus me livre!”. Nem eu, já agora.

A história vai então fotocopiar mais um esquema para sacar dinheiro que na vida real também existe, é fazer o Trainspotting 2 para nos levar ao cinema. Begbie regressa, fodido com as fúrias do inferno, os nossos amigos ainda se drogam mas continuam bastante funcionais. Seria de esperar que  anos depois dos eventos do primeiro filme já tivessem um quartinho reservado no hotel dos peixinhos. Cá andam, rijos, sadios e bons da cabeça. Melhor que eu que já me esqueci de metade das ideias que aqui vinha escrever.

Visuais também todos modernaços, para 1996, e aquelas corzinhas que agora o digital permite. Amizade, redenção, amor e algum sexo. Uma gaja com strapon. Não é algo que se veja todos os dias. Pelo menos em filme, que em casa cada um sabe de si. Não é? Sim, vocês!

A intenção está lá, de juntar o gangue, de recriar velhas práticas, reunir amigos. Não passa cá para fora e senti-me sempre afastado pelas superficialidade e pelo descarado mercantilismo que paira sobre o filme com um piano numa curta de Daffy Duck.  Os actores já evoluíram nas suas carreiras e a malta estranha ver o maior Jedi de sempre a meter-se na droga.

Pode não ser verdadeiramente um filme xunga, mas é certamente um filme boff.

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