As crianças consomem muito Youtube. O pior são as publicidades antes dos vídeos, o equivalente às publicidades dos intervalos do nosso tempo. Porque as crianças da segunda metade dos anos 10 do terceiro milénio não consomem TV. E são estas publicidades que os mantêm informados e a salivar por novos produtos e serviços. Tal como nós, há 3 décadas no intervalo do Tom Sawyer, quando a vontade de ter uma Bota Botilde nos incinerava o âmago de desejo. E quis um algoritmo manhoso baseado em alvos demográficos e hábitos de consumo que o meu filho visse em loop o trailer do Rei Artur do Guy Ritchie. A sequência de eventos que se seguiu foi tão rápida que só me lembro de depois de estar sentado a um domingo à tarde num cinema com uma audiência considerável, composta por grupos de dois, um pai e um filho. Certamente efeitos das sugestões hipnóticas que as redes sociais nos lançam nos entrefolhos de toda a desinformação, fotos em semi-pelota de semi-sugestão semi-sexual e vídeos de gatinhos. Nem sei se tive tempo de vestir um par de calças.

Imagino que na génese deste filme esteja uma noite de violenta inebriação, num bar obscuro  e caro na zona mais exclusiva de Londres. Quando alguém terá interrompido o longo monólogo de Ritchie acerca das imperfeições vaginais de Madonna com a inevitável pergunta “Eras capaz de fazer um Lord of the Rings ao estilo de Snatch?”. Ritchie interrompia assim a história das proezas sexuais de Madonna que havia surgido porque alguém teria sugerido que num universo alternativo um gajo chamado Guy Ritchie Sambora casou com uma gaja misto de Madonna e Heather Locklear. O costume.

Ora, King Arthur de Guy Ritchie é um filme em 3 distintos atos. Começa como um épico enevoado cheio de artefactos para esconder a imperfeição digital, maior que a própria vida, de envergonhar a realidade com esta escala exponencial de eventos e personagens. Fantasia à mistura e chega-nos a história de como Inglaterra caiu nas mãos do falso rei Vortigern. Neste caso um Jude Law maléfico a tentar disfarçar os 29 anos que já tem desde 1981. Uma terrível história de maldade, injustiça e crueldade para com o pequeno príncipe que, por pouco, não entrega a alma ao criador. Num registo fúnebre e denso, como se um elfo fosse começar a qualquer momento a narração. Câmaras lentas e as intensas martelar dos efeitos digitais em cores que nem existem na vida real. Falso, todo ele de plasticina digital. Como se criado por crianças celestiais num infantário na base do Monte Olimpo ou na orla de Andrómeda.

Quando se põe fim a toda esta miséria humana e cinematográfica entra o ato de Snatch. [música de correrias, montagem entrecortada de modo a baralhar a cronologia e pinotes de câmara] O jovem Artur cresce para ser um rúfia gangster de bom coração nas ruas de Londrinium, uma proto-londres de características italianas. Mais musica energética e mais montagem de esquemas de gangster à Guy Ritchie, como se desta vez narrado por Jason Statham. Até os sotaques de bife malandrim eles têm. E assim se faz o rei Artur, um bandido da laia de Robin Wood e talhado para a capa do Men’s Health.

Saltos, pinotes, piadolas e estamos perante Excalibur. O Rui Artur tem que tomar o seu destino nas mãos. Dúvidas escurecem o seu juízo. “Ser ou não ser? Eu queria era ser livre como um passarinho, mas o destino ronrona-me ao ouvido. Depois disto começa a placa gráfica a fumegar e as imagens são gradualmente substituídas por computação gráfica. A batalha final é inteiramente feita dentro do motor do jogo Unreal. Por momentos procuramos o joystick, a jogabilidade parece alta.

O filme acaba com uma situação reconhecida por todos, como se esperava. Na tábola redonda. Teria sido uma rampa de lançamento para um trilogia, franchise ou universo cinemático com Robin Wood, Dr.Who e Mr. Bean. Infelizmente embate a toda a velocidade contra o pinheiro conceptual dos maus resultados de box office e irá afundar nos fétidos pântanos do esquecimento onde ficará escondido das futuras gerações, para bem de todos.

*Chama-se King Arthur: Legend of the Sword (2017)

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