O efeito Mandela é um chavão usado muito na Internet para definir aquelas situações em que nos lembramos erradamente de coisas que nunca existiram, como se existissem num universo paralelo. Foi assim baptizado porque se associava a pessoas que se lembravam vividamente que Nelson Mandela teria morrido na prisão. A mim aconteceu em duas situações recentemente e sempre relacionadas com cinema. A primeira foi ao ler o livro Ready Player One. O nosso protagonista citou a expressão “Oh my God it’s full of stars” dizendo tratar-se de uma frase do filme 2010. Ora, que raio! Tinha quase a certeza que era do 2001. A frase que o Dr. Dave Bowman diz ao entrar no campo estrelado como novo humano no final do filme. Curiosamente aparece no livro, que também li. Aparece depois em maior proeminência no 2010, livro e filme. Ah caraças, andei a citar mal toda a minha vida.

Outra falsa memória que me parasitava o cérebro era acerca dos filmes Disney. O meu encarquilhado e deficiente cérebro achava que eu, como pessoa que vê filmes, tinha visto todos os filmes da Disney da sua época dourada. Sua, minha e nossa, dos chorões dos anos 80. Entre a fase Fievel e o início dos filmes digitech em 3D. Só que a partir do início dos anos 90 dediquei-me a outro tipo de atividades mais relacionadas com a efervescência hormonal da jovem adultidade e comecei a pensar que os filmes de crianças eram para crianças. Um conceito errado, eu sei. Mas era isso que pensava. E então tentava fazer a voz mais grossa, vestia-me como um pavão com o cio e tentava copular em abundância. Filmes só de homem crescido, que às vezes nem percebia. E recentemente, com o advento da catalogação do letterboxd e esta mania de registar tudo o que se vê, meti tudo o que era Disney como visto. A alguns até rating dei, baseado em falsas memórias e cultura popular.

Cresci e multipliquei-me. Filhos. Comecei então a passar estes filmes aos miúdos. Little Mermaid, Tarzan, Mulan, Hercules… Mas que caraças! Não me lembro de nada disto. Afinal nem sequer os tinha visto. “Que cena man, afinal menti-te bacano… Desculpa lá isso. Hehehe!” dizia o meu Eu de 18 anos lá da cave do cérebro. “Pois claro que me mentiste, meu bardamerdas.” Respondeu o meu Eu actual ao meu Eu de 18 anos. “Tão ocupado que estavas a mexer na gaita que nem tempo tinhas para carregar no play. Pulha!”

E vi então, pela primeira vez completo e com atenção prestada, The Little Mermaid. Habituado que estou ao panorama atual de cinema para crianças, que não há um que escape ao radar dos pequenos rebentos, fiquei surpreendido com a qualidade do argumento e dos personagens. Atualmente os filmes não são feitos para contar histórias nem para passar mensagens. São baseados em conceitos muito subnutridos e depois inflados artificialmente para uma história de 90 minutos. Injectados com esteroides de product placement são depois suavizados pelo invisível manto da apatia para não chocar as crianças com problemas do mundo real. Não queremos que saiam do mundo de fantasia de onde os estamos a incubar. Também é preciso ter cuidado com os choques culturais. Racismo, sexismo, animalismo, nutricionismo, colonialismo, eu sei lá. Podíamos ficar aqui o resto do dia. No outro dia li uma notícia em que um cavalheiro se indignou com o excesso de cor vermelha num filme da Pixar. Tudo isto cria no final um produto menor, um estratagema para vender bonecos, criar promoções McDonalds e sacar euros em royalties. Filme? Qual filme? Ah, o filme. Sim, havia qualquer coisa no início desta avalanche de marketing. Talvez tenha sido um filme. Não sei. Foi há 2 meses, já ninguém se lembra. As indignações do dia empurram todas as memórias de médio e longo prazo para os fétidos borbulhantes pântanos do esquecimento.

The Little Mermaid é um filme muito diferente daquilo que o meu preconceito fez dele. É uma história sem medos, que conta os cruéis efeitos secundários das escolhas difíceis, o peso das decisões e o sofrimento que pode advir do amor. Um filme que nos revolta as entranhas com a malvadez daquela vilã que foi escrita sem medos de traumatizar. A cena em que a pequena sereia perde a voz devido a um contrato maléfico sem ler entrelinhas é marcante. Provavelmente passará ao lado das crianças. Para os outros, nós adultos, é um lembrete de que tudo tem um preço e o “follow your dreams” e “se acreditares acontece” são apenas ditotes de facebook sem real adaptabilidade ao mundo real. Umas aspirinazecas temporárias para o avassalador preço que pagamos por existir.

É um filme é assustador. Tem os momentos Disney, cantorias e tal, mas quando lhe chega a pimenta ao nariz explode numa espiral de violência cujo efeito nas crianças é comparável ao efeito do terceiro ato do exorcista nos adultos.