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The Disaster Artist (2017)

Por várias gamas de razões nunca entrei a bordo do comboio “The Room”. A comunidade parecia-me sólida e interessante, no entanto nunca se fez o clique. “Oh, vá lá!”, diziam-me, “Tu gostas de filmes maus, adoras obras trash. Anda connosco neste fartote desenfreado de masturbação circular.” E não consegui. Talvez por lhe faltar aquele nível ideal de guerreiros pós-apocalípticos de mota liderados por um mutante deformado ou decapitações a cada 15 minutos. Tinha seios e sexo, mas um sexo inqualificável que pode ser apreciado em família num contexto de sofá pós-almoço de Páscoa.

A história por detrás deste desastre é outra coisa, por isso me atirei ao livro como cão ao bofe. É de facto uma crónica apaixonante de um dos mais bizarros fenómenos cinematográficos de sempre. Um retrato realista, deprimente e desconcertante de um homem à procura de conforto emocional. O livro é duro e chama os bois pelos nomes, desmonta toda aquela aura de culto e traz o filme para a sua verdadeira dimensão, a sub-subcave da arte cinéfila.

E aqui entra James Franco e a sua pandilha. Rapidamente cheiraram as potencialidades e adaptaram o livro a este filme que agora estreia e que sobrevoa em círculos a Award Season como um abutre por cima de um gnu moribundo.

O filme perde uma óptima oportunidade de ser um marco do cinema ao adaptar condicionalmente a interessante história que nos escreveu Greg Sestero. A Franco faltou a coragem de enfrentar o realismo do miserável que The Room é, optou por apresentar Tommy Wiseau como um coitadinho com um sonho escondendo toda a dimensão de empresário de sucesso com um sonho colateral de cinema. Ao mesmo tempo que elevou The Room a uma categoria vários pontos acima daquilo que aquele pedaço de merda merece, rebaixou um homem com os seus pontos fortes que ficaram de fora.

A aproximação de Franco foi de uma telenovela mexicana feita por uma trupe de saltimbancos de standup de imitação, caricatural, retirando toda a componente humana que este filme precisava para contrastar com aquele tupperware da loja dos 300 que é The Room.

Falha na densidade dramática, falha na homenagem, falha na temática da criação de cinema como efeito secundário, enfim, um churrilho de “não nãos” na minha opinião. Um desperdício de material original nas mãos deste impreparado realizador para tão ambiciosa obra. É tão caricatural que se o meterem em mute e sobrepuserem música dos Pearl Jam vai parecer o biopic sobre a feitura de Singles com James Franco a fazer de Matt Dillon. Dispensava-se também aquela pessegada final das comparações a dizer “Wow, vejam como conseguimos imitar igualzinho” e a recepção positiva do filme na estreia que foi inventada para o filme. E nem sequer vou falar da peruca do mano Franco que balhamedeus…

2 Comments

  1. O melhor filme acerca do The Room é o audiolivro do Disaster Artist. Sério, recomendo muito mais do que o livro, e por um único motivo: o Greg Sestero é o narrador e ele sim, imita o Tommy Wiseau na perfeição. Tudo o resto está lá: a incapacidade do Wiseau, a dualidade de ser tanto um filho da puta (as descrições da relação com as actrizes são de ranger os dentes de raiva) quanto um cool guy e amigo do seu, a verdade que o The Room não é acerca do “acreditem sempre nos sonhos”, mas do facto de um mega-incompetente apenas se ter safado por ter muito e muito e muito dinheiro. É impressionante como o facto de o filme estar agora a ter “sucesso” está a alterar retroactivamente a opinião de muita gente: Afinal talvez já não seja um filme mau, mas uma obra-prima incompreendida. Enfim…

  2. Também ouvi e concordo.

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