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A Ghost Story (2017)

Na viragem do século, metade dos internautas ficava a teclar noite adentro em salas virtuais com pessoas que conheciam apenas pelas palavras que liam. Muitos se apaixonaram, muitos se enervaram, muitos sonhavam com os imaginários technicolor 4D de realidade aumentada saídos daquelas sessões text-only. E o que se ouvia mais, e que não era exagerado, era que se calhar essa Marta de 19 anos que gosta de livros de Douglas Coupland, discos dos Massive Attack e chocolate quente ao nascer do sol é afinal um mecânico suado de 45 anos e costas peludas chamado Armando. E por vezes assim acontecia. Nos dias que correm o perigo ainda é mais bizarro. Será que as pessoas com quem interagimos na Internet são realmente pessoas? Ou serão bots de inteligência artificial a fazer-se passar por humanos? Questões para levar a sério. E daqui a 20 anos? Qual será o perigo? Serão Aldacianos de Turis 24 da galáxia Nervusis a influenciar as nossas opiniões acerca da mineração das luas de Kiroa 2 em Alpha Centauro? Serão macacos evoluídos que preferiram a revolução digital à revolução a cavalo na ponte de São Francisco? Ou a tecnologia de comunicação tornou-se tão sensível ao ponto dos fantasmas que palmilham o limbo poderem agora interagir com humanos via wireless, fazendo-se passar por uma esteticista chamada Rute Juliana que até manda fotos convincentes da pachacha lisa como a careca do Jean Luc Picard?

E aqui entra Ghost Story uma aventura passada algures entre este mundo e o outro, magistralmente enquadrada e filmada por David Lowery. Ou pelo seu diretor de fotografia. A história deste fantasma começa quando um jovem e apaixonado casal com as suas quotidianas chatices conjugais é separado violentamente pela morte do marido. Ela refaz a sua vida como jovem viúva, mas o defunto recusa-se a deixar este plano existencial ficando por cá a ver no que é que isto vai dar. Com o tradicional lençol branco, que é explicado no filme, calcorreia o dia a dia da sua esposa em recusa do despego. E assim o tempo avança na sua vida fantasma, não linear, seletivo. O problema surge quando o fantasma percebe que está preso a um local, não pode sair daquele ponto, daquela casa de onde faz o seu ténebre stalking. A viúva muda de casa e o Casper Sénior tem que se aguentar à bronca e ficar para toda a eternidade pregado à meia dúzia de metros quadrados que tem o direito de rondar.

Atenção aí ao spoiler, porque neste ponto começa o charme desta história de fantasmas. A viagem no tempo que acompanha uma entidade que não envelhece, não se entedia e não sente o tempo e a sua capacidade viajar livremente no plano temporal.

E assim, um filme que parecia meramente artístico, uma sequência de belos planos cuidados  transforma-se numa epopeia, numa viagem no tempo, nas emoções, na nossa própria fé em que alguma coisa exista além deste corpo de carne e das reações químicas que nos dão a sensação de consciência e importância.

É uma surpreendente viagem, um misto de filosofia, ficção científica e espetáculo de marionetas que se crava no cérebro, uma espécie de sequela de Casper, a resposta falsa mas recompensadora ao sentido da vida. E as respostas não têm que ser todas verdadeiras, basta-nos que sejam aconchegantes. Há coisas em que não quero a verdade, como nos filmes. Ou na vida, vá. Gosto imenso de andar iludido com aquilo que me faz sentir melhor e esconder estas assombrações do vida real debaixo do tapete. E é isto que este filme me deu, recusa em enfrentar a realidade. A melhor das prendas.

A cereja no topo do bolo é Casey Affleck calado e enfiado debaixo de um lençol durante 90% do filme.

2 Comments

  1. Qual é o problema de viver uma mentira, se nunca souber que é uma mentira?

  2. That’s the spirit. Hehe, spirit!…

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