23h58m. Estava na hora. Como sempre nos últimos 30 dias baixei as calças, sentei-me no deprimente banquinho dentro da banheira, peguei no saco de sal, tirei um punhado e esfreguei os testículos durante 5 minutos à meia noite em ponto. “Meto-me em cada uma”, pensei. Sou transportado para o fatídico sábado há um mês atrás. Na sala de espera húmida, nervoso, com uma amiga. Garantia-me que só pagava se resultasse. Era infalível, todos o fazem. Fui chamado e entrei no escuro gabinete iluminado por uma cansada lâmpada de tungsténio que projectava fotões e anos 80. Contei a história à velha senhora, o que queria da vida. E o que queria era específico. Uma mulher que gostasse de ver filmes de terror comigo, que não me julgasse por ver maus filmes. E que mantivesse a opinião, não queria apanhar uma galdéria falsa que passados 3 meses me atiraria à cara que só vejo filmes de merda. A velha senhora sorriu, pegou nuns pós azulados e soprou-os na minha cara. Disse que era um caso muito simples, quase nem precisava de ajuda. Para acelerar as coisas pediu-me para esfregar os tomates com sal todos os dias à meia noite. No último dia, caso fizesse correctamente o ritual, apareceria alguém nestas condições. Eu disse à minha amiga que sou um homem de ciência, nunca me apanhariam em tal esquema ignorante feito para iludir pobres de espírito, que isto é como os maluquinhos que acreditam na terra plana ou extraterrestres e quando cheguei a casa esfreguei os tomates com sal como se não houvesse amanhã.

E cá estava eu hoje, um mês depois. Que perda de tempo! Espero que não infete. No final da última esfregadela passei um chuveirinho e vesti-me. No mesmo segundo toca a campainha da porta. Abri. “Tu?”, disse eu incrédulo. “Sim, eu! Quem querias que fosse? O Pai Natal? Esse entra pela chaminé e só daqui a dois meses”. Disse ela com um brilho quase sobrenatural. Tentei dizer qualquer coisa e nem ar saiu. “Queres ir ao cinema? Ainda apanhamos a sessão da meia noite”. A sua voz era de mil harmonias, um coro de anjos a tilintar-me no hipotálamo como se estivessem a dedilhar um lento andamento de Schubert em violoncelo. “Sim…”, saiu-me como um orgasmo de um miúdo de 13 anos.

Não havia nada de jeito para ver com uma miúda, não queria arruinar todo o meu promissor futuro conjugal com ela escolhendo um filme terrível. Os nossos futuros filhos dependeriam deste momento “Vamos ver o remake do Halloween. Adorei o original, tolerei as sequelas e estou super curiosa para ver este”, disse entre sorrisos que me faziam saltitar o pénis a cada palavra numa métrica quase masturbatória. “Ok!”, anuí com o nervoso mais miudinho que me lembro de ter sentido.

Entrámos, partilhámos pipocas, roçámos mãos. Toquei-lhe acidentalmente num seio e ela sorriu. “Calma cowboy, a noite ainda é uma criança”. Piscou o olho. Soou como um gemido de prazer. Corei no escuro, temi que as pessoas em redor sentissem o calor da minha rubescência. Durante as publicidades e trailers, à meia luz do esquema de fugir às legislações que os cinemas têm para nos obrigar a entrar no seu marketing, olhava-a de soslaio. Perfeita em todos os sentidos. O cheiro inundava-me e só pensava na noite de amor que iríamos ter. Que suave a sua pele, angelical o seu cheiro.

O filme começou. O remake patrocinado por John Carpenter que, deitado num colchão dos dólares de royalties, dizia ser uma rico filmezinho sim senhor. Carpenter fala e nós obedecemos. Não é realizado por ele, não há problema. De certeza que é bom.

Mas não foi. Personagens horríveis, uma narrativa falhada, frouxa, pejada de pontas soltas, maus actores, decisões desastrosas só para caber na franzina narrativa. Frases pastelonas de cortar pulsos, diálogos de fazer ponderar seriamente o suicídio. Nada de sustos, nada de injectar medos e medos, uma fábrica de encher chouriças à laia de soft remake. Uma merda de filme que nem os prisioneiros da ala de crimes sexuais contra crianças merecem ver. Saí triste e irritado. Não porque o filme foi mau, era de prever. Porque me forcei a acreditar que poderia ser bom.

E que tal?”. Assustei-me com as palavras dela. Quase me tinha esquecido que estava com ela? “A-DO-REI!”. E repetiu 4 vezes aquela irritante mantra. Na minha cabeça já só ouvia “NhÔnhôNhEi!“. Continuou. “Que espectáculo de filme. Fez-me lembrar outros que adoro. Os Saws e aqueles todos do Conjuring.  Super giros, amo!”. Fiquei calado e olhei-a com apreensão. Depois diz-me “Ontem entregaram-me um Bluray set que encomendei da Amazon, a filmografia de Cristopher Nolan. Podíamos ir para minha casa, deitar-nos na minha cama aconchegadinhos e ver o Interstellar!

Comprei uma super mini lingerie e preciso da tua opinião. Não é só da tua opinião que preciso. hihihi! Aposto que vais…” Interrompi o seu discurso levantando uma mão. Abri a carteira e passei-lhe uma nota de 20. “A praça de taxis é ao fundo do corredor do continente à esquerda”. E vim embora a chorar. “Putas do caralho, era o táxi ser abalroado por um camião do lixo e ainda era pouco.