Ao fim da primeira semana em encarceramento forçado, todas as tarefas se tornam repetitivas. Todos os dias são cópias de menor qualidade dos dias anteriores, a perder cor, e passam a um ritmo estonteante, contrastando com nossa agora permanente catalepsia. Voltando lentamente a cabeça na direção da janela, os dias passam numa cadência estroboscópica, hipnótica. “Que dia é hoje?”, perguntam os membros do quarteto cordas semi-decomposto que me fala do outro lado da sala. “Sei lá!”respondo. “Terça? Domingo? Junho? 1986?”. E os filmes que vi? Vi mesmo ou imaginei? Vou aqui atravessar-me pela minha memória com quase total garantia de que vi mesmo este filme, que ele existe, e vou falar-vos de Butt Boy. 

Um homem num momento de viragem da sua vida, que é a vida toda de um homem, vai a uma consulta no urologista verificar a integridade da sua próstata. Assustado, como é sempre o caso, rapidamente se vê entusiasmado com as potencialidades das brincadeiras retais. Chegado a casa começa a fazer desaparecer utensílios pela guloso cagueiro. Num estado de permanente latejo de larica bundal, o seu buraco negro de tons acastanhados rapidamente se transforma num aspirador de tal potência que nem a luz lhe escapa. Se este cu estivesse em Interstellar, uma semana ao seu lado equivalia a 3 meses no apartamento ao lado.

Eis que um dia este triturador rectal se sente na necessidade de mais e maior. Começam a desaparecer pessoas e um detetive perspicaz rapidamente chega à mais lógica das conclusões: alguém as anda a aspirar pelo cu acima. E começa assim um jogo do gato e do rato, apenas estragado por alguma falta de aptidão nas artes da representação e direção de atores.

Tudo compensado pela ousadia desta narrativa e pelo inacreditável terceiro ato que faria Terry Gilliam corar de vergonha pelos seus argumentos serem uma banalidade ao lado da conclusão que Tyler Cornack escolheu para o seu filme. Tyler Cornack que é o realizador, actor principal, produtor e, juntamente com os seus 150.000 dolares, faz tudo neste filme de 2019 que só não é de 2020 porque o senhor da DGS insiste que as datas do IMDB é que mandam.

Um bocado excessivo, fraco no ritmo, frouxo na representação, é o que dizem algumas pessoas. Mas não eu. Que gostei imenso e fico a sonhar, olhando para as estrelas, se não será fácil fazer um filme apenas com uma ideia fabulosa e dinheiro sacado a um incauto organismo público. Sei lá, dizer que é para formação profissional a agricultores com menos de 40 anos e ser para fazer um filme em que um gajo tem sexo com alfaias agrícolas e fardos de palha só para salvar o planeta de uma raça interdimensional de ruminantes de outra galáxia que já cá está no planeta desde que na Mesopotamia lhes aprisionaram as primas para mungir leite e fazer queijo.