CinemaXunga

Desde 24 de Junho de 2003

Category: Xunga e Boff! (page 2 of 9)

Maggie (2015)

Maggie (2015)

– O senhor, por acaso, sabe quem eu sou?
– Paiziiinho!
– Não, não. Sou um drama familiar em formato de telefilme. Coincidentemente passa-se em pleno apocalipse zombie e  protagonizado por Arnold Schwarzenegger.
– Eh lá! Isso é que deve ser matar, esquartejar, decapitar, sangue a jorrar, tripas arrastadas pelas ruas, prédios em chamas, exércitos a bazucar hordes de milhares de zombies pelos ares, a destruição de uma cidade grande americana no terceiro acto, motosseras a…
– Erm… Sim… Não! Não é bem assim. É mais silêncio, contemplação, sofrimento interno, escuridão…
– Escuridão como em “trevas”, a negridão dos tempos, o desespero de se ser mastigado vivo por uma matilha de mortos vivos enquanto se lhes arranca metade do torço a tiro de caçadeira de canos serrados?
– Não. Mais em falhas de electricidade e problemas na infraestrutura de distribuição de alta/média tensão.
– Oh diabo! E vai ser o Arnie a conseguir reconstruir rapidamente toda essa destruição graças à sua capacidade física de super-humano e a uma experiência avançada que não se aprende nos livros para grande humilhação dos jovens superiores hierárquicos que pensavam estar perante um velho caquético que no final lhes salva o dia?
– Não, a infraestrutura mantém-se inalterada durante toda a duração do filme.
-Nem mamas?
– Nada…

Continue reading

Avengers: Age of Ultron (2015) e a humildade de saber amar um filme com deficiência

avengers-age-of-ultron

À distância, o ano cinematográfico de 2015 faz-me lembrar aquelas viagens baratas em hotéis de 3 estrelas da Tunísia que compramos fora de época em promoção por catálogo. Tudo parece luxuriante, paradisíaco, o local perfeito para (nem acredito que vou dizer isto) “recarregar baterias”. Uns meses em delírio expectante e quando lá chegamos não se encontra nada do que foi prometido, os pontos de interesse do catálogo ficam separados por centenas de quilómetros e mesmo assim resumem-se a um único ponto de beleza, que foi o ângulo captado pela câmara. Aqui estamos nós em 2015, no ano que o alinhamento de blockbusters era tão perfeito que em 2013 havia geeks a querer hibernar para passarem depressa estes dois anos. Em 2015, no olho do furacão, na época alto do blockbuster e olhando em volta é a desolação do costume. A coboiada dos heróis de licra e os CGI-fests.

Continue reading

Gone Girl (2014)

gone-girl-DF-01826cc_rgb.jpg

Há filmes que nos apanham de surpresa e outros há que se fazem anteceder por uma comitiva de arautos que nos vêm massajar o sistema límbico, dando garantias de qualidade antecipada, o famoso hype. Gone Girl é um desses exemplos de filme que se fez sonoramente anunciar. Porque é realizado por um ilustre, porque tem o Ben Affleck (a humedecer vulva na faixa etária entre os 30 e 55 anos) e baseado num best seller de prestígio. Talvez o prestígio do livro até tenha sido criado pela existência do próprio filme. É um caso típico de masturbação circular, criação de rentáveis produtos paralelos a partir do nada. E com “nada” quero na realidade dizer 200 milhões de dólares em marketing, trafulhice subliminar, bullying legal e velhacaria em geral. Não sendo minha função emitir juízos de valor, que faço ainda assim, vamos aqui filosofar acerca de Gone Girl e perceber se estamos perante obra digna de futura herança cultura dos anos 10 do século XXI ou se é apenas mais um pomposo balde dourado de caca de vaca.

Continue reading

Guardians of the Galaxy (2014)

groot-e-ratazana

Tal como todas as minhas crónicas, também esta se rege pela exactidão e o rigor histórico. Não existe nela a mais pálida centelha de  intrujice nem falácias de retórica. Comecemos. Corria o ano de 2654 e um jovem abastado das grandes famílias de Hwange, herdeiro das mais proveitosas minas de Neodymium, Herbium e Lanctanyum nos cintos de asteroides dos planetas gémeos gigantes de Gliese (81a e 81b) olhava pela janela contemplando o nada, aquele ponto intermédio de quando estamos a divagar na nossa natural letargia matinal. Arregalou rapidamente os olhos e levantou-se. Pegou na mochila com módulo para viajar no tempo e no capacete BrainSynchro, acessório obrigatório, e correu pela casa à procura das portos de exaustão espaço-temporais. Não os usava com frequência e confundia-se sempre. Estava decidido a viajar para o ano de 2014 e assistir à estreia de um dos seus guilty pleasures favoritos, Guardians of the Galaxy. É um dos poucos filmes que ainda existem comercialmente daquela época em que um país, Estados Unidos da América, liderou temporariamente as tendências mundiais do cinema. Agora é um local estéril ainda sob um manto denso de inverno nuclear onde nem as amibas conseguem viver. Mas qual o país do hemisfério norte que não está assim, não é? O rapaz (chamemos-lhe rapaz) tinha este filme em HD, UHD, 3D, Imerton2032, Holodeck Vision, HipnoTech, SuperIncrivelHD (3D e cheiro) e PornoSpoofEnablerUHD. Ainda assim quis voltar ao tempo em que as pessoas o viram pela primeira vez. Carregou no botão que sincroniza as ondas cerebrais com o módulo de viagem no espaço-tempo e desapareceu. Ter-se-à esquecido de um frango churrasco liofilizado com migas que a sua mãe lhe havia preparado. A comida do séc. XXI é tão tóxica todos os viajantes voltam sempre de lá para passar uma semana submergido numa piscina estaminal reconstrutora, como aquela onde metiam o Vegeta quando apanhava no focinho. Excepto a comida chinesa à base de carne de cão, uma delícia e ainda por cima saudável.

Malibu Express (1985 ou 1984… ninguém sabe)

Malibu-Express-1985

Há dois ou três dias atrás estava enterrado em trabalho. Sobrecarregado para além do suportável, daqueles dias que só queremos ver pelas costas. Fechei todas as janelas de browser para não me distrair com a Internet, coloquei os auscultares para ouvir qualquer coisa que me isolasse do mundo. De repente sinto um tremer nas calças e disse “Agora não pénis, estou a trabalhar.” E voltou a tremer. E outra vez e outra vez. Bolas, tinha-me esquecido do telemóvel ligado e estava a receber as habituais tempestades de notificações do Facebook, Twitter, 6 contas de email, malta do skype e do gmail, mensagens do Viber e as notificações de que as aplicações precisam de ser actualizadas para a nossa vida continuar a fazer sentido. Abandonei os afazeres e entreguei-me ao mole prazer de vasculhar aquela merda toda à espera daquela mensagem que traga sentido á minha existência, uma mensagem divina ou um simples convite ao deboche. Nada. Likes, tu coças as minhas costas que eu coço as tuas, Lols e winks a dar com um pau, email a dizer que a encomenda já tinha sido enviada numa embalagem discreta. Enfim, o mesmo de sempre. Entre elas havia um daqueles irrecusáveis links de “A lista definitiva dos anos 80. O melhor. Ever.” Ora foda-se, se não clico vou acordar com suores frios. Ok, aqui vai. click, click, click. Vi 46 dos 50 títulos. 3 dos que faltam são daqueles que não toco nem com um pau de 5 metros e um nunca ouvi falar. Malibu Express. “Mas que diabos?… Agora é que não vou ter descanso se não vir essa merda.” Videoclube do povo, click click click. Yes, I agree. Beber café enquanto a coisa se dá. Tufas… Aqui vamos nós. Play.

Continue reading

RoboCop (2014) – primeira parte

robocop-2014-

Uma doce e inocente memória de adolescência caminhava para casa depois de um dia de escola. Aprendera que baleias e golfinhos não eram peixes e preparava mentalmente uma surpresa para os seus pais que iriam ficar maravilhados com esta lição. Era o seu aniversário. Ao passar por uma zona mal frequentada ouviu uma voz sombria que vinha de uma ruela lateral. “Psst, anda cá. Quero mostrar-te uma coisa.” Assustada tentou recuar  mas viu-se paralisada de medo. “Chega aqui jeitosa. Vais adorar isto. É uma coisa que gostas muito.” A doce memória sentia tremer o queixo e respondeu. “Os meus pais dizem-me para não falar nem aceitar nada de estranhos”.  O homem saiu da ruela e aproxima-se da inocente memória. Com uma voz gutural retorquiu “Eu não sou estranho, garina. Chamo-me José Padilha e tu deves conhecer-me de grandes êxitos como Tropa de Elite e Tropa de Elite 2.” A menina encolheu os ombros e ficou mais descansada. Afinal era uma pessoa de confiança. Que mal lhe poderia fazer um gentil brasileiro que fez, pelo menos, um bom e honesto filme? “Entras na minha casa?” insistiu Padilha. “Sim, claro!”. E lá entrou numa sala escura que parecia não ter janelas nem iluminação. Foi então que Padilha lhe agarrou nos braços e a atirou ao chão. Virou-a de barriga para baixo. Com uma mão agarrava os dois pulsos e com a outra tirava-lhe as calças e as cuequinhas cor-de-rosa com temáticas de Charlie Brown. Baixou também as suas calças e sodomizou a inocente memória de infância que gritava pela sua mãe e chorava copiosamente. Sem preparação, sem suavização. A pequena memória sentia-se rasgada em duas. O hálito a álcool de Padilha na sua cara e as dores que sentia fizeram-na desmaiar. Três horas de sodomização depois, por cima de uma memória inconsciente e ensanguentada, Padilha levanta-se e sai. Na rua espera-o um carro de vidros fumados. Aproxima-se. O vidro baixa e uma mão estendo um maço de notas de 100 dólares. Padilha chora enquanto aceita o dinheiro e de dentro do carro uma voz demoníaca diz “That’ll do, José. That’ll do!

Continue reading

Frances Ha (2013)

francesha

Invejo esta juventude que se inebria instantaneamente com arte. Que perante uma avassaladora dose de poesia, lirismo ou cinefilia se deixam incapacitar fisicamente com a sensibilidade, como se o talento e genialidade criativa os deixassem em coma catártico e por momentos etéreos padecem de   “Oh my god it’s full of stars”-ismo. Porque eu sou um talego, um calhau emocional incapaz de absorver a beleza artística, mesmo que ela me seja arremessada pela própria incarnação física e cientificamente provada do deus Apolo. Lá vou melhorando com a idade, a experiência. Filmes que achava merdosos passam a fazer sentido, sentimentos que em tempos classifiquei como “de velho” fluem agora livremente por mim. Todo este processo leva o seu tempo, é como os corais ou o musgo, vai conquistando o seu espaço, vai alterando a nossa percepção, amadurecendo. A experiência é, na maior parte das vezes, a maior aliada do cinéfilo lento. Quero com isto dizer que não compreendo como se vêem agora por aí putos com 17 anos que descodificaram o sentido da vida pela cinematografia de Bergman, compilam teses académicas sobre a comoção que lhes causa o neo-realismo italiano ou como absorvem o essencial da vida pelas alegorias neuro-boémias da Nouvelle Vague. Quando eu aos 17 anos nem a moral do primeiro Rambo percebia muito bem. Este excesso de academismo e o atalho na ciclo natural da cinefilia não é, na opinião deste abandonado escrivão, saudável. E assim chegamos a Frances Ha, um filme bonito e de bela representação, mas carcomido no seu núcleo.

Continue reading

After Earth (2013)

Logo_The_Fresh_Prince_of_Bel-Air

Will Smith sempre foi um insuportável bonacheirão, um pirralho de morais questionáveis, na eterna fronteira do adorável / insuportável / “matem-no com fogo”, um efeito secundário de um sitcom que correu melhor do que esperado. Agora, subitamente, transformou-se num pai preocupado, num modelo de patriarquia. Uma abrupta mudança de direcção cuja inércia do movimento rápido nos deixou a todos com uma certa náusea, algo comparável com enjoo marinho ou como quando atravessamos o Algarve pela montanha junto a Espanha num autocarro de Rodoviária de 1982, com aquele inebriante cheiro que é uma mistura de plástico em decomposição com ceroulas usadas duas semanas seguidas sem ver água. Neste novo modelo de Will Smith assistimos a tentativa após tentativa de enfardar o seu filho na elite Hollywoodiana, como que a querer encaixar um cubo num buraco redondo. É nobre que o faça, é o seu dever de pai. No entanto, como estrela de topo na indústria com décadas de experiência, Smith deveria perceber como funciona a sua própria profissão e compreender que há coisas que não podem ser forçadas. Uma criança sem carisma, sem talento e sem as qualidades representativas do seu pai irá ser, no limite, chacinado pela crítica e pelo público.

Continue reading

Pacific Rim (2013)

pacificrim

No início deste verão prometi a mim mesmo ficar longe dos blockbusters para bem da minha sanidade mental e daqueles que me rodeiam. Não se tratava de uma regra intransigente, antes um “prime directive” com grande probabilidade de ser quebrada. Decidi mais tarde outra coisa mais flexível, ver os filmes mas não falar deles. Basicamente para não importunar ninguém com opiniões geralmente pouco populares. Ontem estava a afiar a corrente do meu Husqvarna 240 e-series TrioBrake (com motor X-Torq) e pensei “Ora foda-se, tenho que levar todos os dias com presunções alheias sem direito a contraditório e não posso opinar em relação a meia dúzia de filmecos cujo principal intuito é secar as mesadas de teenagers que lutam ferverosamente por perder a virgindade pelas nossas lindas praias de areia branca a perder de vista? “ E eis-me aqui, no momento crucial que conclui esta complexa linha de raciocínio.

Continue reading

Only God Forgives (2013)

VIDEO_Only_God_Forg_415658a

Há uns meses atrás tive o infortúnio de assistir a um testemunho de um jovem que se sentiu impressionado em demasia com Drive, filme de 2011 de Nicolas Winding Refn. O garoto andava perdido na vida, sem planos de futuro, sem namorada, sufocado em casa dos pais, desmoralizado e sem esperança num mundo melhor. Depois de ter visto a luz no enxameio de bofetada requintado protagonizado  por Ryan Gosling decidiu passar as noites a conduzir pela cidade a ouvir a banda sonora do filme e a imaginar cenários de grandeza. Um dia foi ao McDrive e manteve a música em generoso volume. Foi atendida por uma gótica meio metalizada que provavelmente tinha dois piercings no clitóris. Ela sentiu uma atração por ele e iniciou um agressivo processo de flirting. “Olá”, “Como te chamas”, “Boa música!”, etc, até que chegou à terrível pergunta “O que fazes?”. O moço respondeu “Conduzo!” com um inexplicável orgulho. E ela volta à carga ligeiramente confusa “Conduzes o quê? Um taxi? Uma carrinha de entregas?”. Nesta altura o jovem sentiu o peso do ridículo e arrancou, tendo-se esquecido de trazer a encomenda. Podia-se adaptar para o remake português do filme. Chamar-lhe-ia “McDrive”.

Continue reading

Warm Bodies (2013)

warm-bodies

Por cada filme de zombies fraquinho que é lançado, Lucio Fulci mata um gatinho do outro lado da tumba. Os filmes de terror que saem actualmente são praticamente todos maus. Os de zombies ainda pior. As causas já foram por várias vezes aqui expostas. A mais recente é esta invasão teenager à procura de emoção,  as caldeiradas hormonais, as imaturidades emocionais de quem não tem um crédito à habitação para pagar ou de quem nunca teve que abandonar o idealismo pela lógica da sobrevivência. Warm Bodies pretende ser o outro lado dos filmes de Zombies, mas é na realidade uma mal disfarçada tentativa de sacar euros à conta de um Twilight com zombies coladinho ao cheirinho de Romeu e Julieta, porque quando se copia de uma obra de Public Domain não é  plágio é adaptação livre.

Continue reading

Flight (2012)

flight

Há medida que me sinto mais desiludido com o cinema que nos chega às salas e ao subsequente monopólio de uma única empresa de distribuição que nos impõe a sua estratégia de marketing (ao invés de bom cinema), vou deixando de ver cinema mainstream contemporâneo. Mas de tempos a tempos, como qualquer outro humanóide, apanho o autocarro das sugestões das revistas e dos blogs populistas e vejo um filme destes. O problema é que cada vez que vemos um filme mau um gatinho morre ao ser sodomizado por um cavalo e se não for tomada uma decisão de acabar com este flagelo do cinema mercenário, o único sítio onde vamos ter gatinhos será nos powerpoints que nos mandam as nossas tias e aquelas amigas que ainda não descobriram a satisfação do African King (pilhas incluídas).

Continue reading

The Hobbit (2012)

the-hobbit

Estava o ano a chegar ao fim e tinha estreado o Hobbit. 2012 não tinha sido generoso em bom cinema, pelo menos do que vem de Hollywood. Reboots, sequelas e prequelas são o novo cancro do cinema americano. São tão contagiosas que aportuguesamos esses termos sem sequer perceber que sequela e prequela não são palavras que honrem Camões e a sua língua. Nem com o acordo, note-se. Já passou mais de uma década desde que a febre do senhor dos anéis se apoderou de todos nós e na altura, influenciado por uns amigos, juntei-me ao autocarro da irmandade do anel. Nunca tinha lido o livro, não interessava nada. Andava numa fase William Burroughs e Jack Kerouac, pelo que Tolkien era tudo menos adequado á situação. Na estreia absorvi o fervor dos fanboys e fui logo a correr feito parvo. Vi-o no Cineteatro Avenida, um cinema à moda antiga, sem pipocas, sem intervalo, quase nenhuma publicidade. Escuridão total e uns senhores que nos escoltavam ao lugar com uma lanterna para não estragar a sessão aos vizinhos. Gostei do filme, apesar de longo. Na altura fumava, pelo que 3 horas sem colocar umas moléculas de nicotina nos receptores de serotina dava a sua dose de suores frios e inquietação. Aguentou-se, estes períodos de abstinência fazem parte do vício . O filme, Fellowship of the Ring, tinha algumas coisas que me aborreciam. Muito andar, cenas atrás de cenas de imagens de helicóptero da rodar em cima dos heróis caminhantes. No entanto o que mais me irritou foi Frodo, com aquele permanente ar de sofrimento digno da Joana d’Arc de Carl Theodor Dreyer. Com o tempo o aspecto sofrido do pobre hobbit tornou-se insuportável, como se estivesse preso e constantemente a ser violado por um gang de traficantes de droga caboverdianos e a experiência lhe estivesse a ser, surpreendentemente, agradável. Andar, sofrer, fugir dos ladrões que se escondem nas matas, todos os ingredientes de uma ida a Fátima a pé.

Continue reading

The Man with the Iron Fists (2012)

THE-MAN-WITH-THE-IRON-FISTS-1-602x328

Há uns meses atrás, numa daquelas conversas enfadonhas de pequeno almoço no trabalho com pessoas que não conheço muito bem, mas que também não faz parte das minhas ambições conhecer melhor, alguém quebrou as convenções ao sair do tema da meteorologia e disse “Vai estrear agora um filme do Tarantino, não é?”. Sem acabar de mastigar o croissant disse de boca meia cheia “Não é agora, o Django só estreia em Janeiro.” Os pedaços que cuspi enojaram um estagiária a quem nunca ouvi a voz.  O meu comparsa da secção de recursos humanos retorquiu disfarçando a rudeza “Não é esse, é um de karate.” Contornei a expressão “palhaço do caralho” e usei a diplomacia para explicar ao meu amigo sub-desenvolvido que era impossível. Disse-lhe que não era propriamente um Jedi do cinema, mas também não era nenhum Padawan. E que o próximo Tarantino era o Django e não se fala mais nisso. Ele olhou-me com aquele semblante de quem transborda imbecilidade e virou costas. Deixou meio galão e a torrada quase inteira que o colega dele se apressou a terminar.

Continue reading

Os piores de 2012

big-baby-sad-face

2012 foi um ano normal, como todos os outros, carregado de cinema horrível nas nossas salas. Apesar da oblonga lista que tinha aqui à mão, consegui reduzir o “crème de la crème” da mais hedionda  ignomínia ao nosso bom gosto cinematográfico a 5 fétidos itens. Sem mais delongas nem insinuações sexuais (sob a forma de impropério gratuito ou história de contornos softcore) deixo-vos 5 filmes capazes de fazer murchar a mais viçosa flor.

Continue reading

Looper (2012) e o perigo da má interpretação

looper

Faço minetes grátis”, escreveu ele no formulário do jornal que permitia pequenas mensagens na secção “Contactos”. Com a cabeça ligeiramente inclinada e a mordiscar a língua que pendia entre os lábios descaída para a esquerda, a confirmar subconscientemente a sua intenção, continuou “Sem pedir nada em troca. Garanto confidencialidade. Só meto dedo no rabo a pedido. Atreve-te a ser feliz!”. Sorriu ao entregar o papel à funcionária que franziu um esgar de encapsulada repugnância de quem se incomoda com o devassidão da mensagem misturado com a repulsa natural do próprio ser humano de prestar serviços não remunerados. No dia seguinte ligou-me. Chorava copiosamente e não se percebia bem o que dizia. Parei de mastigar os Cheetos que me serviam de pequeno almoço para tentar compreender aquela amálgama de má dicção com soluços e angústia. “Não publicaram, filhos da puta, [reticências] não publicaram o meu anúncio”. Plenamente confiante que estava a prestar um serviço útil e que a sociedade que pretendia servir lhe recusou violentamente os préstimos, suicidou-se meia hora mais tarde por asfixia auto-erótica vestindo apenas umas cuecas da irmã. Um desgosto para a família, uma vez que o mesmo jornal onde entregou o formulário para a secção “Contactos” publicou a foto na capa com o título “Jovem seropositivo homosexual com historial de drogas duras suicida-se em ritual satânico de zoofilia”. O anúncio dos minetes grátis foi publicado na mesma edição do jornal.

Continue reading

The Change-Up (2011) e as mamas digitais

olivia

Não vou fazer a crítica a este filme, uma vez que se trata de um típico filme de gaja com uma pequena percentagem de Appatow, um imenso potencial para o deboche que depois nunca atravessa a linha do moralismo cristão, da máxima “não cobices a mulher do próprio” e a insuportável (e aparentemente inevitável) desfecho “love will conquer all”. Longe de mim querer questionar a horribilidade deste filme. O que aqui me traz hoje é a implicação das mamas CGI que as actrizes usaram neste filme, como alternativa à típica topless scene.

Continue reading

Crocodile Dundee – A pior trilogia do mundo

CocodrileDundee

Um dos assuntos que mais largura de banda queima na Internet é “Qual a melhor trilogia?”. Defensores das várias facções batalham-se 24 horas por dias, desde os tempos das BBS e os modems de 9600 bauds, esgrimindo argumentos e tirando partido da sua melhor retórica para defender aquela que é, do seu ponto de vista, a melhor trilogia cinematográfica. Note-se que trilogia nos dias de hoje não é necessariamente um conjunto de 3 filmes, mas uma molhada deles que pode ir dos 2 aos 56. No entanto ninguém fala daquilo que é realmente importante que é saber qual a pior trilogia de sempre. Tendo em conta a subjectividade inerente a este tema, escolhi como pior trilogia de sempre o Crocodile Dundee. Para a semana pode mudar, mas esta semana odeio de modo figadal o Paul Hogan e as suas tropelias de parolo australiano em solo americano.

Continue reading

Total Recall (2012)

totalrecall2012

Nos anos 80 não havia Internet para as pessoas se rirem de patetices, então recorria-se a cassetes de anedotas que eram passadas de amigo em amigo numa rede social analógica de partilha. Eram cassetes sem dono, aventureiras com vida própria que numa semana estavam em casa do filho do padeiro e noutra estavam entaladas numa pilha de Playboys daquele puto esquisito que só vestia camisolas tricotadas pela mãe. As mais famosas eram de uma enigmática figura chamada Canty (O Cantinflas Português), numa homenagem de qualidade duvidosa ao célebre actor mexicano de comédia Cantinflas. Uma das anedotas de que me lembro melhor era do formato “Joãozinho” em que a professora faz perguntas e os alunos respondem. Neste caso a pergunta era “O que viram ontem na televisão?”. Os meninos responderam normalmente e no final o Joãozinho respondeu “Nós não temos televisão, mas o meu pai vai para o meio da sala dar peidos e a gente bate palmas e ri-se…”. Na altura não me ri porque nem sequer percebi o conceito de alguém juntar um grupo de pessoas em seu redor para os entreter com flatulência. Fastforward quase 30 anos para os dias de hoje e começo a compreender que dar peidos para uma pequena audiência familiar já não parece tão ridículo como antes e que poderá ser uma melhor alternativa de entretenimento do que 70% da programação de cinema/TV da actualidade.

Continue reading

Project X (2012)

lick_1122011_145132

Project X é um daqueles filmes tão espalha brasas que uma pessoa sente-se terrivelmente compelida a vê-lo só para perceber de onde raio vem tanto entusiasmo. Quando vi os cartazes no cinema em Coimbra pensei que seria um horrível pestilência que não duraria mais que uma semana em cena pois a  sua projecção teria o mesmo efeito nos cinéfilos que a arca da aliança teve nos nazis no final do Raiders of the Lost Ark. E mais uma vez pude comprovar que o preconceito cinematográfico é uma força em que devemos sempre confiar, mais poderosa do que o próprio amor ou aquela aversão perfeitamente injustificada de olhar directamente para um pedinte.

« Older posts Newer posts »

© 2019 CinemaXunga

Theme by Anders NorenUp ↑