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Tag: 2017

Suburbicon (2017)

Um dia os irmãos Coen ofereceram ao George Clooney um saco de arroz. Um arrozinho do mesmo que eles usam, de qualidade, do melhor que se come por aí. Ofereceram-no cru, note-se. Deram-lhe umas receitas de como o cozinhar bem e o Clooney lá foi todo contente para casa com aquele saquinho de arroz. Chegado ao lar, tira uma panela da gaveta e mete-se a cozinhar. Com falta de experiência no ramo do cozinhar arroz, Clooney enche a panela de arroz até ao topo. Além disso mete-lhe todos os condimentos que tem na prateleira das especiarias, só para dar mais sabor e para agradar a todos. Quando a água começa a ferver, o arroz começa a subir e a sair da panela. Clooney, aflito, ajusta a temperatura, remove algum arroz para outra panela. Bom, no final fica com um arroz meio merdoso e com sabor demasiado intenso e sem identidade, com a cozinha numa lástima e com um sms dos irmãos Coen a dizer que para a próxima só lhes mandam dois ovos para estrelar.

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A Ghost Story (2017)

Na viragem do século, metade dos internautas ficava a teclar noite adentro em salas virtuais com pessoas que conheciam apenas pelas palavras que liam. Muitos se apaixonaram, muitos se enervaram, muitos sonhavam com os imaginários technicolor 4D de realidade aumentada saídos daquelas sessões text-only. E o que se ouvia mais, e que não era exagerado, era que se calhar essa Marta de 19 anos que gosta de livros de Douglas Coupland, discos dos Massive Attack e chocolate quente ao nascer do sol é afinal um mecânico suado de 45 anos e costas peludas chamado Armando. E por vezes assim acontecia. Nos dias que correm o perigo ainda é mais bizarro. Será que as pessoas com quem interagimos na Internet são realmente pessoas? Ou serão bots de inteligência artificial a fazer-se passar por humanos? Questões para levar a sério. E daqui a 20 anos? Qual será o perigo? Serão Aldacianos de Turis 24 da galáxia Nervusis a influenciar as nossas opiniões acerca da mineração das luas de Kiroa 2 em Alpha Centauro? Serão macacos evoluídos que preferiram a revolução digital à revolução a cavalo na ponte de São Francisco? Ou a tecnologia de comunicação tornou-se tão sensível ao ponto dos fantasmas que palmilham o limbo poderem agora interagir com humanos via wireless, fazendo-se passar por uma esteticista chamada Rute Juliana que até manda fotos convincentes da pachacha lisa como a careca do Jean Luc Picard?

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Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017)

Numa época pós-reality TV, do direto e da reengenharia do realismo as pessoas começam a confundir-se com o que é a realidade. O que é uma narrativa realista, estamos perante algo plausível ou é uma fantasia sexual encapsulada e reprimida de um argumentista drogado? É demasiado polido para ser um relato do quotidiano? “As peças narrativas encaixam demais? Já me enganaram estes malandros.” E por vezes andamos nisto, neste ping pong do pós-neo-pré-meta-ultra-hiper-micro realismo. E claro, como tudo o que discute hoje não tem interesse nenhum. É o discurso estéril destas redes que nos aprisionam a conversa num curral que parece não ter portas nem janelas, onde o ar entra filtrado. Daí existir esta necessidade de falar um pouco de Three Bilboards não sei quê… Deixa googlar Three Billboards Outside Ebbing, Missouri.

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The Disaster Artist (2017)

Por várias gamas de razões nunca entrei a bordo do comboio “The Room”. A comunidade parecia-me sólida e interessante, no entanto nunca se fez o clique. “Oh, vá lá!”, diziam-me, “Tu gostas de filmes maus, adoras obras trash. Anda connosco neste fartote desenfreado de masturbação circular.” E não consegui. Talvez por lhe faltar aquele nível ideal de guerreiros pós-apocalípticos de mota liderados por um mutante deformado ou decapitações a cada 15 minutos. Tinha seios e sexo, mas um sexo inqualificável que pode ser apreciado em família num contexto de sofá pós-almoço de Páscoa.

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Ah, é verdade! Valerian (2017)

Ah, é verdade! Valerian… Bom, para fazer o teste da ficção científica ao miúdo lá fomos ver o Valerian. Começou mal quando me foi dito que os descontos, cartões, talões, promos, cunhas, piscadelas de olho ou subornos em pastelaria não funcionam nesta sessão. Mostrei o cartão de colombófilo, a funcionária voltou a acenar negativamente com ar zangado. Preço de antestreia, oito euros e meio. Sem óculos. Com direito a pipocas, o balde mais pequeno. De meio metro cúbico. Já não pagava tanto por um bilhete desde… sei lá, provavelmente nunca paguei tanto por um bilhete. Aposto que há países orientais em que se podia fazer uma orgia de médio porte com este valor. O que hei-de fazer? O prometido é devido. Meti o meu saco de rúpias com o símbolo de cifrão em cima da mesa e pedi os bilhetes. Sala composta, este trimestre a NOS apresenta resultados positivos à custa das minhas poupanças. “Até ao fim do mês o jantar é salsichas Izidoro todos os dias, miúdo!”. Deu-me um sorriso de cortesia com os olhos de “lá está o meu pai com aquele discurso que ninguém entende”.

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Menino, amanhã vamos ver o Valerian!

Uma das conversas que tive recentemente com o meu filho revelou-se um pesadelo paternal. Na sequência de um conjunto cirúrgico de elaboradas perguntas cheguei à catastrófica conclusão que o miúdo não tem interesse por ficção científica. “Como é que isto é possível?”, pensei. Quer dizer, parece-me humanamente impossível alguém não gostar de ficção científica, esse género nobre das artes narrativas. Star Wars? Nada. Star Trek? Quê? Desenhos animados nos canais de putos com temas de ficção científica? Nenhuma. Temática sci-fi no Netflix? Nem lhe toca. Nessa noite adormeci em posição fetal banhado em lágrimas. O pontapé furioso com o dedo mindinho descalço num canto bicudo na cómoda não ajudou a aliviar a dor. “Então é isto que tanto falam, na desilusão de um pai que criou um filho para nada.”. Chorei no ombro da minha esposa.  “Tenho quase a certeza que não é nada disso.” Respondeu-me ela. “Eu também não gosto de ficção científica.” Incrédulo, gritei num tom agudo e pueril. Senti uma das chávenas da coleção Space 1999 a rachar com a frequência. “O… quê???? E os filmes que vimos?”, perguntei furioso. “Menti. Fingi. Pronto, está dito!

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E aquele Rei Artur novo do Guy Ritchie*? (2017)

As crianças consomem muito Youtube. O pior são as publicidades antes dos vídeos, o equivalente às publicidades dos intervalos do nosso tempo. Porque as crianças da segunda metade dos anos 10 do terceiro milénio não consomem TV. E são estas publicidades que os mantêm informados e a salivar por novos produtos e serviços. Tal como nós, há 3 décadas no intervalo do Tom Sawyer, quando a vontade de ter uma Bota Botilde nos incinerava o âmago de desejo. E quis um algoritmo manhoso baseado em alvos demográficos e hábitos de consumo que o meu filho visse em loop o trailer do Rei Artur do Guy Ritchie. A sequência de eventos que se seguiu foi tão rápida que só me lembro de depois de estar sentado a um domingo à tarde num cinema com uma audiência considerável, composta por grupos de dois, um pai e um filho. Certamente efeitos das sugestões hipnóticas que as redes sociais nos lançam nos entrefolhos de toda a desinformação, fotos em semi-pelota de semi-sugestão semi-sexual e vídeos de gatinhos. Nem sei se tive tempo de vestir um par de calças.

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Trainspotting 2 e a Anomalia de Xunguing

Hoje entrei pelo facebook adentro com um volumoso cajado e espanquei Trainspotting 2 pelas costas. Caiu e continuei a bater, até a forma que antes se lhe reconhecia se ter transformado numa amalgama irreconhecível, numa polpa de indigna daquilo que pouco tempo antes teria sido reconhecido como um filme. “Olha um filme”, diriam vocês se passassem por ele na rua a fazer jogging, a passear o cão, a saltar por uma janela das traseiras depois de terem arrebentado à canzanada uma das melhores amigas do vossa esposa. Depois do evento, um filme já não era. Porque é que um filme analisado sobriamente e avaliado com 60% de mau e 40% de bom pode ser amado e um filme avaliado com 50/50 ou mesmo 55/45 pode ser detestado ou, alternativamente, “não gostado”. Sem nunca ser ignorado ou desvalorizado. Isto deve-se àquilo que resolvi chamar de “Anomalia de Xunguing”.

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