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Tag: 2017

Ah, é verdade! Valerian (2017)

Ah, é verdade! Valerian… Bom, para fazer o teste da ficção científica ao miúdo lá fomos ver o Valerian. Começou mal quando me foi dito que os descontos, cartões, talões, promos, cunhas, piscadelas de olho ou subornos em pastelaria não funcionam nesta sessão. Mostrei o cartão de colombófilo, a funcionária voltou a acenar negativamente com ar zangado. Preço de antestreia, oito euros e meio. Sem óculos. Com direito a pipocas, o balde mais pequeno. De meio metro cúbico. Já não pagava tanto por um bilhete desde… sei lá, provavelmente nunca paguei tanto por um bilhete. Aposto que há países orientais em que se podia fazer uma orgia de médio porte com este valor. O que hei-de fazer? O prometido é devido. Meti o meu saco de rúpias com o símbolo de cifrão em cima da mesa e pedi os bilhetes. Sala composta, este trimestre a NOS apresenta resultados positivos à custa das minhas poupanças. “Até ao fim do mês o jantar é salsichas Izidoro todos os dias, miúdo!”. Deu-me um sorriso de cortesia com os olhos de “lá está o meu pai com aquele discurso que ninguém entende”.

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Menino, amanhã vamos ver o Valerian!

Uma das conversas que tive recentemente com o meu filho revelou-se um pesadelo paternal. Na sequência de um conjunto cirúrgico de elaboradas perguntas cheguei à catastrófica conclusão que o miúdo não tem interesse por ficção científica. “Como é que isto é possível?”, pensei. Quer dizer, parece-me humanamente impossível alguém não gostar de ficção científica, esse género nobre das artes narrativas. Star Wars? Nada. Star Trek? Quê? Desenhos animados nos canais de putos com temas de ficção científica? Nenhuma. Temática sci-fi no Netflix? Nem lhe toca. Nessa noite adormeci em posição fetal banhado em lágrimas. O pontapé furioso com o dedo mindinho descalço num canto bicudo na cómoda não ajudou a aliviar a dor. “Então é isto que tanto falam, na desilusão de um pai que criou um filho para nada.”. Chorei no ombro da minha esposa.  “Tenho quase a certeza que não é nada disso.” Respondeu-me ela. “Eu também não gosto de ficção científica.” Incrédulo, gritei num tom agudo e pueril. Senti uma das chávenas da coleção Space 1999 a rachar com a frequência. “O… quê???? E os filmes que vimos?”, perguntei furioso. “Menti. Fingi. Pronto, está dito!

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E aquele Rei Artur novo do Guy Ritchie*? (2017)

As crianças consomem muito Youtube. O pior são as publicidades antes dos vídeos, o equivalente às publicidades dos intervalos do nosso tempo. Porque as crianças da segunda metade dos anos 10 do terceiro milénio não consomem TV. E são estas publicidades que os mantêm informados e a salivar por novos produtos e serviços. Tal como nós, há 3 décadas no intervalo do Tom Sawyer, quando a vontade de ter uma Bota Botilde nos incinerava o âmago de desejo. E quis um algoritmo manhoso baseado em alvos demográficos e hábitos de consumo que o meu filho visse em loop o trailer do Rei Artur do Guy Ritchie. A sequência de eventos que se seguiu foi tão rápida que só me lembro de depois de estar sentado a um domingo à tarde num cinema com uma audiência considerável, composta por grupos de dois, um pai e um filho. Certamente efeitos das sugestões hipnóticas que as redes sociais nos lançam nos entrefolhos de toda a desinformação, fotos em semi-pelota de semi-sugestão semi-sexual e vídeos de gatinhos. Nem sei se tive tempo de vestir um par de calças.

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Trainspotting 2 e a Anomalia de Xunguing

Hoje entrei pelo facebook adentro com um volumoso cajado e espanquei Trainspotting 2 pelas costas. Caiu e continuei a bater, até a forma que antes se lhe reconhecia se ter transformado numa amalgama irreconhecível, numa polpa de indigna daquilo que pouco tempo antes teria sido reconhecido como um filme. “Olha um filme”, diriam vocês se passassem por ele na rua a fazer jogging, a passear o cão, a saltar por uma janela das traseiras depois de terem arrebentado à canzanada uma das melhores amigas do vossa esposa. Depois do evento, um filme já não era. Porque é que um filme analisado sobriamente e avaliado com 60% de mau e 40% de bom pode ser amado e um filme avaliado com 50/50 ou mesmo 55/45 pode ser detestado ou, alternativamente, “não gostado”. Sem nunca ser ignorado ou desvalorizado. Isto deve-se àquilo que resolvi chamar de “Anomalia de Xunguing”.

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