Safety Not Guaranteed (2012)
Em Outubro de 1997 um jornalista do Backwoods Home Magazine foi incumbido pelo seu chefe de encher os classificados com anúncios inventados para ocupar o espaço que estava em branco. O homem, John Silveira, inventou dois anúncios, que seriam suficientes para o efeito. Um dos anúncios era de natureza sentimental, “homem sério procura mulher para relação duradoura, [dados genéricos]…” e a outra dizia o que está na foto que ilustra este formidável artigo: “Procura-se: Alguém para viajar para o passado comigo, isto não é uma brincadeira. (…) Tem que trazer as suas próprias armas, não se garante segurança, só fiz isto uma vez.” No dia seguinte recebeu quatro cartaz de resposta ao anúncio sentimental, uma delas de um homem. Ao anúncio da viagem do tempo recebeu centenas. E a partir daí continuou a receber diariamente cartas até aos dias de hoje. Milhares e milhares de respostas de pessoas para viajar no tempo, a maior parte delas com propostas sérias de quem tem esperança de emendar as suas agruras com um passeio ao passado. História verdadeira que pode ser facilmente confirmada online, até pelo próprio autor do anúncio aqui.
January 7, 2013 1 Comment
Holy Motors (2012)
Uma das melhores sensações que um cinéfilo pode ter é ver um filme que desconhece por completo e ser surpreendido com uma das mais belas obras alguma vez projectadas num grande ecrã. Aconteceu-me isto com Holy Motors, sugerido por um internet friend aparentemente francês (mas que pode muito bem ser iemenita ou senegalês). Inicialmente não sabia sequer tratar-se de um filme falado em francês, no entanto o assombro foi tal que me vi estupefacto durante duas horas, incapaz do mais ínfimo movimento, no delicado limbo entre o desconforto e o deslumbramento, numa obra que faz fervilhar um caldeirão emocional. Enquanto o cérebro extrapola cenários magníficos como explicação e ramifica a imaginação para terrenos coloridamente psicotrópicos, o cerebelo defende-se do perigo eminente da falta de chão lógico para caminhar. Falamos, portanto, de um filme que nos retira da chamada “zona de conforto” e que nos deixa entregue aos coiotes durante duas horas, nus e frágeis às mãos do hábil manipulador Leos Carax.
December 7, 2012 7 Comments
Excision (2012)
Facto: a puberdade é a fase mais dolorosa do crescimento. Quando as crianças começam a ter sensações estranhas, a relação com o corpo é de amor/ódio, tufos de pêlo populam áreas de de pele outrora caracterizada pela frondosa suavidade, o apocalipse dos pessegueiros (esgalhados)… É nesta fase que se forma a nossa personalidade e é uma fase que nunca corre bem. A razão de sermos adultos disfuncionais, descompensados e de humores irregulares nasce, em parte, pela falta de equilíbrio nessa fase crucial do crescimento. Mas não se preocupem porque somos todos assim, imperfeitos, incompletos. Há, no entanto, quem não se safe e se deixe engolir pelo ciclone hormonal e emocional do fast forward evolucional pre-teen. É nestes mares da extrema disfunção e desequilíbrio em todas as frentes que navega Excision, o freakshow do ano.
November 8, 2012 3 Comments
V/H/S (2012)
Fui apanhado de surpresa pela dinâmica de V/H/S. Julgava tratar-se de um filme normal, com uma estrutura narrativa principal, um ou dois arcos secundários, etc. Na realidade V/H/S tem como conceito o encapsulamento de várias curtas metragens num contexto que evoca o mítico formato VHS. O fio condutor é um grupo de jovens que invade uma casa em busca de uma fita rara que lhes irá valer uma valente massa. Quando entram descobrem um cadáver num sofá a olhar para várias TVs que estão a transmitir estática. Por deficiência na descrição da sua missão, começam a ver as cassetes que lá estão até descobrirem se alguma encaixa na descrição “fita rara de incalculável valor de mercado”. Inicialmente ainda pensei que se tratasse do original Tomás Taveira (a cores), mas aquilo com que somos brindados é um dos maiores espectáculos de gore dos últimos tempos.
September 27, 2012 1 Comment
Project X (2012)
Project X é um daqueles filmes tão espalha brasas que uma pessoa sente-se terrivelmente compelida a vê-lo só para perceber de onde raio vem tanto entusiasmo. Quando vi os cartazes no cinema em Coimbra pensei que seria um horrível pestilência que não duraria mais que uma semana em cena pois a sua projecção teria o mesmo efeito nos cinéfilos que a arca da aliança teve nos nazis no final do Raiders of the Lost Ark. E mais uma vez pude comprovar que o preconceito cinematográfico é uma força em que devemos sempre confiar, mais poderosa do que o próprio amor ou aquela aversão perfeitamente injustificada de olhar directamente para um pedinte.
September 25, 2012 3 Comments
Ivan Vasilevich menyaet professiyu (1973)

Hoje vamos dar um salto ao cinema da extinta URSS para uma pérola de extravagancia soviética, uma misto de ficção cientifica com o mais puro slapstick, um dos exemplos mais famosos de blockbuster soviete. É praticamente impossível resistir a um filme cujo título internacional é “Ivan Vasilievich: Back to the Future”, que mesmo não tendo nada a ver com o homónimo de Michael J. Fox, partilha a sensação de afligimento de quem está involuntariamente entalado numa época que não é sua. No final do filme conseguimos responder à questão meta-física que mais atormenta a humanidade do século XXI: “Porque necessitamos nós de um carregador solar para o nosso smartphone? Para o caso de viajarmos acidentalmente para o passado…“
September 13, 2012 No Comments
Iron Sky (2012)

Depois da balbúrdia deixada na Europa dos anos 40 por Adolf Hitler e o seu séquito de fanboys, pouca simpatia passaram a colher junto das populações. É certo que lhes era reconhecido bom gosto em vestuário, maquinaria e objectos de adorno pessoal, mas chacinar meio continente com o pretexto de que não se dão bem com vizinhança barulhenta raramente gera empatia junto daqueles que apreciam viver sem a eminente ameaça da execução sumária. Há, no entanto, duas notáveis excepções para estes safardanas de belas casacas, falas rudes e apreciadores de um reluzente prepúcio intacto: o Nazi zombie (clássico intemporal) e o Nazi do espaço. Eu não acredito em nazis que se esconderam no lado negro da Lua durante quase 70 anos a criar uma sociedade ariana e tecnologia bélica capaz de obliterar grande parte do hemisfério norte do planeta Terra, mas que os há, há!
July 11, 2012 5 Comments
Apollo 18 (2011)
Ainda há muita gente que não compreende como é que uma civilização que soube ultrapassar obstáculos de infinita complexidade para meter pessoas a passear na lua não é capaz de conseguir arranjar uma solução eficaz para acabar com a epidemia de cinema merdoso que vem contagiando o planeta. A eterna fonte da sonhos e desejos que vem transformando a nossa nobre sociedade num grupo de idiotas sociopatas egoístas e a ideia crescente nas adolescentes que a melhor maneira de manter a virgindade é levar no cu. O que nos leva ao nosso filme de hoje, Apollo 18.
November 14, 2011 1 Comment
The Ward (2010)
A educação nos anos 70 e 80 tinha algumas falhas que aos olhos de hoje podem ser consideradas “primitivas” ou “retrógradas”, tais como a barbaridade de não se poder usar calculadoras em exames ou a aberração de se poder chumba (meu Deus, chumbar!) caso a qualidade dos conhecimentos não ficasse devidamente provada por escrito. Mas havia uma coisa que não existe hoje, que era o incentivo ao respeito pelos mais velhos. E uma coisa que aprendemos é que não se pode julgar um ancião por ter forrado o sofá com fezes ao ter confundido a sala de estar com a casa de banho, mas que devemos sempre ver nele o homem que em tempos foi e a obra que deixou para trás.
July 13, 2011 3 Comments
The Man from Earth (2007)

Numa altura em que o marketing corporativo dos grandes estúdios de cinema faz lobby constante para passar a ideia de que a qualidade de um filme se mede pelo orçamento e box office, já poucas são as pessoas que se aventuram por obras de orçamento reduzido temendo que a equação hollywoodiana da relação/qualidade tenha alguma veracidade. Mas o certo é que não tem. A capacidade de encantar o cinéfilo com um bela narrativa nada tem a ver com o orçamento e os meios envolvidos. E uma prova desta afirmação é o fabuloso filme The Man From Earth, um filme que ficção científica que conta a mais cativante história de sempre. É passado numa sala e consiste num amigo que conta a sua história de vida aos seus amigos. Só diálogos e imaginação para criar a “greatest story ever told”.
July 9, 2011 7 Comments
Rubber (2010)
Há coisas que não fazem sentido. Usar a expressão “email de casa” para definir uma conta de correio electrónico que pode ser acedida em qualquer parte do mundo é uma dessas coisas. Roupa para cão, gravatas, distribuidores automáticos de tostas mistas, strapons, double dongs e religião. E podia continuar o resto do dia. No entanto aprendemos a conviver com elas e se para nós já é normal ver um filme como Pretty Woman em que uma puta de rua, cheia de Sida, se transforma numa princesa ao encontrar o amor sob a forma de um abastado cavalheiro que não interessa pelo seu passado, porque não acreditar que um pneu pode ganhar vida com poderes telepáticos com o intuito de ser um serial killer?
June 9, 2011 3 Comments
Source Code (2011)
Numa altura em que um filme que conta a história de um pneu que ganha vida e, ainda por cima tem o poder de telecinese, é encarado pela comunidade de cinéfilos com dois bocejos, já nada consegue surpreender aqueles que consomem cinema há mais de duas semanas. Por muitas artimanhas e conceitos originais que se injetem numa história há sempre, pelo menos, meia dúzia de precedentes que o fizeram com mais sucesso. Sendo assim, resta-nos ter fé no cinema e esperar que esta falta de originalidade possa ser substituída por uma direção competente e uma narrativa que se saiba aguentar até ao final sem levantar sobrancelhas.
May 4, 2011 11 Comments
GOZU aka Gokudô kyôfu dai-gekijô (2003)

Para quem conhece Takashi Miike, as palavras “bizarria” e “demência” são bastante familiares. A estrutura deste filme acaba por se assemelhar bastante ao filme Spirited Away (A Viagem de Chihiro), mas em vez de ser para crianças é para alucinados e cinéfilos com tomates. Há um tipo que desaparece e o seu amigo faz uma fantástica viagem em busca do seu corpo. Nessa viagem conhece uma mulher que comercializa o leite dos seus próprios seios, um homem com uma estranha doença de pele que parte o pescoço ciclicamente, um medium poderoso que só funciona quando lhe açoitam o rabo com um chicote, um tipo com cabeça de vaca, um parto fora do comum ou mesmo um senhor que quando acorda é uma senhora… E isto é apenas a parte convencional do filme.
April 22, 2011 1 Comment
Loose Screws (1985)

Os anos 80 foram uma época muito conturbada para aqueles que, como eu, viveram lá parte importante da sua adolescência. Tão conturbada que eu só me senti preparado para enfrentar os anos 80 mais ou menos a meio dos anos 90, ali naquela altura em que Kobain se suicidou e a música passou a ser merdosa em todas as frentes e géneros. Todas as tentativas até essa altura para assassinar Bon Jovi falharam, incluindo aquelas que envolviam viagens no tempo. Isto explica o estado vegetativo/zombie do conceito clássico do Rock e todas aquelas cantorias pop que se ouvem actualmente na rádio onde não se consegue identificar um único instrumento musical ou outro qualquer som que não se parece com uma variação multitonal de um enxame de abelhas dentro de um latão de zinco.
April 20, 2011 2 Comments
Hobo with a Shotgun (2011)

Antes de mais nada deixem-me fazer o disclaimer do costume no que diz respeito a filmes de Grindhouse ou outros que não sendo para levar demasiado a sério, são terrivelmente divertidos. Isto porque aparecem sempre umas Maria Amélias a dizer “como é possível gostar disto” ou “não gostei, esperava mais” como se de algum modo esperassem encontrar o sentido na vida num filme que retrata as aventuras de um sem-abrigo com uma caçadeira. Normalmente são jovens que idolatram os Oscars, fingem gostar do 8½ de Fellini para efeitos de promoção pessoal por intelectualidade, falta de sentido de humor e que devido à sua própria falta de confiança pensam que quando as pessoas se riem é deles e, mesmo os do sexo masculino, têm vagina. São os mesmos que vão ver a Hanna Montana e o Harry Potter para depois fazerem críticas onde mencionam excertos da teoria semiótica da narrativa e escreverem que os filmes são demasiado infantis para serem levados a sério. Virgens, portanto!
April 13, 2011 6 Comments
Videodrome (1983)

Não há dia que passe sem um iluminado nas ciências do comportamento vá a um noticiário da TV dizer que a Internet nos está a roubar o cérebro. Que a quantidade de entretenimento e tecnologia que nos obriga a constante multitasking nos está roubar a imaginação e capacidade de raciocínio. Se isso é verdade não sei, porque costumo estar a enviar um sms, a ler o rodapé do telejornal, a colocar “likes” nas fotos dos meus amigos, a tirar fotografias pela janela da minha vizinha em cuecas e a aprender uma língua estrangeira na PSP enquanto esses senhores falam. Normalmente saco depois o podcast para armazenar no disco e nunca mais ouvir. Videodrome avisou-me que isto ia acontecer mas eu não quis acreditar. Hoje em dia quanto mais CGI porn vejo nos blockbusters actuais, mais idolatro Videodrome. Mais do que um filme visionário acerca dos malefícios da multimédia para o nosso livre arbítrio, Videodrome é uma obra prima que marca o início do reinado da “nova carne” de Cronenberg.
January 18, 2011 5 Comments
Bruce Campbell (Hail to the king, baby!)

Sou um gajo mais direccionado para realizadores, directores de fotografia ou outros cargos menos cénicos e confesso que dou menos valor a actores. Temos actores terríveis que sob a batuta certa desempenham papéis excepcionais. Vejam o exemplo de Ben Stiller, o mais insuportável traste a caminhar a Terra. A cada filme dele o meu coração morrer um pouco. Mas sob a direcção de Wes Anderson em The Royal Tenenbaums fez um trabalho exemplar. Ou Jeremy Irons, em tempos visto como a excelência, hoje em dia anda de cuecas em produções mainstream cujo índice de pirosice parece sair fora do gráfico.
Mas enquanto o meu lado direito do cérebro perde tempo com estas hesitações idiotas a afirmar não ter actores favoritos, o outro lado tosse levemente para chamar a atenção e sussurra de modo sexy «Bruce Campbel». E de repente se faz luz. Quem mais? Quem mais poderia escolher para actor favorito e icónico senão este anti-herói nato, mestre chacinador de zombies e com uma tendência para o lado negro. Ficam três filmes do mestre. Salvo seja…
November 20, 2010 3 Comments
Sympathy for Mr. Vengeance (2002) – Oporto Chronicles

Porto, Rua de Cedofeita. 8:47 da manhã. Segunda-feira. Enquanto tento esquecer o sabor a café torrado cheio de borras que acaba de me ser servido numa esplanada surpreendentemente bem frequentada, leio no JN a notícia de uma esposa que matou o marido à machadada e martelada para depois partilhar o leito conjugal com o cadáver durante 3 dias. Ah, as loucuras da juventude! Não pude evitar alguns pensamentos relacionados com a ausencia do efeito da gravidade nos seios de uma catraia que lia um exemplar envelhecido de “Deus tem Caspa” de Júlio Henriques na mesa em frente e em como a descrição gráfica e dolorosamente lenta da prazenteira homicida me fez lembrar Sympathy for Mr Vengeance, de Chan-wook Park, essa entidade superior incapaz de produzir mau cinema.
September 14, 2010 17 Comments
V for Vendetta (2005)

Todos nós temos uma listinha de falhas cinematográficas graves, filmes que ficaram para trás. São perfeitamente normais, o tempo não é um recurso infinito de que possamos desfrutar. V for Vendetta é um filme que vejo com cinco anos de atraso por puro preconceito. Na altura em que estreou não estava ainda refeito do pastelão que foram as sequelas de Matrix e não conhecia ainda a Graphic Novel do adorável lunático Alan Moore. É sempre um prazer ver Natalie Portman toda rapadinha…
June 10, 2010 16 Comments
Satanás (2007)

Sabe bem sair da nossa esfera de cinema e petiscar aquilo que se faz nas chamadas “cinematografias alternativas” e perceber que o cinema a que estamos habituados não é, afinal, grande coisa. Nem que isso implique um filme onde se percebe que o bem e o mal estão no nosso cérebro e nas complexas interacções das suas sinapses, e que Satanás está ali ao virar da esquina em toda a gente, em todos nós, que só não aparece mais por falta de oportunidade, como o adultério.
May 26, 2010 No Comments
