O Anel de Noivado
1991, Agosto em Monte Gordo. Tinha acabado de recuperar a consciência daquilo que vim mais tarde a saber ser um black out de 21 horas. Parecia ser uma festa de Verão e milhares de respeitosas donas de casa vibravam libidinosamente ao som de uma banda em palco. Demorei algum tempo a perceber o que se passava, o som enrolado em flanger e um forte sabor a laca Fiero que parecia escorrer em bica pelo esófago não ajudavam a melhorar a percepção. Cedo percebi que os Trio Odemira tocavam Anel de Noivado e fui apanhado desprotegido no meio das suas harmonias hipnóticas e na execução perfeita de uma música que já na altura era um velho clássico. “Inundada no seu pranto. O seu vestido vai molhando, Ao chorar de amor por mim”, cantavam imperturbáveis pelos gritos histéricos, desmaios e apelos ao deboche adúltero. “Faz-me um filho”, gritava uma octogenária semi-nua estranhamente atraente que parecia acariciar-se ao meu lado. Não sei se foi do álcool, das drogas ou de uma cataplana de peixe que não me caiu nada bem, mas senti um capacete de eletricidade estática a massajar-me as têmporas, como tentáculos de ondas alfa e impulsos de telequinese, e os edifícios pareciam ondular ao ritmo dengoso dos baladeiros alentejanos. Anos mais tarde, depois de ter visto recusada uma proposta de tese de final de curso sobre os Trio Odemira e das terapias de eletrochoque se terem revelado inúteis para apagar esta memória parasita, aprendi a viver com ela e hoje vou partilhar convosco o potencial cinematográfico de tão melosa balada.
April 5, 2011 4 Comments
VHS for dummies!

Há uns dias percorria os sempre hilariantes foruns de suporte da Zon quando me deparei com um fabuloso post onde um cliente se queixava que as boxs HD+DVR gastavam tanta electricidade ligadas como desligadas. A resposta pronta de um moderador oficial foi que “é necessário que assim seja para que o equipamento possa estar sempre pronto a gravar”. Um outro utilizador retorquiu,e com toda a razão, que já em 1986 os gravadores de vídeo faziam esse exacto trabalho sem precisarem de artifícios preguiçosos com o absurdo consumo das ZonBoxes. E neste argumento este prezado utilizador se viu desamparado, porque dos poucos utilizadores que sabiam sequer o que era um gravador de vídeo, não havia nem um que o sabia programar para gravação temporizada. O que me levou a este tópico que noto fazer falta na Internet: Rebobinador? Será mesmo necessário ou é mais um mito urbano?
January 13, 2011 10 Comments
100volta (200?)
É certo que Portugal tem uma cultura de decepção e frustração no que diz respeito ao cinema. A cada novo ano parecem abrir-se novas dimensões de horrendo, surgindo produtos de inimaginável mau gosto, mesmo para as mentes mais retorcidas. Desta vez temos um filme amador, com toda uma estrutura, narrativa e produção de proporções anedóticas, um festival de ridículo que se leva tão a sério que facilmente pulamos de uma situação de escárnio para sentimentos de compaixão pelas mães daquelas pessoas, que almejaram um futuro honroso para os filhos e isto foi o que decidiram fazer da vida. Rejubilai então azeiteiros de Portugal. Labregos do tuning, parolos das centralinas, fatelas dos ailerons, barrascos do rally e da pala do boné branco para trás, a resposta às vossas preces chegou. Um filme de carros, com tiros, porrada e gajas boas a serem vilipendiadas à lei da vara carnuda (leia-se “foder” em linguagem de burgesso).
July 28, 2010 10 Comments
Geração “Borra Piças” – Cidade Despida

É triste, tão triste que a cada vez que a industria televisiva (e cinematográfica) queira fazer um produto diferente para as massas recorra a clichés americanos para encher uma hora de puro lixo, criando um produto que em nada se identifica com a realidade portuguesa e que mais parece aquelas brincadeiras que os putos fazem quando compram câmaras de filmar, só que com melhores meios e menos criatividade. Aqui temos um produto que nos fala de um serial killer (rir!) e de uma detective toda MILF que anda agachada em edificios abandonados de arma em riste e faz piruetas de carro em perseguições a canalhada criminosa em fuga. E no final de tudo, depois de muitos minutos de risadas involuntárias eis que compreendemos que estamos no mesmo ponto onde estávamos há 30 anos atrás. Apesar dos meios, da tecnologia e do talento, porque há talento em Portugal, levamos com um versão reciclada, recauchutada, mais colorida da Vila Faia original, só que desta vez há menos pessoas de bigode.
June 4, 2010 4 Comments
Noite Escura (2004)

Quando eu tinha 6 anos queria ser bombeiro. Com 1o anos queria ser astronauta, mas de um império maléfico. Mas aos 16 anos a minha ambição desmedida de gerir uma casa de putas consumia-me por dentro. As coisas correram noutra direcção e acabei por ter uma profissão banal, apesar de também haver putas na minha linha de trabalho. Choro frequentemente antes de adormecer a pensar no meu sonho perdido. Mas agora que vi Noite Escura de João Canijo percebo que administrar um bordel não é tão glamoroso como pode parecer à primeira vista.
April 28, 2010 9 Comments
Odete (2005)

Apesar desta crise artística e criativa que afecta o cinema português desde 1895, é errado dizer que tudo o que cá se faz não passa de um nefasto agoiro, capaz de meter medo ao susto. Há obras ocasionais que fazem levantar o sobrolho. Vi este Odete sem esperança, sem um único pingo de expectativa, preparado para a mais abominável obra alguma vez concebida por um ser humano, capaz de provocar farto vómito a alguém que esteja há duas semanas em greve de fome. E em parte até acertei. É retorcido e disforme. Bizarro e animalesco. Doentinho. Mas no bom sentido.
March 25, 2010 No Comments
Zé Gato (1979)
Queixava-se ontem o David de que Portugal era tão miserável que nem filmezinhos de acção de “Porrada e Explosões” tem. Ele tem razão, Portugal a nível de cinema é miserável, mas no que diz respeito a acção temos o imortal e mortífero Zé Gato, o herói da TV do início dos anos 80. Tem murros e explosões tem pelo menos uma que me lembre. Foleira, é certo, mas ainda assim uma explosão. Não me lembro bem da estreia, uma vez que tinha 6 anos, mas lembro-me dos re-runs no mítico “Agora Escolha”. Música épica. Era o reinado do Fiat 127 e do Renault 5…
March 25, 2010 5 Comments
Dot.com (2007)

Cinema Português, esse imenso buraco negro da boa vontade. Sempre que nos aproximamos de um filme nacional com a esperança de finalmente haver uma obra cinematográfica capaz de orgulhar a nação, a nossa boa vontade é sugada por um vórtice de tão colossal vazio que nem a própria gravidade escapa, transformando a esperança em fúria. Raiva suficiente para incendiar uma sala de cinema, demolir a sede do ICAM ou enforcar um produtor. Mais ou menos como ser agarrado pelos tomates, despido, e ser arrastado por um campo de urtigas e silvado selvagem a caminho de um alguidar de metanol.
March 15, 2010 2 Comments
Crónica dos Bons Malandros (1983)

Portugal, 1983. Fartos bigodes, cabelos tratados com Olex e volumosas permanentes invadem a moderna cidade de Lisboa. Os anos 70 em Portugal tiveram lugar nos anos 80, até porque na década de 70 o pessoal andava ocupado com revoluções, manifestações e liberdade recém conquistada. Milhares de pessoas aglomeravam-se nas bilheteiras de cinema para terem lugar numa sessão de “Garganta Funda”. Mais ou menos como arranjar um bilhete para os U2 em 2010. Os Sigue Sigue Sputnik estavam para rebentar a qualquer altura. Portugal delirava com a sua primeira novela, Vila Faia e toda uma nova geração de actores fervilhava de actividade e exposição mediática.
March 15, 2010 8 Comments
Pulsação Zero (2002)

Fernando Fragata é um tipo obcecado pelos EUA. Tão obcecado que até foi para lá morar. No seu currículo tem já alguns filmes de algum impacto comercial em Portugal. Foi o realizador do mui badalado Sorte Nula, filme que decepcionou apesar de todo o hype que o envolveu. Foda-se, eu até lhe fiz uma entrevista sacada a ferros por causa do preconceito do nome “Cinema Xunga”. Tssc, tssc… Onde ia? Ah, obcecado… Bem, e então resolveu dar um estilo mais americanado (vertente acção) à sua cinematografia. Coisa que nem sempre resulta, mas neste Pulsação Zero é uma maravilha de se ver.
November 22, 2009 9 Comments
Singularidades de uma Rapariga Loura (2009)

Um homem que declama lamúrias teatrais com os olhos postos no vazio. Uma mulher que gesticula dramaticamente num misto de epilepsia com ímpeto de cólera, mas muito lentamente. A arte do anacronismo como choque social. No freakshow que é o cinema português eis Manoel de Oliveira, a nossa mulher barbuda.
October 22, 2009 5 Comments
Second Life em edição duplo DVD?

Achei incrível que Second Life tenha feito a sua passagens pelos cinemas sem ter havido, pelo menos, uma sala incendiada pela fúria de um grupo de cinéfilos raivosos. Muito me admiro de ter havido coragem para editar tal pedaço de matéria fecal e de haver pessoas a dar a cara por este filme (sic) sem medo que a sua carreira se esfume para sempre nos pântanos fétidos do esquecimento. Ou isso ou para sempre condenados aos reality shows, revistas cor de rosa, programas onde têm que mostrar a casa ou outras sodomias semelhantes. Mas pior que tudo é haver uma edição dupla (2 DVDs) para esta porcaria. Provavelmente o segundo DVD é a gravação de um pedido de desculpas, com a possibilidade de o ouvir também dobrado em português.
September 29, 2009 1 Comment
Second Life (2009)

Se hoje o planeta fosse atingido por um cataclismo que acabasse de vez com a nossa existência, diria apenas que veio atrasado uns dias. É que ao sofrimento atroz do Armagedão teria ainda que adicionar a agonia eterna que são as memórias de ter assistido ao filme “Second Life”. Há pessoas que conseguem reprimir memórias de um tio gorduroso que brincava ao “esconde o chouriço” e há cônjuges que aceitam a desculpa “Querido/a, no rabinho não conta como adultério”. Mas nem com psicanálise de máxima densidade nem com anti-depressivos para cavalos as memórias de Second Life se tornam inertes. Não há um dia em que não acorde molhado em suor com pesadelos do Nicolau Breyner a falar inglês ou o Malato a representar com o àvontade de um vampiro na praia de Copacabana. Aliás, já nem se viam cenas de sexo tão mau gosto desde que a Cicciolina mandou uma cagada no peito do seu parceiro em Chocolate e Banana (1986)*.
July 15, 2009 4 Comments
O Contrato (2009)

Geração “Borra Piças” - Cinema para Saloios
Nicolau Breyner decidiu realizar um filme. Provavelmente terá descrito o seu projecto na reunião com os produtores como sendo um “Filme de acção de intriga internacional”. Um ano depois, na sala de montagem e no final de todos os trabalhos descobriram que o filme durava 45 minutos. Nicolau virou-se para a malta dele, aflito, e perguntou em desespero. “É só isto? Não há mais cenas para encher isto até aos 90 minutos?“. Um assistente de realização responde “Há os bloopers, as cenas eliminadas, um vídeo do youtube com macaquitos, uma lata de atum, costoletas de ontem, um saco de pinhas e uma publicidade a um detergente anti-fungo testicular.” Nicolau ponderou 5 longos segundos e disse “Serve!”
May 4, 2009 2 Comments
Um Filme Falado (2003)

Zombies, sangue, tripas, zoofilia e sexo em grupo, fotografia magnífica e banda sonora avassaladora são coisas que este filme não tem. No entanto o uso da palavra “zoofilia” e “sexo em grupo” serve para trazer aqui ao site uns bons 30 ou 40 visitantes, isso vos garanto. Assim como outras que vou colocando tempos a tempos para atrair populaça a este banho de cultura. [Marisa Cruz Nua] Existe em Portugal uma percentagem de população que ronda os 99.999% que encara a tarefa de olhar para um espelho a ver as unhas e o cabelo a crescer com mais entusiasmo do que ver um filme de Manoel de Oliveira. A maior para dessas pessoas nunca viu nenhum, uma prova de que o instinto e 6º sentido existem e funcionam. [Carla Matadinho faz a equipa de futebol salão do Miramar Juniores]
April 25, 2009 3 Comments
100 Volta – A Mossad em Ovar

Vai estrear no próximo dia 19 um filme português de acção quase completamente amador e só agora é que descobri?
Zé Galinha, agente federal undercover, investiga Aduzer, um dos grandes chefes do crime organizado mundial. Ao aceitar uma encomenda de 32 carros,com destino ao Brasil e Israel, Zé galinha começa a perder a noção dos padrões estabelecidos pela lei. No meio da investigação, Zé Galinha rouba acidentalmente o carro do chefe da máfia russa, Dimitri Kruchev, com um programa de acesso à rede informática mundial, no seu interior. Sousa e Meireles, agentes da Polícia Judiciária, investigam os russos,e envolvem-se todos em perseguições de carros a alta velocidade, num jogo perigoso e frenético.
March 10, 2009 7 Comments







