*pling*, caía a mensagem. “Tens que ver isto. Parece uma reencenação do Fury Road”, dizia aquela mensagem telegráfica enviada em estilo de emergência, como que um aviso da proteção civil dos filmes que não podemos perder. Larguei o frango que estava a depenar e, sem lavar as mãos, tratei dos formulários e burocracias para o aluguer no Sr. Joaquim. Ainda me entretia a ver as últimas fotos da Sydney Sweeney em pelota e nem consegui acabar de fazer o quizz “melhores mamas dos anos 70”. O filme chegou rápido, como que ajudado por uma brisa divina a acelerar a sua entrega. Carreguei no play e, confortavelmente deitado no meu sofá, comecei a ver. Da cozinha ouço gritos. “Pai, já são quase 10 horas! O jantar ainda não está pronto?”. Ora foda-se, nunca mais me lembrei…
Muito nos queixamos da “fórmula”, dos filmes de algoritmo e do cinema formulaico, ainda que seja uma palavra que não existe em Portugal. Mas quando confrontados com filmes que saem desse estereotipo e se deixam navegar pela falsa aleatoriedade da verdadeira escrita criativa, ficamos perdidos numa mapa aberto de infinitas e desconhecidas possibilidades que assustam de tão imprivisiveis. É o caso deste filme espanhol, candidato ao Oscar, realizado por Oliver Laxe. Protagonizado por apenas um profissional, sendo que o resto do elenco é malta dos festivais de música, os alucinados do djambé que parecem dançar 24 horas por dia ao lado do seu cão chamado Anarca.
Conta-nos a história de um homem que chega ao norte de Marrocos, a meio da cultura rave do deserto, em busca de uma filha desaparecida. Partiu para uma destas raves e nunca mais voltou. Ao seu lado um filho de 12 anos, também muito empenhado em encontrar a mana desaparecida. Encontram o tal grupo de fritos do extasy e acompanham-nos para o interior do deserto em busca da miúda. Camiões lado a lado, lindas paisagens, belíssima direção de fotografia, perdidos no mar de areia. A história leva-nos a outras latitudes, em busca de um propósito, procurando curar a dor que trespassa o coração como uma lança venenosa.

Não avança para nenhum lugar que tenhamos previsto no início, não evoca sentimentos positivos. Chega a meio e transforma-se numa dolorosa viagem que nos transtorna mais do que, aparentemente, aos personagens. É duro e difícil e em igual medida bonito e profundo.
Senti inicialmente revolta e vontade de achincalhar uma obra que me veio aconselhada como obrigatória e prioritária. Senti traição, fúria e trauma. Passei pelas 5 fases do modelo de Kübler-Ross para o sofrimento. Negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. E no final, prestes a dar a meia estrela da fúria do Letterboxd, aceitei que o filme pudesse ser diferente e importante, que tivesse algo a dizer, mesmo quando não queremos ouvir.
A banda sonora ressoa ainda dentro dos espaços liminares do meu cérebro, com ecos e reverbações que se fazem ouvir à distância. A fotografia é celestial, principalmente nas cenas noturnas. O impacto é visceral e, infelizmente, dificil de ignorar. Gostaria de o ter visto no cinema. Talvez ainda o faça, caso seja possível.
Não acredito em Oscars, mas que os há, há…

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