Hoje temos um título bombástico com pedigree e genealogia real, um filme obscuro de 1994 chamado Scanner Cop. Realizado diretamente para vídeo, que era o streaming da altura. Embora não seja uma sequela direta da trilogia Scanners iniciada pelo David Cronenberg, aproveita o conceito daqueles tipos que têm poderes especiais por causa de uma medicação hormonal usada em testes nos anos cinquenta. O efeito secundário foi que as crianças nascidas dessas mães apareceram com o poder de serem scanners, o que na prática é uma mistura do poder dos Jedi com a capacidade de magoar as pessoas e lhes rebentar a cabeça, bem ao estilo daquela imagem de marca do primeiro filme de Cronenberg, onde a cabeça de um cavalheiro explode em pleno discurso.
Neste filme, o ato de ser scanner tem o seu quê de engraçado porque parece que os senhores estão sentados numa sanita a obrar um invulgarmente difícil cabo de martelo, com os punhos apertados, as veias salientes e as artérias do pescoço a saltar. A história começa com um pai scanner que, por falta de dinheiro para a medicação diária que reprime os poderes, entra em paranoia e acaba por morrer num confronto com a polícia. A criança fica sozinha e é adotada pelo polícia que interveio na ocorrência. Damos um salto temporal e esse miúdo cresceu para ser também ele um polícia que toma o seu comprimidinho retardador de scanning para não andar por aí a alucinar e a rebentar cabeças às pessoas nas discussões do trânsito. Tudo corre suavemente até que começam a matar polícias de forma endémica. As pessoas comuns têm ataques de pânico e matam agentes porque uma espécie de médium as convenceu de que, ao verem uma farda, devem ativar um gatilho mental que lhes mostra o seu pior medo, que neste caso parecem ser uns marretas gigantes. Amigos eu sei que pensam que estou a inventar, mas isto só visto.

O nosso jovem polícia decide então uma estratégia incrível e inovadora que passa por deixar de tomar os comprimidos durante uns dias para conseguir ser scanner e apanhar a malandragem. Obviamente que a coisa arrasta-se e o gajo começa a ficar com aqueles sintomas manhosos de “agarrem-me que eu atiro-me a eles” até descobrir a vilã.
O filme é pobre em meios e os atores são francamente maus, desde o protagonista à namorada e aos vilões, talvez por inaptidão, por gravarem tudo ao primeiro take ou porque a experiência profissional é um requisito de contratação opcional. Há um aspeto super amador na representação e os efeitos especiais são sempre a mesma coisa, com o gajo a baixar as calças mentalmente para obrar uma cena muito grossa e cheia de bicos enquanto a cabeça alarga e sai sangue pelo nariz de toda a gente.
É curioso notar que a Eleven da série Stranger Things é uma referência direta a estes scanners, mas numa vertente menos badalhoca, porque estes senhores do filme ficam todos suados como se tivessem corrido cinquenta quilómetros a comer chanfana de fato, gravata e uma samarra alentejana. Apesar de ser um repetitivo na questão de matar polícias como quem enche alheiras num anexo ilegal de Mirandela, o filme entretém e termina com uma sequência de alucinações dentro do cérebro da senhora que parece uma versão hospital psiquiátrico do Hellraiser. Aproveitei a versão 4K que saiu há pouco tempo para me deliciar, ainda que moderadamente, mesmo sabendo que os bons são muito bons e os maus são muito maus. Fiquem a saber que este é o quarto filme do universo cinematográfico dos scanners, que começou com o génio do Cronenberg e depois seguiu por caminhos mais focados na ação e no crime, sendo este Scanner Cop uma proposta mais pateta e divertida para quem gosta deste género, a patetice.
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