Os filmes de zombies deviam ter a sua própria árvore genealógica, um ramo independente de todo o resto do cinema. Podemos pegar em qualquer filme que exista e aplicar-lhe um arco narrativo de mortos-vivos e o filme ficaria inalterado. Imaginem o Titanic, a bordo aparecia uma infeção e o barco começava a ser atacado por hordas imensas, focadas na obliteração de toda a carne viva. O navio batia no iceberg na mesma e a partir daí tínhamos o mesmo exato filme, com a vantagem de ser bom e todos aqueles zombies ficarem a boiar, ao estilo de Guerra Mundial Z, até chegarem a terra em cima de um detrito e darem origem a uma sequela. Uma daquelas portas onde a protagonista original deitou o seu corpanzil narcisista, deixando o seu amado perecer à agonia de uma morte lenta por hipotermia no Atlântico norte. Estes hipotéticos zombies de uma epidemia a bordo do Titanic podiam perfeitamente chegar à costa de França ou dos Estados Unidos cheia de infetados para continuar a história.
O filme que vos trago hoje entra no subgénero da ameaça biológica e não é nada de fora do comum. A história foca-se em jovens que trabalham num armazém de tralhas onde foi armazenada uma ameaça biológica que poderia fazer colapsar a raça humana. Uma espécie de Ébola 9000 radioativo, de elevada toxicidade e ultra contagioso . O local foi convertido de prisão biológica para um espaço de lojas e centros comerciais, tapando-se a ameaça com betão que, décadas depois, acaba por verter líquido supertóxico através de um buraco maroto. Este líquido, quando entra em contacto com humanos, transforma-os em zombies esverdeados cujo único objetivo é contaminar o maior número de organismos possível através de explosões de gosma. Não apenas humanos. Ratos, baratas, mosquitos, cães, plátanos, roseiras em flor, microfauna, tudo. No filme o exemplo principal são veados zombie.

A narrativa acompanha dois jovens que trabalham no turno da noite e que têm de deter esta ameaça, tentando nunca sair do tom galhofeiro com interlúdios de sedução para fins de pinocada. Pelo meio aparece um grupo de motards armados em Mad Max 1, que veem os seus planos de diversão hooliganesca gorados, quando a planeada noite de deboche, álcool e drogas se transforma num festim para fungos do espaço. É uma comédia de terror, que é um dos meus géneros preferidos. Desta vez não teve grande efeito em mim por ser um filme de aspeto super genérico. Inicialmente pensei que fosse uma comédia romântica de adolescentes sobre um jovem no final do liceu que estava preso em casa e queria sair para namoriscar, mas acaba por ser este filme de zombies protagonizado por Liam Neeson, em modo meio Frank Drebin, meio polícia reformado que volta para um último caso, e Joe Keery do Stranger Things que acaba por ser a cara laroca do projeto.

Infelizmente, o filme não conta uma história que nos enterneça ou que nos faça identificar com as personagens, porque não constrói nada. Aquilo que vemos no início é exatamente o que vemos no fim, sem criação de laços ou evolução comportamental, servindo as personagens apenas como placeholders para enfrentar os zombies. Os efeitos especiais são decentes e a produção é interessante, com uma fotografia muito colorida típica do final dos anos noventa, sem as subtilezas da fotografia escura de curta profundidade de campo HDR das plataformas de streaming que já todos estamos fartos. É um regresso a alguma alegria na imagem, mas como a história não é original e as personagens não conquistam, acabamos apenas a avaliar o filme em termos de gore e carnificina técnica. Nessas áreas safa-se bem, mas não o suficiente para nos prender ao enredo, e a verdade é que só queremos que acabe depressa porque já estamos com sono.

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