Às vezes temos de raspar o fundo do barril. Quem cozinha sabe perfeitamente do que falo, é naquele fundo da frigideira, na comida que parece já estar muito passada e enegrecida, que reside todo o sabor do cozinhado. E no cinema de género, a lógica é rigorosamente a mesma. Specters (ou Spettri, no original), uma obra italiana de 1987 que surge já na fase terminal do cinema de exploração transalpino, quando o febril vigor da locomotiva do cinema europeu começava a ficar com anemia. Tempos houve em que a Itália dominava o mundo com produções de baixo orçamento, fosse terror, ação ou ficção científica, servindo para ir disfarçando a larica de cinema entre as grandes produções americanas. Eram mestres em meter toda a carne no assador.

A história leva-nos até Roma, mas não à Roma dos postais. Estamos nas obras de expansão do metropolitano quando, de repente, a equipa de arqueólogos embate numa zona proibida: uma tumba etrusca (ou fenícia, vai mudando) com dizeres ameaçadores cravados na pedra.

Uma mensagem clara: a maldade virá sempre,convidada ou por vontade própria. Num mundo real, qualquer pessoa sensata punha a viola no saco e seguia a sua vida. Mas esta malta, liderada pelo  Professor Lasky, insiste em abrir a tumba. E quem é o Lasky? Nada mais, nada menos que Donald Pleasence, um senhor que já trazia currículo pesado da saga Halloween e que empresta aqui aquela dignidade necessária a um filme de série B com o peso do seu pedigree.

Assim que o selo é quebrado, o filme transforma-se num slasher, misturado com mistério sobrenatural e de mitologias antigas. Um a um, das coloridas e retorcidas maneiras que só os italianos sabiam inventar. Às vezes violentas, outras vezes… digamos… mal executadas, os membros da expedição começam a desaparecer. É um filme que tenta capitalizar o sucesso de clássicos como Poltergeist ou The Evil Dead, mas transpondo esse “mal libertado” para o contexto único do subsolo romano. Através da estereotipada personagem do anfitrião cego que tudo vê

Encontrar pérolas deste calibre é fruto de andarmos a pesquisar nos sítios mais obscuros da internet. Há sempre a esperança de encontrar um filme que nunca estreou por cá ou o clássico fenómeno do “caiu do camião”. Ficou perdido durante anos e agora olhamos para ele e pensamos: “Como é que isto andou fora de circuito tanto tempo?”. A verdade é que havia tanta produção na altura que nem tínhamos tempo para ver tudo. Hoje, no fervilhante mercado de segunda mão de cassetes VHS, começo a encontrar estas edições nacionais que nem imaginava existirem.

Specters é uma das últimas tentativas da Itália em conquistar o mundo do cinema de género, ou melhor, manter a sua hegemonia que já estaria a decair à altura da estreia. Não é a primeira divisão do Fellini, Antonioni, Rossellini ou Bertolucci, mas é o coração da indústria massiva do exploitation que encheu clubes de vídeo com capas magníficas e execuções… hummm…. duvidosas. Se são como eu e gostam de arqueologia do cinema antigo e esquecido, deem um salto ao catálogo do Senhor Joaquim. Mergulhem lá e, com sorte, apanham uma pérola como esta.



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