Há coisas que explicam muito sobre o estado de decomposição da nossa civilização. Hoje , um sujeito liga a televisão e leva com reality shows de saloias mimadas a chorar por causa de unhas partidas ou labregos sensíveis que fazem depilação a laser no rego do cu. Antigamente não. Antigamente, o entretenimento servia-se frio, com sabor a pólvora e suor de quem não toma banho desde que o Muro de Berlim caiu. É esse amor imperfeito por coisas que, racionalmente, não merecem ser amadas, que nos mantém vivos. Uma espécie de masoquismo cinéfilo, como levar com elétrodos no escroto e ainda pedir um cigarro no fim. Murphy’s Law, de 1986, é o exemplo perfeito dessa patetice sublime. O argumento é, possivelmente, o pior de sempre. É um filme que faria qualquer cinéfilo de 2026 corar de vergonha e enfiar a cabeça na areia, mas que a nós, calejados pela lama dos videoclubes, nos enternece.
Aqui temos o Charles Bronson já numa fase mais flácida. Já lhe faltava alguma força na verga, mas a Cannon Films, na sua infinita sabedoria de ordenhar vacas sagradas até sair sangue, decidiu que ele ainda servia para ser o “Action Hero” de serviço. A cena inicial diz tudo: ele persegue uma miúda (a Kathleen Wilhoite, que faz de maltrapilha que lhe rouba o carro) e, quando finalmente a apanha, leva um pontapé nos tomates que o deixa a ver estrelas enquanto ela lhe chama “velhote sem força”. É o esquema perfeito dos argumentistas para nos dizerem: “Sim, este gajo já devia estar reformado a construir barcos dentro de garrafas, mas aqui está ele a levar porrada de criar bicho”.

Isto era a altura em que se tentava mungir um herói de ação de qualquer pedra da calçada. Tínhamos o Schwarzenegger, o Stallone e o Van Damme que dava os primeiros passos, mas o Bronson era a glória decadente que recusava morrer. É exatamente o que acontece hoje com os filmes do “reformado que volta ao ativo”, como o John Wick ou o Denzel Washington no Equalizer. Ninguém desconfia que aquele senhor de meia-idade possa ser uma arma assassina, mas basta alguém lhe lixar o juízo para ele sacar do ferro de trocar pneus ou um arsenal maior que o exército português.
Neste filme, o Murphy é o polícia mais duro da zona, que é traído por uma horda de malandragem e polícias corruptos. Vai parar à prisão, onde lhe ameaçam o reto com estragos estruturais por excesso de fricção pelos tipos que ele próprio lá meteu. E como é que ele reage? Com um sentido de humor seco, sem piada nenhuma e um preconceito absolutamente delicioso para com tudo o que se mexe: de lésbicas a gays, passando por vegetarianos, pessoas intolerantes à lactose, ciclistas, partidos políticos com consciência ecológica, homens que optam por usar WC em vez de mijar diretamente na parede lateral da casa, enfim, ninguém escapa ao veneno do velho de barba rija. O Bronson é um ator péssimo nestas andanças, mas o filme, como uma espécie de fénix do requeijão oitentista, tornou-se um clássico.

Ao lado do Murphyzão está a miúda do “comic relief”, que inicialmente aparece algemada a ele. É ali que se tenta buscar a comédia, provavelmente porque perceberam a meio das filmagens que o Bronson tinha a química de um bloco de cimento autoclavado.
Revi isto ontem porque o Carlão (o Carlos Reis das Nalgas do Mandarim) me disse que era um dos seus favoritos de 86. Eu já lhe tinha dado duas estrelas e meia no Letterboxd há uns tempos, mas desta vez, só por ser um filme preferido do Carlão, levou um upgrade de meia estrela. No CinemaXunga, a amizade e o mau gosto fraternal por osmose andam sempre de mão dada.
Em relação ao filme, é exemplo de obra falhada e incompreensivelmente adorável que nos faz querer amar o cinema, mesmo quando ele não nos ama de volta.

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