No Natal de 1986 fiz-me sócio de um videoclube barato, daqueles em que se pagava joia e mais de metade das prateleiras ainda era beta e dramas indianos. O catálogo era curto, mas para um miúdo que só conhecia dois canais de TV (e um deles sempre a dar ópera e teatros a preto e branco) a ideia de pôr um filme para trás, rever e voltar a rever era basicamente ficção científica doméstica. Entre os campeões de aluguer havia Os Deuses Devem Estar Loucos, Gente Gira (apanhados ultra-racista na África do Sul que hoje deve estar enterrado no tribunal de Haia) e, na secção terror, um título que piscava o olho: C.H.U.D., um acrónimo com pontinhos e cara de filme proibido. Nessa altura não havia 600 milhões de filmes de terror por semana; víamos tudo e, tal como as crianças de 3 anos, gostávamos de tudo.
Revi o C.H.U.D. há pouco tempo em Blu-ray, enquanto passava a ferro camisas mais teimosas. É realizado por Douglas Cheek, um tarefeiro que quase não deixou mais nada na história do cinema. A trama abre em Nova Iorque, com uma senhora fina de casaco de peles e cão à trela a ser puxada para dentro de um bueiro no meio da rua, e percebemos logo que há qualquer coisa nos esgotos a fazer body count.
Entramos depois numa sopa dos pobres gerida por um tipo bem-intencionado que ouve rumores de um monstro humanoide a atacar sem-abrigo nos túneis. A polícia mete-se ao barulho, desce aos esgotos e dá de caras com equipas do governo, estilo deep state low-cost, em fatos tipo astronauta comprados no Intermarché e com contadores Geiger na mão. Descobre-se que Nova Iorque tem servido de caixote do lixo radioativo do país e que alguns desgraçados mutaram em C.H.U.D.s, os tais Cannibalistic Humanoid Underground Dwellers.

Visto hoje, o filme funciona menos como terror e mais como crítica social ao modo como o Estado trata os seus cidadãos, vindo na ressaca de coisas como o MK Ultra, em que CIA e FBI usaram americanos como cobaias para experiências com LSD. Só que, em miúdos, nós queríamos era monstros, e quando eles aparecem é em modo Toxic Avenger de saldo: camisa esfarrapada, calças rasgadas, arrastar as pernas como um zombie e um rugido guturral envergonhado.
Há ainda a graça extra de aparecerem três ou quatro atores que mais tarde vemos em Sozinho em Casa, mas aqui em universo paralelo pré-Macaulay Culkin. É tudo muito fraquinho de meios, claramente um baixo orçamento que mesmo em 1985 já devia parecer pobrezinho. Ainda assim, houve direito a Chud 2, já num tom parvo de “Chud bacano” amigo dos humanos, só para espremer o nome enquanto dava.

Nestes tempos áureos e austeros da multimédia escassa, toda a gente tinha uma cópia deste filme em casa e a palavra “Chud” fazia parte do vocabulário da malta nova; hoje o filme está afundado nos pântanos do eterno esquecimento, e, se calhar, ainda bem. O valor que lhe resta é outro: serve para ativar memórias suprimidas de cheiros de salas dos anos 80, sabores das bolachas da avozinha e vozes e gargalhadas de amigos que já não vemos há 30 anos, não para nos lembrar um grande filme. É que nestas revisualizações nostálgicas, a qualidade do cinema é quase um pormenor burocrático.

Discover more from CinemaXunga
Subscribe to get the latest posts sent to your email.
Leave a Reply