Corriam os primeiros anos da década de 80 quando eu, num dia bem passado a explorar as lojas de discos, ou “discotecas” como eram chamadas, dei de caras com umas capas que me deixaram impressionado. Pertenciam a uma banda de heavy metal chamada Iron Maiden. Como qualquer miúdo fascinado, tentei logo convencer os meus pais a comprarem-me os discos. A resposta era sempre um redondo e pragmático: “Não.” E atenção, não o faziam por serem maus pais. Faziam-no porque, na verdade, cá em casa as finanças não estavam para grandes luxos e os discos eram artigos caros. Rapidamente convenci uns amigos a comprarem os álbuns e pedi-lhes emprestado, num “aluguer de longa duração”. Quem nunca? O objetivo era claro: assimilar a obra e fazer a derradeira comparação para ver se a capa era, de facto, tão boa como o conteúdo. Todos sabemos a resposta, é sim. A partir daí, passei tardes da minha infância a ouvir nova e vibrante música enigmática e a tentar desenhar sem sucesso as capas icónicas. Mal eu imaginava que esses tempos mágicos iriam durar uns bons 35 ou 40 anos. E que, num futuro que então parecia muito distante (em pleno 2026), eu continuaria com o mesmo entusiasmo. Só que agora, acompanhado pelo meu filho.
E foi precisamente ao lado do meu filho que me dirigi ao cinema, no passado fim de semana, para aproveitar a exibição limitada deste Burning Ambition. Tal como esperávamos, o filme constrói a narrativa recorrendo a excelentes imagens de arquivo entrecortada por narração da banda e convidados muito especiais. A história acompanha a banda desde o início, não propriamente desde a sua fundação em 1975, mas focando-se nos momento a partir do lançamento do primeiro álbum, em 1980, até ao presente. E fecha com chave de ouro na parte em que Nicko McBrain, o lendário baterista, se reforma devido a problemas de saúde que se tornaram incompatíveis com o ritmo de uma banda que dá três voltas ao mundo por ano em digressões.

Se formos analisar a obra de um ponto de vista estritamente cinematográfico, Burning Ambition não traz nada de novo. Para quem não é fã, o filme pode até ser acusado de ser “mais do mesmo”. Uma obra preguiçosa, que se apoia em demasia na nostalgia e nas memórias, e que acaba por ter muito pouco a dizer além de glorificar a banda. Com uma estrutura banal e narrativa formulaica e previsível. Para os não iniciados, isto pode ser um bocado enfadonho, uma autêntica seca de quase duas horas a debitar informação. E para fãs? Chega perfeitamente. Para nós, que vivemos com esta banda e os seguimos (no meu caso, desde 1983/1984), é um filme maravilhoso. Tudo o que ali é mostrado confirma-se com a nossa própria experiência de vida, a segui-los incansavelmente antes mesmo de haver redes sociais, um trabalho de dedicação, obsessão e numa obstinação quase autista. Por muito constrangedor que seja dizer isto, rola quase como um homevideo da nossa família.
Quem são os Iron Maiden na História do Rock?
Para quem caiu aqui de paraquedas e está completamente fora deste mundo (o que hoje em dia é difícil), os Iron Maiden apareceram em 1980, precisamente na transição da hegemonia do punk para o rock, integrados naquilo que ficou conhecido como a New Wave of British Heavy Metal (Nova Onda de Heavy Metal Britânico).
Desde esse primeiro álbum até ao início dos anos 90, tiveram uma ascensão tão vertiginosa que os próprios membros mal conseguiam lidar com a velocidade da fama. Com a chegada do grunge em 1991/1992, a banda (e o heavy metal em geral) sofreu uma quebra de popularidade, passando por momentos negros, incluindo a saída do seu vocalista e imagem de marca, Bruce Dickinson. Contudo, no início dos anos 2000, ressurgiram das cinzas qual Fénix para se tornarem, novamente, uma das maiores bandas do planeta. E isto sem nunca terem parado! Não são como as bandas que lançaram um single de sucesso em 1987, voltam agora em 2026 a dizer que vão festejar os 40 anos de carreira, quando na realidade só trabalharam um ano seguido. Os Maiden são indiscutivelmente a banda que mais toca e há mais tempo, especialmente agora que os Grateful Dead já não existem.
Ir ao cinema e ver uma sala lamentavelmente vazia, talvez oito pessoas, dá um certo aperto, mas devo dizer-vos que o meu coração palpitou. Fiquei com os olhos a parecer as personagens femininas dos animes. Durante duas horas, fui levado numa viagem que soube quase a uma história de família, a algo com que sempre estive muito familiarizado. A banda em si não aparece em carne e osso no presente, manifestando-se apenas através de narração e das tais imagens de arquivo. É verdade que o documentário ignora os momentos menos bons e algumas acusações ou polémicas que poderiam ser feitas à banda. Trata-se, no fundo, de uma quase “beatificação” de um grupo de Senhores (já todos a orbitar os 70 anos) que fez grandes coisas, que pecou, mas que, como um religioso reconvertido que encontra uma segunda oportunidade, voltou para se apresentar numa despedida que se antevê gloriosa.

E o Eddie? A mascote da banda, que se revelou um dos melhores toques de marketing da história de música, assume papel principal, omnipresente em todos os momentos como se fosse o frontman desta banda. E bem, porque podem-lhe agradecer todos aqueles milhões de albuns vendidos só porque o factor de decisão era “a melhor capa”. Também omnipresente em palco, é uma peça essencial do intrincado xadrez Maiden.
Se são fãs, não percam. É cinema com sabor a metal e a família. De não são fãs, deixem-se estar quietos.

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