Há uma certa pureza na forma como a malta olhava para o cinema no final dos anos 90. Hoje, qualquer drama adolescente se resolve com uma ida ao psicólogo, três posts no Instagram a chorar por “autoestima”, um post a anunciar a cura da doença psicológica seguido de um colapso mental e uma receita de ansiolíticos. Antigamente não. Se eras uma miúda esquisita na escola, a tua única salvação era vestir-te de preto da cabeça aos pés, ouvir New Metal e esperar que o apocalipse te viesse buscar antes do teste de matemática. É esta nostalgia melosa do pós-grunge que nos traz hoje aqui.

Saltamos a barreira do milénio para falar de Ginger Snaps, uma pérola canadiana lançada no ano 2000 que agarra em duas irmãs góticas e obcecadas pela morte e nos espeta com a melhor analogia de terror sobre a puberdade feminina jamais filmada. A história acompanha a Ginger e a Brigitte, duas manas adolescentes que partilham o típico pacto de sangue fraternal de quem odeia o mundo, pessoas, e convenções sociais mas precisa que alguém lhes lave a roupa, faça a comida e arrume o quarto.

O esquema do argumento é de uma inteligência macabra: a transposição dos traumas do mundo real para o formato do monstro. A Ginger é atacada por um lobisomem precisamente no mesmo dia em que lhe aparece o primeiro período menstrual, a tenebrosa menarca. A partir daí, o terror caminha lado a lado com as hormonas. O esguicho de sangue da menstruação confunde-se com as feridas do ataque, e a transformação da miúda numa besta assassina corre em paralelo com a descoberta do desejo sexual, da atração pelos rapazes e da obsessão carnal que, neste caso, passa literalmente por chacinar e comer pessoas. É a adolescência no seu estado mais puro: violenta, incompreendida e cheia de pelos onde eles não deviam estar. As duas irmãs tentam controlar a situação com a ajuda de um amigo traficante que lhes arranja substâncias para desacelerar o processo, a hipotética pílula contracetiva para o licantropismo, mas a Ginger acaba por perder completamente o controlo e a razão.

E como neste blog não se foge a um bom spoiler, a mana mais nova acaba por se oferecer como tributo, transformando-se também para que possam continuar inseparáveis no inferno. O grande trunfo de Ginger Snaps é que o realizador John Fawcett mandou os efeitos digitais dar uma curva. O filme é um monumento aos efeitos práticos, à maquilhagem prostática e ao gore à antiga. E ainda bem, porque os efeitos especiais da época, principalmente produções de médio/baixo orçamento, era todas corridas a grafismo Playstation 1. Há uma astúcia tecnológica que não envolve bonecos sintéticos borrachentos e de reflexos irreais feitos no computador, mantendo viva a escola dos anos 80.

Terror visceral, repugnante e profundamente táctil. O filme gerou duas sequelas (uma delas passada no século XVIII com os , que também se viam aflitos com estas ocorrências), mas o original continua a ser o clássico definitivo sobre o horror de crescer. Revi isto e recordei como o filme capturou bem o isolamento social das miúdas góticas que se sentiam separadas do resto dos totós da escola. Na altura, queríamos todos parecer góticos, metaleiros ou punks. Protegidos ainda da crueldade dos filtros TikTok. Deem-me lobisomens canadianos e sangue de simulação a rodos que eu fico feliz. É um clássico obrigatório para quem quer ver lobisomens de caninos afiados e o desespero da puberdade sem filtros fofinhos.


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