Uma das ferramentas mais utilizadas pelos cinéfilos, quase sempre de maneira instintiva, é o pedigree. O pedigree é a fé cega que nos faz correr para o cinema só porque gostámos de dois ou três filmes anteriores de um realizador ou porque o nosso ator fetiche está no cartaz. Vamos abençoados pelo histórico dessa entidade. E foi precisamente esse malfadado pedigree que me levou a Bad Biology, de 2008. Estava no Letterboxd a avaliar o famoso Frankenhooker quando reparei que o realizador, Frank Henenlotter, tinha esta obra mais recente.

As críticas, sabiamente, aconselhavam a não ver trailers nem ler sinopses. Ir às escuras. E assim fiz. Só vos digo, caros amigos, que o Frank Henenlotter está cada vez mais frito do cérebro. Para ele e para as pessoas que o acompanham no dia a dia, deve ser terrível. Por outro lado, para nós é ótimo. Se já tínhamos ficado impressionados com os seus dotes de cinema xunga em Frankenhooker, Basket Case ou Brain Damage, desta vez Henenlotter espeta-nos com uma história de perversão sexual absolutamente doentia.

A trama divide-se em duas frentes. Primeiro, seguimos uma rapariga com um libido gigantesco, que quer copular com todos os homens à face da terra. Atenção, ela não quer fazer amor, ela quer foder de modo violento, demorado e reprovável aos olhos da vossa entidade celestial de eleição. O seu gosto apurado pende para gajos brutos e selvagens. O problema é que, quinze minutos após o ato, ela engravida e pare uma criatura disforme e desfigurada, um mutante com ares de demónio, fruto de uma gestação instantânea. A miúda faz o que qualquer mãe exemplar faria: mete o mutante no lixo ou pega-lhe fogo, mata o parceiro sexual e segue alegremente a sua vida dinâmica e excitante de fotógrafa erótica. Do outro lado, temos o protagonista masculino. Este cavalheiro parece carregar numa condição ainda mais radical: tem um pénis toxicodependente que pensa por si próprio. O membro passa a vida a ameaçar destruir a sua vida e a envergonhá-lo se o dono não injetar droga diretamente na glande ou não tomar um opióide. O pénis reclama, mal-humorado e tendencialmente violento, sai do corpo do homem, vai ver mundo e volta quando quer.

Como já devem prever, estas duas pessoas únicas encontram-se. É o casal do ano. Contado assim, parece uma excelente ideia, cheia de excessos e narrativas exageradas. No entanto, a execução deixa muito a desejar. Henenlotter, que há duas décadas conseguia fazer com que os seus filmes parecessem… bem, filmes, aqui entrega uma realização amadora que parece o primeiro projeto de um estudante de cinema.

A fotografia é confrangedora, com zero qualidade ou composição. Apagada, plana e boçal. E os efeitos especiais, para um filme que pedia um pénis prostático digno e bebés mutantes assassinos a preceito, são uma valente bosta. O filme arrasta-se como uma curiosidade tardia de um realizador que já teve os seus dias de glória no videoclube dos anos 80 e 90, mas que aqui espetou uma bala na nuca da própria carreira.

Curiosamente, Henenlotter ainda assinou obras mais recentes, como o documentário Boiled Angels (2018) ou a curta Basket Case 3.5, mas este Bad Biology fica mesmo como um filme para completistas. Uma cápsula de decadência para quem tem curiosidade em ver como é que o cérebro do mestre do Splatter nova-iorquino se asfixiou auto-eroticamente de vez. É uma ideia bizarra e promissora com a execução de um trabalho de Geografia do 8º ano.


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