No Natal de 1986 fiz-me sócio de um videoclube barato, daqueles em que se pagava joia e mais de metade das prateleiras ainda era beta e dramas indianos. O catálogo era curto, mas para um miúdo que só conhecia dois canais de TV (e um deles sempre a dar ópera e teatros a preto e branco) a ideia de pôr um filme para trás, rever e voltar a rever era basicamente ficção científica doméstica. Entre os campeões de aluguer havia Os Deuses Devem Estar Loucos, Gente Gira (apanhados ultra-racista na África do Sul que hoje deve estar enterrado no tribunal de Haia) e, na secção terror, um título que piscava o olho: C.H.U.D., um acrónimo com pontinhos e cara de filme proibido. Nessa altura não havia 600 milhões de filmes de terror por semana; víamos tudo e, tal como as crianças de 3 anos, gostávamos de tudo.
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Lembro-me perfeitamente do medo dos russos, dos seus misseis, da sua radiação, da sua eminente invasão. A paranóia era tal que as pessoas criavam cenários pós apocalípticos tão aterradores que os levavam a esgotar os mantimentos nos supermercados e a fazer caves anti-bomba por baixo das suas casas. Os jornalistas gritavam histéricos como apresentadores do telejornal da Coreia do Norte e alguns até molhavam as calcinhas apavorados com receio da aniquilação global. E isto em pleno 2014, quando anexaram a Crimeia, imaginem agora como era no tempo da guerra fria em meados dos anos 80, aquela fase que presenciei. O certo é que a visão que tínhamos dos soviéticos era a que nos fornecia o cinema americano, distorcido até ao absurdo pela máquina propagandística da liberdade e democracia, nem que seja infligida à bofetada. Vamos hoje falar de alguns hits da altura e do seu impacto na minha impressionável mente.
Uma das maiores ameaças à nossa felicidade é quando alguém nos quer desvalorizar as ilusões. Pequenas coisas que mantemos à tona da consciência sem forçar o raciocínio sobre as razões da sua existência, pois sabemos que se podem tornar tóxicas ou desinteressantes levando à desintegração de algumas das memórias de sensações que nos fizeram felizes. Isto acontece frequentemente a nós, os chorões dos anos 80, que encontramos em cada memória de infância uma caixinha de surpresas, que pode ser uma confirmação de algo realmente significante ou o constatar que andámos quase 30 anos a idolatrar uma bela poia de merda fumegante.

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