Há coisas que explicam muito sobre o estado de decomposição da nossa civilização. Hoje , um sujeito liga a televisão e leva com reality shows de saloias mimadas a chorar por causa de unhas partidas ou labregos sensíveis que fazem depilação a laser no rego do cu. Antigamente não. Antigamente, o entretenimento servia-se frio, com sabor a pólvora e suor de quem não toma banho desde que o Muro de Berlim caiu. É esse amor imperfeito por coisas que, racionalmente, não merecem ser amadas, que nos mantém vivos. Uma espécie de masoquismo cinéfilo, como levar com elétrodos no escroto e ainda pedir um cigarro no fim. Murphy’s Law, de 1986, é o exemplo perfeito dessa patetice sublime. O argumento é, possivelmente, o pior de sempre. É um filme que faria qualquer cinéfilo de 2026 corar de vergonha e enfiar a cabeça na areia, mas que a nós, calejados pela lama dos videoclubes, nos enternece.

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