{"id":5427,"date":"2013-03-20T17:23:18","date_gmt":"2013-03-20T17:23:18","guid":{"rendered":"http:\/\/cinemaxunga.net\/blog\/?p=5427"},"modified":"2016-03-28T12:08:30","modified_gmt":"2016-03-28T11:08:30","slug":"la-jetee-e-a-subjectividade-da-segunda-visualizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cinemaxunga.net\/blog\/2013\/03\/20\/la-jetee-e-a-subjectividade-da-segunda-visualizacao\/","title":{"rendered":"La Jet\u00e9e e a subjectividade da segunda visualiza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinemaxunga.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/lejetee.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"\" style=\"background-image: none; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: inline; padding-top: 0px; border: 0px;\" title=\"lejetee\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cinemaxunga.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/lejetee_thumb.jpg?resize=676%2C389\" alt=\"lejetee\" width=\"676\" height=\"389\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Esta pretende ser uma primeira abordagem a um velho tema do universo da critica cinematogr\u00e1fica, que \u00e9 uma segunda avalia\u00e7\u00e3o a um filme e um resultado completamente diferente da primeira. Todos j\u00e1 pass\u00e1mos por situa\u00e7\u00f5es similares. Um filme que foi bom (ou mau) e que a uma segunda visualiza\u00e7\u00e3o, depois de um consider\u00e1vel per\u00edodo de tempo, afinal teve impacto completamente diferente. Os factores s\u00e3o v\u00e1rios, conhecidos e comuns. A companhia, o estado emocional ou hormonal, influencias psicotr\u00f3picas e \u00edndice de embriaguez, o peso do hype ou o amour (toujours l\u2019amour). S\u00e3o influ\u00eancias tempor\u00e1rias que nos toldam o ju\u00edzo e nos fazem, afinal, humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Hoje falo em concreto do filme de\u00a0Chris Marker de 1962, La Jet\u00e9e, uma pequena\u00a0j\u00f3ia\u00a0de valor incalcul\u00e1vel. Conhecida por muitos como sendo a fonte de inspira\u00e7\u00e3o daquele que haveria de ser o Twelve Monkeys de\u00a0Terry Gilliam, La Jet\u00e9e \u00e9 algo de muito mais abrangente. \u00c9 uma curta hist\u00f3ria futurista (de meia hora) de um prisioneiro de guerra usado para testes cient\u00edficos no \u00e2mbito das viagens no tempo. Faz incurs\u00f5es no passado e no futuro e acaba por se afei\u00e7oar a uma jovem donzela da timeline actual (dos anos 60, v\u00e1!). A est\u00e9tica do filme \u00e9 muito pr\u00f3pria, pois trata-se de um slideshow narrado. Imagens de extrema qualidade que contam uma interessante hist\u00f3ria. H\u00e1 apenas uma sequ\u00eancia de live action em que a mo\u00e7a abre os olhos franceses cheios de l\u00edbido feroz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">O que me traz aqui hoje \u00e9 a disparidade nas minhas an\u00e1lises das vezes em que o vi. A primeira vez foi na altura da estreia de Twelve Monkeys. Uma sess\u00e3o de cinema do submundo acad\u00e9mico que nem chegou a lotar a\u00a0min\u00fascula\u00a0sala onde foi projectado. Os habituais intelectuais dos \u00f3culos de massa de uma \u00e9poca pr\u00e9-blog, pr\u00e9-hipster, pr\u00e9-facebook. Havia IMDb em HTML e gifs animados. Era a malta dos diversos n\u00facleos das associa\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas, dos jornais de faculdade, das gajas que passavam por fases existenciais que achavam que depois de experimentar todos os tipos de macho, o intelectual seria o perfeito para casar. Seis shots de vodka e nove imperiais depois haveriam de estar de joelhos a fazer um fel\u00e1cio a um talego de desporto ou a um seguran\u00e7a da discoteca da moda e a chorar l\u00e1grimas de ang\u00fastia por cima da maquilhagem que se estende at\u00e9 \u00e0 base do rosto, qual Alice Cooper em final de espect\u00e1culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Esse primeiro visionamento de La Jet\u00e9e deu origem a longas conversas pseudo-cient\u00edficas de teorias de viagens no tempo e\u00a0f\u00edsica\u00a0qu\u00e2ntica simplista e pueril movida muitas vezes a\u00a0\u00e1lcool\u00a0e THC de p\u00e9ssima qualidade. Foram largas as semanas em que se multiplicaram as implica\u00e7\u00f5es das viagens no tempo, do efeito de matar o pr\u00f3prio pai antes da nossa concep\u00e7\u00e3o, as tropelias do gatinho de \u00a0Schr\u00f6dinger e no que faria Einstein se afinal a ci\u00eancia vier a dar raz\u00e3o aos motores Warp idealizados por\u00a0Gene Roddenberry. Os plot holes, os paradoxos, os what ifs, <em>cenas man cenas<\/em>&#8230;Bom, e era isto que nos fazia passar as longas noites em bares mal iluminados e provavelmente ilegais onde havia sempre uma insuport\u00e1vel criatura mal lavada que insistia em nos importunar com uma guitarra ac\u00fastica e as suas vers\u00f5es ainda mais desafinadas de Nirvana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Voltados estes anos todos, em que os nossos sonhos mais loucos se perderam nas areias do esquecimento e outros mais realistas e humanos os\u00a0substitu\u00edram\u00a0para nos tornar em seres funcionais e normalizados perante uma sociedade que n\u00e3o d\u00e1 grande toler\u00e2ncia \u00e1 diferen\u00e7a, voltei a ver Jet\u00e9e. E tive que o fazer duas vezes seguidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Eis que o filme se revelou como sendo uma vers\u00e3o diferente de si pr\u00f3prio. O peso da idade e da experi\u00eancia dos anos fez-me compreender de modo totalmente d\u00edspar daquele que foi uma trip &#8220;bu\u00e9 espectacular&#8221; em 1995 (talvez 1996). O que me deslumbrou desta vez? Todas as considera\u00e7\u00f5es acerca de viagens no tempo me passaram ao lado. Implica\u00e7\u00f5es, possibilidades, paradoxos, bifurca\u00e7\u00f5es e o loop que encerra a narrativa. O que me fascinou foi a hist\u00f3ria de um homem, o protagonista que aprendeu a viajar no tempo, que foi criando la\u00e7os e liga\u00e7\u00f5es nas suas viagens. No final, quando lhe foi dada a possibilidade de ter tudo, de ganhar a imortalidade, da seguran\u00e7a, fortuna e gl\u00f3ria, o que \u00e9 que este homem escolheu? Qual foi a sua decis\u00e3o final? Este homem escolheu voltar \u00e0 mulher que aprendeu a amar, voltou para um tempo que sabia ser fatal, curto e sem futuro. Mas este homem trocou tudo por um momento, que sabia curto, por um pouco de amor. E n\u00e3o estou a ser lamechas, porque quem n\u00e3o precisa de um pouco de aconchego no seu cora\u00e7\u00e3o? O pr\u00f3prio Nietzsche que negou por completo o sentimento e defendeu a causa emocional Terminator enlouqueceu por causa de uma mulher e passou os \u00faltimos anos da sua vida a escrever o seu nome nas paredes com fezes e sangue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Essa \u00e9 que \u00e9 essa. Deixo-vos o filme integral no Youtube com legendas em Ingl\u00eas. Cultivem-se suas bestas, porque este \u00e9 um dos melhores filmes de todo o sempre. Powerpoint style. E \u00e9 com amor que me despe\u00e7o, para cada um de voc\u00eas que est\u00e3o desse lado, estejam nus ou vestidos, brancos ou menos brancos, gostem de mulheres, homens ou animais de m\u00e9dio porte em estado de decomposi\u00e7\u00e3o. Tudo \u00e9 amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Koniek.<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/ezkAeQuUqCg\" width=\"808\" height=\"808\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p align=\"justify\">.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta pretende ser uma primeira abordagem a um velho tema do universo da critica cinematogr\u00e1fica, que \u00e9 uma segunda avalia\u00e7\u00e3o a um filme e um resultado completamente diferente da primeira. Todos j\u00e1 pass\u00e1mos por situa\u00e7\u00f5es similares. 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