Em 1997 estreava um filme cuja premissa girava inteiramente em redor de uma frase “Eu sei o que fizeste no verão passado”. A história é conhecida, mesmo para aquele cinéfilo que só vê séries de TV, Titanics e TikTok. Um grupo de atraentes adolescentes tesudos, em plena fase de descoberta sexual, num verão louco a dar o tudo antes da faculdade, mata acidentalmente uma pessoa. Encobrem tudo e vão, bêbedos e drogados, à sua vida de deboche, excesso e sodomia seletiva. No ano seguinte recebem uma nota, magistralmente bem escrita para um maneta de gancho, que diz “ah ahhh meu bois, eu sei o que fizeram no verão passado. Mataram-me seus cães, mas eu fodo-vos um a um em esquema de sexta-feira 13. Não literalmente, mas figurativamente e com um gancho. De pesca.” E assim se transforma esta premissa inventada na hora por um argumentista, que acordou 5 minutos antes de uma reunião de pitch depois de passar uma noite a snifar coca do rego de prostitutas, com o pouco dinheiro que lhe sobrou do seu único êxito comercial.

Mas, lá no fundo, todos sabíamos o que queriam dizer com “Eu sei o que fizeste no verão passado”. Era uma frase dirigida a Wes Craven e à sua equipa. E o que tinha feito ele no verão passado? Scream. E, por deus, era isso mesmo que iriam fazer este ano, requentar uma fórmula reconhecida com metade dos ingredientes e fazê-la rolar. Tapa-se o vilão com um fato que os pescadores usam em alto mar quando estão no meio de uma tempestade e uma luva em que todos os dedos são facas. Já há um assim? Então uma motoserra. Também já há? Pfff. Uma tesoura de poda? Uma pá de valar? Uma máquina industrial de fatiar fiambre? Um ferro de engomar? Ok, vai mesmo um gancho, elemento absolutamente original apenas usado pelo Capitão Gancho. Ou pelo Candyman. Ou os cenobitas do Hellraiser. Ou todos os capangas do Farouk, na saga Harvest Night.

“O nosso cu parece muito grande nestas calças?”

E assim foi, um a um, chacinados à ganchada. E em 2025 regressa, neste formato amaldiçoado chamado “legacy sequel” cuja fórmula é sempre a mesma, a repetição exata do mecanismo e narrativa do original, mas toda a gente se esqueceu do que se passou exatamente igual anteriormente, excepto alguns atores sobreviventes que retornam e explicam o que aconteceu e como se relaciona com o que está a acontecer. E como não existem, nestes universos, mecanismos de verificar dados com mais de 48 horas, é tudo novamente uma surpresa. Olha reparem nos Jurassic Parks, de repente já toda a gente se esqueceu que DINOSSAUROS ASSASSINOS GIGANTESCOS EXTINTOS HÁ 65 MILHÕES DE ANOS foram um problema chato de resolver há 30 anos. No tempo em que já havia internet. E jornais. E registos documentais. E memória coletiva.

Neste regresso a Southport, mais um grupo de adolescentes é envolvido num acidente de viação onde provavelmente alguém irá morrer. “Provavelmente” estará ali um bocado a mais, porque no verão seguinte começam a ser assombrados pelo seu pecado e, claro, assassinados um a um, em locais com muita privacidade sem testemunhas nem câmaras. E, se o filme original era já uma bela bosta amalgamada de recauchutagem, este ainda é pior porque é construído em cima da outra bosta cinematográfica de consistência semilíquida. Os atores são pouco convincentes e muito fracos, estão lá em estratégia de os fazer subir na cadeia alimentar hollywoodiana, apenas pelos méritos da sua impecável skincare, pela semelhança com outras figuras da primeira divisão da indústria e fantástica robustez do tórax.  Robustez torácica que podemos apenas supor estar lá, porque nenhuma vista está em risco de ser vazada por um mamilo ereto. Tudo seguro e aprisionado.

Em vez de assumir o remake e atualizar a trama para 30 anos depois, acabam por se sentir obrigados e inovar. E todos sabemos no que isso resulta. Decisões narrativas opostas ao original para criar emoção, mas que acabam por fazer zero sentido.

As mortes são fraquinhas, optando por não chocar as crianças que acabam por conseguir ver os filmes antes dos pais, a linguagem é artificial e a constante necessidade de criar choque e reviravoltas narrativas é meio caminho andado para nos adormecer de tédio. Consigo compreender a antecipação, mas não posso sequer perceber que alguém se sinta excitação depois de ver este filme. Mesmo que tenha visto apenas 5 filmes na vida. Caramba, de certeza que 3 ou 4 eram melhores.

Deixo-vos os primeiros 10 minutos do filme, para não estarem a entupir os tubos do Sr. Joaquim e depois acabam por ver menos que 10 minutos


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