Continuando sob a égide do requeijão de baixo orçamento, hoje trago-vos uma daquelas pérolas que só o videoclube e o passar dos anos conseguem elevar ao estatuto de divindade. Falo de Action U.S.A., um filme de 1989 que é o exemplo perfeito de como a falta de dinheiro, quando misturada com uma total ausência de noção e um talento absurdo para a adrenalina, resulta em ouro puro.
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Para não sermos chamados de velhos do restelo, temos de vez em quando de espreitar o que se faz no cinema moderno, mas a verdade é que a nossa missão principal é abençoada pela luz de Lucio Fulci e pelo terror dos anos 80 como ponto de partida. Por isso mesmo, hoje trago-vos The Nest (1988), uma autêntica cereja no topo do bolo da Concorde Pictures, a mítica empresa do rei dos filmes de série B, Roger Corman.
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Por vezes temos que usar este mecanismo do podcast que ninguém ouve, blogs que ninguém lê, como uma espécie de psicólogo barato, em que fazemos sessões de 15 minutos para exteriorizar velhos e recalcados traumas. O que vos vou contar hoje aconteceu quando eu tinha uns 10, 11 ou 12 anos. Tudo começou numas férias em família na Figueira da Foz. O nosso parque de campismo era junto a um café que tinha uma peça de tecnologia inovadora: um leitor de VHS ligado a uma televisão pequenita. Foi lá que fui apresentado ao First Blood – Part II. Foi uma espécie de overdose de Sylvester Stallone; só havia três ou quatro cassetes a rodar e eu fiquei fascinado com o herói não cantado dos Estados Unidos a resgatar amigos no Vietname.
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Já que estamos neste modo de nostalgia eterna dos clubes de vídeo deixo aqui o meu primeiro cartão. Nem era em nome próprio, era o “Filho do Sócio”, com a desvantagem do registo de alugueres ser visível pelo sócio.
Continue readingEsta semana foi a queima das fitas de Coimbra. Tenho vindo a acompanhar novamente este evento académico, porque os meus filhos e sobrinhos estão já a começar o seu percurso no Ensino Superior. Um gajo vai-se inteirando das novas modas. Por exemplo, já não há garrafas de vidro, o cortejo é super organizado, os concertos das noites do parque são uma merda e as miúdas agora mijam de pé com as amigas à volta a tapar com as capas. Antigamente mijavam de cócoras, mas as bêbedas das amigas estavam sempre a levantar as capas e qualquer pessoa que passasse na rua tinha acesso a uma versão local d’A Origem do Mundo de Gustave Courbet, em 3D com cheirinho. E uns salpicos se se aproximasse demais.
Continue readingCarlos El Gato é preso e condenado à morte por cadeira elétrica. Coitado, certamente será engano ou uma injustiça do complicado sistema judicial mexicano, tantas vezes manipulado pelas garras dos barões da droga. Ah, não é nada. É um serial killer que também viola. Parafraseando o acordão da sua condenação, “viola à fartazana”. E no dia em que está para ser executado aparece-lhe Satanás com uma proposta. Longe do cornudo vermelho da literatura ocidental dos últimos séculos, este diabo é uma versão badalhoca das madames de bordel dos anos 60 e 70, aquelas senhoras que aviavam chouriça à taxa de largas dezenas por noite e agora só fazem trabalho administrativo pois o corpo revela bem as marcas do tempo e do excesso de cutucação uterina. Este diabo propõe soltar novamente El Gato para a sociedade na condição de que lhe mate e viole 7 mulheres. El Gato exclama “Ok” e passados 20 segundos já se está a preparar para passar a ferro uma cabeleireira especializada em caracóis e madeixas. E assim se repete o ritual de sexo e morte até à sétima pobre senhora.
Continue readingAndava aí um filme de terror, que apareceu a voar baixinho por debaixo dos radares, a fazer furor nas salas. Sou daquelas pessoas que dá logo dinheiro a um gajo de aspecto drogado para apanhar o autocarro porque perdeu a carteira ou compra toneladas de produtos em esquemas de pirâmide, mas nisto dos filmes fico muito apreensivo. “Quem são estes agora para me convencerem que o filme é bom? Na volta é malta que acha que Inception é uma matrioska de conceitos, ideias ou situações em vez da criação de algo.” E quando finalmente decidi ir vê-lo ao cinema, depois deste processamento todo, já tinha saído de sala. Há 4 meses.
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Dr. Veludo explora a fenomenal fase inicial da carreira de Peter Jackson, com principal foco em Bad Taste.
Música do Genérico: Servizio fotografico de Bruno Nicolai (1972)
Voz do Genérico: Rita Maldita
O efeito Mandela é um chavão usado muito na Internet para definir aquelas situações em que nos lembramos erradamente de coisas que nunca existiram, como se existissem num universo paralelo. Foi assim baptizado porque se associava a pessoas que se lembravam vividamente que Nelson Mandela teria morrido na prisão. A mim aconteceu em duas situações recentemente e sempre relacionadas com cinema. A primeira foi ao ler o livro Ready Player One. O nosso protagonista citou a expressão “Oh my God it’s full of stars” dizendo tratar-se de uma frase do filme 2010. Ora, que raio! Tinha quase a certeza que era do 2001. A frase que o Dr. Dave Bowman diz ao entrar no campo estrelado como novo humano no final do filme. Curiosamente aparece no livro, que também li. Aparece depois em maior proeminência no 2010, livro e filme. Ah caraças, andei a citar mal toda a minha vida.
Não é raro que alguns prodígios de áreas técnicas de Hollywood assumam o leme de projectos pessoais de modo a poderem expandir as suas capacidades, em vez de ficarem à mercê dos realizadores. Não costumam ser projectos rentáveis mas são quase sempre divertidos e memoráveis. Como Dark Crystal de Jim Henson e Frank Oz, Maximum Overdrive de Stephen King e este Pumpkinhead de Stan Winston.
Imaginem que ao telefonar para um passatempo do programa da manhã da Rádio Comercial o Palmeirim vos diz que ganharam um prémio. No meio de uma inaudível cacofonia de gritaria com reverbe e uma algazarra de efeitos sonoros, consegue-se perceber que é um prémio e que foram vocês a ganhar. Uma feliz improbabilidade que faria cair no vosso regaço um pack-putedo no Berbigão Incandescente em Mortágua. 10 das mais leitosas noviças, para poderem degustar a bel-prazer. Ondulantes e roliças carnes. Sem prazos e cheio de segundas oportunidades. Bumbuns gulosos. 10 vale-putedo que é só trocar na entrada, apontar para a meretriz desejada e levar para o quarto para esgaçar até cheirar a carne assada. E vocês, na ânsia do tresloucado deboche, decidem gastar tudo numa noite. Porque querem testar todas, porque acham que a seguinte será a melhor, porque não descansam enquanto não as virarem de cabo a rabo. Na afã de amanteigar o farnel, chegam a nem apreciar os climaxs já a pensar na próxima barregã de quatro a fingir que não está a pensar se deixou o gás ligado. Acabam a noite e vão para casa apáticos, com uma ligeira satisfação no canto daquela grande armazém que é a vossa sensação de vazio. A precisar do aconchego de um abraço.
Um dos exemplos que dou com mais frequência para ilustrar o aumento do custo de vida nos últimos 25 anos é a ida ao videoclube. Quando era jovenzito era bastante comum estar em casa à sexta, pedir ao meu pai para me levar ao videoclube para escolher um ou dois filmes. Domingo à noite lá estávamos para o devolver. O custo no orçamento familiar de uma destas operações era muito baixo, praticamente não se contabilizava o preço da gasolina. Estamos a falar de distâncias que podiam ir dos 35 aos 40 Kms, ida e volta. Hoje, se ainda existisse essa sagrada instituição que é o videoclube, o preço seria diferente. Vamos dar aqui um valor de 3.5€ por filme. Num carro normal, prevendo metade desse circuito em cidade, o valor do combustível seria aproximadamente 6 euros. Muita coisa mudou, coisas boas que nos aumenta a qualidade dos visionamentos. O que não existe já é ansiedade boa da antecipação de ir buscar os filmes. Sniff… Adiante, falemos de filmes.
Nota-se que os efeitos especiais são bons quando as fotos casuais dos making ofs são tão realistas como as cenas do filme em questão. Aqui um jovem Spielberg prepara a magia que meses mais tarde nos haveria de meter chorar como putéfias arrependidas. Nesta foto parece que ET se encontra enfadado de esperar eternamente que acabem de preparar a cena e não será alheio às constantes viagens ao carrinho da vodka.
A Empire Pictures foi uma produtora sediada em Roma que produziu alguns dos mais obscuros clássicos de videoclube. São suas produções tornadas culto como Re-Animator,Trancers, Ghoulies, Terrorvision ou From Beyond, mas também são seus os sórdidos Sorority Babes on Slimeball Bowlorama e Assault of the Killer Bimbos. A empresa esteve no activo entre 1983 e 1988 tendo atingo o seu pico em 1985 com êxitos de bilheteira e mercado de aluguer.
Deixo alguns posters dos seus filmes. Independentemente da qualidade cinematográfica, os posters são de uma luxuosa arte que já raramente se vê.
Hoje é o célebre 21 de Outubro de 2015, dia em que Marty McFly chega no seu DeLorean viajante no tempo para se maravilhar na majestosa cultura do séc. XXI. De todas as previsões de Back to the Future 2, uma delas foi mais certeira que Nostradamus. As sequelas estão completamente fora de controlo. Jaws 19 é na realidade Sharknado 3. Depois de 4 Jaws, 2-Headed Shark Attack, 3-Headed Shark Attack, Jurassic Shark, Dinoshark, trilogia Shark Attacks, Ghost Shark, Shark in Veneza, Sharktopus vs. Pteracuda, Sharktopus vs. Whalewolf, Mega Shark Versus Crocosaurus e os 3 Sharknados.
Fica esta bela galeria de arte com um bónus muito especial, a capa do jornal do dia em que o filho de Marty é preso pela impiedosa polícia do séc XXI.
Este fim de semana perguntei à minha filha de 5 anos se queria ver o Commando comigo. Ela, formatada pelas opiniões da mãe, parte do princípio que todos os filmes que o pai vê são horríveis pastas de terror, morte, cocó e xixi (mas com menos piada). Ora, tive que puxar por mim para a convencer e expliquei-lhe que o filme seguia a seguinte narrativa:
O rei Matrix e sua filha, a princesa Jenny, moram no mais belo castelo no alto da mais alta montanha. Passam o dia a passear pelas frondosas florestas de castanheiros a brincar com os animais e a comer gelados. Ocasionalmente o rei finge estar distraído e a princesa Jenny suja-lhe o nariz com gelado caseiro de mirtilhos. Um dia o bondoso rei deu folga a todos os soldados para que possam passar o feriado do reino, o Festivus, com a sua família. Nesse mesmo dia, aproveitando o rei e a princesa estarem a fazer cupcakes de morango, o invejoso feiticeiro Bené invade o castelo. O corajoso rei consegue bloquear a invasão e manda alguns ajudantes o maléfico feiticeiro para o céu dos maus. No entanto o feiticeiro consegue enganar o rei e rapta a princesa. O rei, furioso, promete apanhar o maléfico feiticeiro e dar-lhe uma valente tareia.
O “ninja” é um guerreiro medieval japonês encarregue de matar samurais. Enquanto que o samurai se orienta por um complexo e vinculativo código de ética, os ninjas eram carteiros, peixeiros, pescadores, correctores da bolsa, amoladores de tesouras, decoradores de interiores, etc que se dedicavam a matar sem escrúpulos, escondidos pelo negrume da noite. Ora, nos anos 80 Menahem Golan terá lido meia página na diagonal de um livro de História e decidiu fazer um filme de ninjas. Não o normal ninja japonês, muito desinteressante. Golan criou um ninja mágico, místico, indestrutível, demoníaco, metafísico… Esse filme, Enter the Ninja (1981) haveria de moldar a imagem do ninja na moderna cultura popular, criando um símbolo de guerreiro perfeito, invisível e imbatível. Os que vestem de preto e branco, porque os vermelhos e amarelos são o equivalente às camisolas vermelhas do Star Trek. Só lá estão para fazer “blarghhhh” depois de 3 segundos de tempo de ecrã.
O making of de uma cena icónica de Ghostbusters em que os técnicos de efeitos especiais aproveitam para acariciar as rijas carnes de Sigourney Weaver. Correu um rumor na Internet de que o gajo que lhe apertou uma mama era o marido dela. Não me parece, no entanto, que aquele meia leca penteado como um vendedor de automóveis fosse capaz de controlar esta toura endiabrada.
Antes que o remake nos venha violar novamente as memórias do belo cinema que nos fez ficar colados para sempre aos anos 80, fica este belo snapshot com o mestre dos mestres e o seu mandarim que haveria de dar nome à tradução portuguesa do título do filme, que era “Jack Burton nas Garras do Mandarim”. O título original todos sabemos qual é.
2015. Um homem dos tempos modernos, com infindáveis afazeres profissionais e domiciliários, precisa do ocasional relax. Não me refiro a desfolhar o jornal local e telefonar à Martinha Quarentona nova na cidade de peitinhos XXXXL e bumbum guloso. Refiro-me ao retiro ocasional num templo de meditação que é um cinema. Ora, numa dessas fugazes submersões no mundo alcatifado dos multiplexes encontrei um velho conhecido. O pai de um grande amigo que se reformara há meia década, um veterano da vida excitante das embaixadas e da intriga internacional. Apesar de ser uma pessoa com quem mantenho bastante contacto e até algum intercâmbio cultural, não o sabia cinéfilo. Faltava algum tempo para o filme e falámos um pouco acerca da cinefilia e das seus efeitos a médio e longo prazo. Familiarizado com mais de meio século de vagas cinematográficas, perguntei-lhe que filmes prefere ver. Os clássicos do existencialismo sueco de Ingmar Bergman? Os heróis da Nouvelle Vague que viu às escondidas no tempo de faculdade? A visão intemporal sobre a boémia decadência da civilização ocidental de Woody Allen? Os movie brats da Nova Hollywood? Fez-me uma cara feia, como quem chupa um limão, levanta as mãos e sorri com aquela cara de quem olha complacentemente para um atrasadinho. “Que horror, Pedro! Eu só vejo filmes de amor. Não preciso de mais nada nesta fase da minha vida, só romances e as conquistas do amor. Esse cenários exotéricos da ficção científica, o hiper realismo e essa violência toda são para os jovens que precisam de viver experiências para se desenvolverem. Eu estou mais perto da morte que da vida, só quero amor e finais felizes.” Arqueei as sobrancelhas e pensei “Caralho do velho tem razão e agora pareço um parolo do Toca Toca Béu Béu*…”










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