Os filmes de zombies deviam ter a sua própria árvore genealógica, um ramo independente de todo o resto do cinema. Podemos pegar em qualquer filme que exista e aplicar-lhe um arco narrativo de mortos-vivos e o filme ficaria inalterado. Imaginem o Titanic, a bordo aparecia uma infeção e o barco começava a ser atacado por hordas imensas, focadas na obliteração de toda a carne viva. O navio batia no iceberg na mesma e a partir daí tínhamos o mesmo exato filme, com a vantagem de ser bom e todos aqueles zombies ficarem a boiar, ao estilo de Guerra Mundial Z, até chegarem a terra em cima de um detrito e darem origem a uma sequela. Uma daquelas portas onde a protagonista original deitou o seu corpanzil narcisista, deixando o seu amado perecer à agonia de uma morte lenta por hipotermia no Atlântico norte. Estes hipotéticos zombies de uma epidemia a bordo do Titanic podiam perfeitamente chegar à costa de França ou dos Estados Unidos cheia de infetados para continuar a história.
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Hoje temos um título bombástico com pedigree e genealogia real, um filme obscuro de 1994 chamado Scanner Cop. Realizado diretamente para vídeo, que era o streaming da altura. Embora não seja uma sequela direta da trilogia Scanners iniciada pelo David Cronenberg, aproveita o conceito daqueles tipos que têm poderes especiais por causa de uma medicação hormonal usada em testes nos anos cinquenta. O efeito secundário foi que as crianças nascidas dessas mães apareceram com o poder de serem scanners, o que na prática é uma mistura do poder dos Jedi com a capacidade de magoar as pessoas e lhes rebentar a cabeça, bem ao estilo daquela imagem de marca do primeiro filme de Cronenberg, onde a cabeça de um cavalheiro explode em pleno discurso.
Continue readingTêm visto o Wishmaster (1997) ultimamente? Pois eu revi há uns tempos e bateu logo aquela nostalgia misturada com um “olha o que estamos a perder”. Mal arranca a sequência de abertura, sente-se logo o quanto o cinema de terror tem vindo a mudar, e não necessariamente para melhor. Estamos atualmente entregues ao “terror elevado” (sic), que, para mim, é só um tipo de terror mais presunçoso e armado ao pingarelho. Este filme pertence à era dourada do final dos anos 90, em que começaram a aparecer alguns efeitos digitais, mas em que a malta ainda se divertia a sério com coisas horríveis, sem culpas, sem complexos e algum sadismozinho típico da primeira época da Internet.
Continue readingPara não sermos chamados de velhos do restelo, temos de vez em quando de espreitar o que se faz no cinema moderno, mas a verdade é que a nossa missão principal é abençoada pela luz de Lucio Fulci e pelo terror dos anos 80 como ponto de partida. Por isso mesmo, hoje trago-vos The Nest (1988), uma autêntica cereja no topo do bolo da Concorde Pictures, a mítica empresa do rei dos filmes de série B, Roger Corman.
Continue readingOra viva, amiguinhos. Depois de algum tempo ausente, continuo a sentir necessidade de falar para o vazio, de partilhar as minhas opiniões irrelevantes convosco e com o mundo (e com os milhares de bots de IA que andam na net a catar o que as pessoas dizem para construir modelos de machine learning e algoritmos de mau cinema). Hoje quero falar-vos do filme The Bride que, na minha cabeça, estava muito ligado a uma tentativa de aproveitamento do sucesso com aquilo que se andava a falar do Frankenstein do Del Toro. Um aproveitamento cultural quase ao estilo Asylum/Syfy.
Continue readingEm 1997 estreava um filme cuja premissa girava inteiramente em redor de uma frase “Eu sei o que fizeste no verão passado”. A história é conhecida, mesmo para aquele cinéfilo que só vê séries de TV, Titanics e TikTok. Um grupo de atraentes adolescentes tesudos, em plena fase de descoberta sexual, num verão louco a dar o tudo antes da faculdade, mata acidentalmente uma pessoa. Encobrem tudo e vão, bêbedos e drogados, à sua vida de deboche, excesso e sodomia seletiva. No ano seguinte recebem uma nota, magistralmente bem escrita para um maneta de gancho, que diz “ah ahhh meu bois, eu sei o que fizeram no verão passado. Mataram-me seus cães, mas eu fodo-vos um a um em esquema de sexta-feira 13. Não literalmente, mas figurativamente e com um gancho. De pesca.” E assim se transforma esta premissa inventada na hora por um argumentista, que acordou 5 minutos antes de uma reunião de pitch depois de passar uma noite a snifar coca do rego de prostitutas, com o pouco dinheiro que lhe sobrou do seu único êxito comercial.
Continue readingO amor é um conceito demasiado complicado para ser processado pelo cérebro humano. É uma emoção? É um comportamento? É um procedimento destinado a criar vínculos? É inato? Aprende-se? Há quem diga que não se pode explicar ou que a partir do momento em que se pode explicar, deixa de existir. É um circuito de recompensa e gerador de dopamina para criar no ser humano a vontade de não se querer matar mal entre neste mundo? Talvez. Mas como diria o poeta “What is love, baby dont hurt me, dont hurt me, no more…”. E é este último conceito poético do impactante mestre do eurodance, o criador de hinos Haddaway, que vamos usar para falar de amor. O amor mais sofrido, mais duro e também mais solidificador de vínculos. Uma força de gravidade imensa que só percebemos existir quando tentamos sair da órbita do objeto amado e não conseguimos. Não há força de escape que nos liberte da atração gravitacional, neste caso o chamado “Poder do Amor”, do objeto da nossa paixão. Mesmo quando pensamos não estar sob a jurisdição da lei da gravitação amorosa universal. Quando percebemos que o ar é apenas respirável na órbita do nosso centro de afetos. Que pode ser um parceiro, podem ser filhos, animais, por vezes dinheiro e objetos ou no caso de Lobo Antunes, uma pedra que um dia irá, eventualmente, amar.
Continue readingO cinema de terror tem-se vindo a tornar cada vez menos literal. Nos anos 70 e 80, os monstros eram mesmo monstros, normalmente gerados a partir de fobias coletivas populares. Radiação ou detritos tóxicos que mutavam animais e pessoas, fruto da iminente guerra nuclear que estava sempre ao virar da esquina. Fantasmas e entidades do sobrenatural, oriundos de crenças ainda reais, da bicharada mágica do além. Zombies e sobreviventes de um mundo ríspido, pós-nuclear e pós-apocalíptico. Ou os extraterrestres que, finalmente, vinham cobrar as suas dívidas a este planeta emprestado. Ultimamente, principalmente com o advento da omnipresente A24, começou a materializar-se o processamento do luto e das fobias. As doenças mentais tornaram-se os novos monstros e, como se costuma dizer em tom de máxima galhofa: “os monstros somos nozes”.
Continue readingHá uns tempos, num episódio do podcast Nalgas do Mandarim, falava com os meus amigalhaços co-apresentadores acerca do fenómeno da última década e meia das adaptações de videojogos para cinema. E, como de costume, elencavam-se argumentos rezingões de velhos furiosos com o avanço dos tempos acerca do tema “No meu tempo é que era bom”. Neste caso de nos anos 80, 90 e inícios dos 2000s, os videos jogos mimicavam os filmes que víamos, o cinema era a força motriz por detrás da jovem, imberbe e imatura indústria dos videojogos. Para quem tem andado distraído nos últimos 20 anos, as coisas mudaram drasticamente. A indústria dos videojogos, principalmente da gama AAA, é lider no entretenimento e o cinema e TV agora adoptam os jogos em blockbusters e séries premium nas plataformas.
Continue readingMockbusters ou clones zero orçamento de empresas como a Asylum é fugir a sete pés. A maior parte das vezes são exploitation a roçar os “direct to trash” clonando os conceitos de obras famosas. Transmorphers, Atlantic Rim, Snakes on a Train, Titanic 2… Um rol de compostagem pronta para ser atirada para os pântanos do eterno esquecimento. Ora acontece que às vezes são só filmes de terror série Z elaborados a partir de conceitos pouco abordados pelo cinema generalista. Desta vez, enrolado num tufão de lançamentos, iludido por capas lustrosas e moçoilas robustas vestidas para o excesso de calor, tropecei num filme de 80 minutos que parecia perfeito para uma quarta-feira às 23h. É certo que já teria que me deitar depois da meia-noite, desaconselhado a um idoso, mas a vida é curta para perder muito tempo com ponderações inúteis.
Continue readingCarlos El Gato é preso e condenado à morte por cadeira elétrica. Coitado, certamente será engano ou uma injustiça do complicado sistema judicial mexicano, tantas vezes manipulado pelas garras dos barões da droga. Ah, não é nada. É um serial killer que também viola. Parafraseando o acordão da sua condenação, “viola à fartazana”. E no dia em que está para ser executado aparece-lhe Satanás com uma proposta. Longe do cornudo vermelho da literatura ocidental dos últimos séculos, este diabo é uma versão badalhoca das madames de bordel dos anos 60 e 70, aquelas senhoras que aviavam chouriça à taxa de largas dezenas por noite e agora só fazem trabalho administrativo pois o corpo revela bem as marcas do tempo e do excesso de cutucação uterina. Este diabo propõe soltar novamente El Gato para a sociedade na condição de que lhe mate e viole 7 mulheres. El Gato exclama “Ok” e passados 20 segundos já se está a preparar para passar a ferro uma cabeleireira especializada em caracóis e madeixas. E assim se repete o ritual de sexo e morte até à sétima pobre senhora.
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Uma família de subúrbio muito feliz. Casa bonita e espaçosa, decorada de modo sóbrio e realista, uma existência idílica quebrada pela morte da mãezinha. “Oh, não! E agora?” Diz o pai aflito que estava tão bem na vidinha dele, afogado em trabalho, confiante nas largas costas da esposa que alombava sozinha todos os afazeres da casa. “Caraças, então, mas agora tenho que tomar conta da… aquela… como se chama? A minha filha e a irmã?” E é neste ponto que começa o filme, afundado na dor da perda e no luto. Luto, esse, que será pela pintelhésima vez personificado numa criatura escondida nas trevas que se alimenta da tristeza de quem não deslarga o osso da inquietação.
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A grande novidade do Nalgas Film Festival 2022 foi a inclusão de um grande convidado. Depois de meses de negociação, trocas avultadas de géneros, gado caprino e dinheiro vivo enrolado em elásticos, logística complexa para evitar que a sua multinacional encerrasse ao sábado, o Sr. Joaquim anuiu em comparecer como convidado de honra. À porta, alto e espadaúdo, pimpão, calças vestidas, fazia a recepção cerimonial dizendo aos convidados “bem vindos a casa”. Esta imagem de tamanho real foi criado pela Carla Rodrigues, a mãe do Sr. Joaquim, com as suas maravilhosas mãos de ouro que enaltecem o património das Nalgas. Também ela, a Carlucha, esteve presente no evento com estatuto de Nalga Dourada. Acabou por levar o Sr. Joaquim para casa ao final da noite, deixando o seu namorado, o Pedro, a dormir no sofá. Ninguém pode julgar porque todos nós faríamos o mesmo perante o apelo animal e a atração selvagem que emana hormonalmente pelos poros do Sr. Joaquim.
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Há dois artifícios narrativos de que não sou grande fã, o found footage e os esquemas manhosos que agora se vêem em todos os filmes de terror para retirar o telemóvel do filme. Da primeira apenas não gosto do formato, que após alguns filmes se torna repetitivo e os 90 minutos de duração parecem 180. Mesmo com todo o contorcionismo e mortais empranchados que se injetam nesse molde, é uma agonia para chegar ao fim, parece que as almofadas do sofá se vão transformando lentamente em xisto pontiagudo. Em relação ao artefato de remover o telefone da narrativa, é uma incapacidade dos argumentistas de se adaptarem aos tempos. Claro que é muito mais difícil resolver os aborrecimentos de ser perseguido por uma família de mortos vivos abusadores sexuais canibais mutantes quando não temos telemóvel. Mas ainda mais difícil seria se não tivéssemos energia elétrica, automóveis, antibióticos, capacidade de locomoção bípede ou utilização do córtex cerebral primário. Ou que ainda não tivéssemos saído da água e fossemos amibas perseguidas por Mosasauros. Falei sobre isso aqui (Artigo: Telemóvel, o terror dos filmes de terror.).
Continue readingTinha roupa para passar a ferro e acabado de obter acesso a uma conta da Filmin. Embirrei que tinha que a aproveitar. O Sr. Joaquim que tudo fornece nunca me deixa mal, mas ali senti o apelo burguês de consumir um conteúdo pago. Aquele permanente sensação de que é pago e é caro e, logo, melhor. Como os pacóvios que pagam dois ordenados mínimos por um telefone e depois nem sequer lhe instalam apps nem usam demasiado porque têm medo de estragar. E eu, de ferro de engomar na mão, carreguei no play deste Neil Marshall que me piscava o olho sedutor e caprichoso como uma ninfa de Homero, sedento de me ver rebentar os costados nas escarpas rochosas da ilha da morte de onde empinava o rabo.
Continue reading23h58m. Estava na hora. Como sempre nos últimos 30 dias baixei as calças, sentei-me no deprimente banquinho dentro da banheira, peguei no saco de sal, tirei um punhado e esfreguei os testículos durante 5 minutos à meia noite em ponto. “Meto-me em cada uma”, pensei. Sou transportado para o fatídico sábado há um mês atrás. Na sala de espera húmida, nervoso, com uma amiga. Garantia-me que só pagava se resultasse. Era infalível, todos o fazem. Fui chamado e entrei no escuro gabinete iluminado por uma cansada lâmpada de tungsténio que projectava fotões e anos 80. Contei a história à velha senhora, o que queria da vida. E o que queria era específico. Uma mulher que gostasse de ver filmes de terror comigo, que não me julgasse por ver maus filmes. E que mantivesse a opinião, não queria apanhar uma galdéria falsa que passados 3 meses me atiraria à cara que só vejo filmes de merda. A velha senhora sorriu, pegou nuns pós azulados e soprou-os na minha cara. Disse que era um caso muito simples, quase nem precisava de ajuda. Para acelerar as coisas pediu-me para esfregar os tomates com sal todos os dias à meia noite. No último dia, caso fizesse correctamente o ritual, apareceria alguém nestas condições. Eu disse à minha amiga que sou um homem de ciência, nunca me apanhariam em tal esquema ignorante feito para iludir pobres de espírito, que isto é como os maluquinhos que acreditam na terra plana ou extraterrestres e quando cheguei a casa esfreguei os tomates com sal como se não houvesse amanhã.
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Dr. Kuka Veludo fala-nos da sua ideia para um guião de terror, que envolve uma banda de black metal portuguesa nos anos 90. Sangue, medo e sacrifício humano naquele que é já um argumento na mira de todas as grandes produtores mundiais.
Música do Genérico: Servizio fotografico de Bruno Nicolai (1972)
Voz do Genérico: Rita Maldita
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Dr. Veludo explora a fenomenal fase inicial da carreira de Peter Jackson, com principal foco em Bad Taste.
Música do Genérico: Servizio fotografico de Bruno Nicolai (1972)
Voz do Genérico: Rita Maldita
Há duas coisas na vida às quais damos importância desnecessária. Temas que nos remoem o cérebro por dentro, que nos tiram o sono, que nos encharcam as noites de suor e nos fazem ponderar a existência com a pergunta obrigatória “Valerá a pena continuar?”. A primeira destas corrosivas ideias tem a ver com os filhos. Na gravidez, nos primeiros anos, na escola, no crescimento para adultos, em todas as fases nos questionamos constantemente acerca da sua saúde física, mental e social. De facto é só isso que queremos, um filho normal. Um malandrim que cometa as mesmas malandrices da média dos malandrins da sua idade. Não queremos desvios. E o certo é que os nossos filhos terão sempre uma peculiar varada na mona que nos faz sempre olhar para o âmago da nossa essência e concluir que de certeza é da parte da família da mãe. Ou seja, não vale a pena pensar se o nosso filho será normal, nunca é. E isso é bom. A segunda questão dilacerante que pode fazer implodir a própria sociedade e à qual a resposta é sempre não é “Desde que deixou de ser vocalista dos Muse, fará o Adam Scott* algum filme de jeito?”
Não é raro que alguns prodígios de áreas técnicas de Hollywood assumam o leme de projectos pessoais de modo a poderem expandir as suas capacidades, em vez de ficarem à mercê dos realizadores. Não costumam ser projectos rentáveis mas são quase sempre divertidos e memoráveis. Como Dark Crystal de Jim Henson e Frank Oz, Maximum Overdrive de Stephen King e este Pumpkinhead de Stan Winston.



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