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5 filmes tenebrosos para quem tem filhos

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Há uns meses comecei a ver Into The Void de Gaspar Noé. Não sendo muito acessível é, sem dúvida, um grande realizador. O filme estava-se a compor, boa introdução e buildup, muito bonito, muito bem realizado. Etéreo, colorido, modernaço. Planos gloriosos, cenas compostinhas, representação cinema 2.0 com o típico toque de hiper-realidade, abundância de belas mamas, coisas que enriquecem sempre a experiência cinematográfica. Ora, rapidamente este filme resvala para a mais deprimente miséria infligida a duas crianças num flashback se torna a coluna vertebral de todo o filme. Não é um mero momento de passagem, o Noé usa-o como cavalo de batalha, espanca-nos com o conceito. Quis o acaso do momento que esse casalito de irmãos que sofre as mais nefastas bofetadas do destino tivesse a mesma idade dos meus dois filhos mais velhos. “Foda-se, não aguento esta merda!”, pensei. “Que peso aterrador, difícil de respirar…”. Imediatamente carreguei no STOP, só que estas coisas não desaparecem assim. Até a minha mulher me perguntou que cara de carneiro mal morto era aquela e eu respondi prontamente “Nada, continuo viril com um talhante prussiano.” Durante dias aquelas visões atormentaram-me. Olhava para os miúdos a brincar e pensava nas pobres crianças do filme. Acabou por desaparecer com o tempo mas o certo é que há filme difíceis de ver quando temos filhos. Filhos que sabemos existir e que amamos. Não me estou a referir a bastardos que ficaram no ultramar ou daquela galdéria a quem demos 80 contos em 1986 para ela ir fazer um aborto e ela guardou o dinheiro para comprar uma televisão a cores, teve o puto e apareceu 18 anos depois a pedir dinheiro para a faculdade quando o puto afinal até era repositor de stocks no Minipreço e nunca tinha passado da terceira classe.

Aqueles que ainda não têm filhos e podem abandonar-se ao caos e deboche sem contratar serviços de babysitting perguntam-me frequentemente porque raio os filmes com putos em apuros me deixam desconfortável. A resposta é simples: identificação. É o mesmo de quando somos abandonados e cruelmente devastados por alguém que amamos e depois parece que todas as músicas tristes falam de nós. É o upgrade desses sentimentos para adultos.

Vou aqui abordar levemente 5 desses filmes terríveis de ver quando passamos a conviver com os pequenos monstros embrulhados em ligaduras que gritam e nos assustam na noite escura* a que normalmente chamamos de filhos.

Spoiler Alert

Cujo (1983)

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Um cão é mordido por um morcego e fica com raiva. Pouco a pouco um dócil cão transforma-se num monstro assassino.

Aquele que inicialmente parece ser apenas mais um filme de terror adaptado de uma obra de Stephen King no anos 80 vai-se transformando e alterando o tom quando, no último acto, uma mãe e um filho ficam aprisionados num carro vigiados de perto por um São Bernardo assassino banhado em sangue de matanças anteriores. Dias passam e a criança fica às portas da morte por desidratação. A actriz que interpreta a mãe tem uma representação sofrível até ao momento em que ficam presos no carro. A partir desse ponto consegue transpor o desespero e agonia da eminência de perder um filho.

A criança é Danny Pintauro, o miúdo que  cheirava as cuecas usadas de Alyssa Milano enquanto ela tomava banho entre 1984 e 1992 em Who’s The Boss.

The Road (2009)

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Depois do apocalipse, um pai e um filho viajam pelo que resta do planeta, tentando sobreviver num ambiente hostil e com elevado nível de canibalismo.

Na altura em que o vi era pai há pouco tempo. A minha abordagem para não me afectar muito foi que era um filme deprimente sem grande sumo. O choque pelo choque. Escrevi sobre isso, embriagado de ódio. O certo é que é um bom filme e se nos faz passar as emoções que passa é porque não pode ser mau.

O final ambíguo entre “All is Lost” e o “There’s Some Hope”. O pai morre e aquela criança é entregue a um grupo de pessoas de aspecto duvidoso. Têm crianças também. Será que as estão a criar para comer? Não acredito que estejam porque ninguém cria uma criança durante 14 ou 15 anos para depois a comer em 2 ou 3 refeições. Menos mal.

The Night Of The Hunter (1955)

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Um filme muito negro e complexo para a época, The Night Of The Hunter não foi bem sucedido à estreia. A história de um psicopata / sociopata ultra religioso que mata viúvas para proveito financeiro ao mesmo tempo que segue ordens divinas.

Ora, este autodenominado “pastor” quer meter as sacras patas numa fortuna que só as crianças sabem onde está escondida e não hesita em lhes matar a mãezinha nem lhes fazer a vida num verdadeiro inferno. E quando, num filme, filhos viram orfãos a negridão toma posse.

Um filme de 1955 mas passado na altura da depressão que nos mostra o estado da nação no que diz respeito a crianças. Orfãos abandonados como cães deambulando pelas aldeias à procura de algo que as afasta um pouco mais da morte por fome, jovens (muito jovens) a prostituir-se nas ruas das cidades em busca de algum apoio financeiro e da ilusão do amor e o total desrespeito pela condição humana são ingredientes que só não nos fazem perder a fé na humanidade devido ao seu final.

Tideland (2005)

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Uma filha de pais junkies é retirada à pressa de sua casa depois da sua mãe ter morrido com overdose. Acompanhada apenas por quatro bonecas, que são as amigas imaginárias com vertentes da sua própria personalidade, é arrastada pelo seu pai para uma casa abandonada no deserto. Pai, esse, que morre passado pouco tempo deixando a miúda à mercê do seu próprio destino e de alguns vizinhos que em nada se assemelham a qualquer conceito de normalidade que vocês possam ter, tirando aqueles que têm familiares em Trás-os-Montes ou para os lados de Sintra. Numa espiral de decadência e desespero avançamos até à conclusão que vê num acto devastador a única esperança que pode haver para a nossa heroína.

Tideland é um filme muito difícil de ver, principalmente para aqueles entre nós que sejam providos de sentimentos. Eu garanto-vos que será um filme que ficará para sempre gravado no meu cérebro, para o bem ou para o mal. A cada cena, a cada plano somos forçados a ponderar se vale a pena. Mas vale. Porque de Gilliam vale sempre a pena (exceptuando o dos irmãos Grimm).

(mais aqui)

Enter The Void (2009)

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Voltamos ao início. Já foi tudo dito e nem quero falar mais disso.

Para acabar em alta vamos deixar aqui ficar umas fotos da Paz de la Huerta. Afinal de contas hoje é quinta!

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* “pequenos monstros embrulhados em ligaduras que gritam e nos assustam na noite escura” é uma expressão do camarada Leandro Ribeiro numa conversa acerca deste assunto, tendo como referência o Eraserhead de David Lynch. Vão lá ao facebook dar-lhe um beijinho.

3 Comments

  1. Nunca vi o Cujo. Tenho que colmatar essa falha.

  2. Porra, tenho lá o enter the void para ver, assim sendo já não sei bem… ainda me lembro dos dias após ter visto o irreversível… aquela cena da violação não me saía da cabeça por nada… se calhar vou apagá-lo e vê-lo quando a minha filha tiver 40 anos…

  3. Custou-me imenso e ainda não o vi. Nem vou ver. Aquilo é tortura pura e um gajo com crianças daquelas idades tem que evitar. Talvez ver um Bud Spencer, um Canibal Holocaust ou um porno com cavalos. Tudo opções bem menos traumatizantes.

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