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Tideland (2005)

Nós, cinéfilos com experiência, já percebemos por várias ocasiões que ver um filme que gostamos nem sempre é sinónimo de entretenimento e tempo bem passado. Há filmes que se tornam inesquecíveis, que crescem dentro de nós pelo seu hiperealismo ou desconforto de determinada temática. “Idiotern” de LarsVon Trier ou “Martyrs” de Pascal Laugier são exemplos disso mesmo que falei por aqui recentemente. Mas abordar  miséria humana, terrorismo, toxicodependência, abusos infantis, pedofilia, necrofilia e crueldade num tom de esperança e optimismo, só mesmo Terry Gilliam.

O mundo visto pelos olhos de uma criança tem sempre outro aspecto. Ninguém como as crianças para fazer limonada quando a vida dá melões. Tideland pega nesta deixa e leva-a além, muito além. Em certos pontos para além do limite do suportável. Pelos olhos de Jeliza-Rose, uma criança imaginativa interpretada pela imensamente talentosa Jodelle Ferland, vamos assistindo a uma sequência de desgraças tão devastadoras que precisamos de nos recordar frequentemente que aquilo é apenas um filme.

Uma filha de pais junkies é retirada à pressa de sua casa depois da sua mãe ter morrido com overdose. Acompanhada apenas por quatro bonecas, que são as amigas imaginárias com vertentes da sua própria personalidade, é arrastada pelo seu pai para uma casa abandonada no deserto. Pai, esse, que morre passado pouco tempo deixando a miúda à mercê do seu próprio destino e de alguns vizinhos que em nada se assemelham a qualquer conceito de normalidade que vocês possam ter, tirando aqueles que têm familiares em Trás-os-Montes ou para os lados de Sintra. Numa espiral de decadência e desespero avançamos até à conclusão que vê num acto devastador a única esperança que pode haver para a nossa heroína.

Tideland é um filme muito difícil de ver, principalmente para aqueles entre nós que sejam providos de sentimentos. Eu garanto-vos que será um filme que ficará para sempre gravado no meu cérebro, para o bem ou para o mal. A cada cena, a cada plano somos forçados a ponderar se vale a pena. Mas vale. Porque de Gilliam vale sempre a pena (exceptuando o dos irmãos Grimm). A fotografia é fabulosa, o trabalho de câmara com aquelas grandes angulares e os planos pouco ortodoxos, o movimento mesmo em momentos de pausa. Tecnicamente é do melhor do mestre. Deixo-vos ficar com um video em que Gilliam se explica em relação a este filme, um acto que não é comum no mestre mas que foi necessário para conter alguns detractores mais inflamados.

pedofilia, necrofilia,

8 Comments

  1. Mestre mesmo. Em termos de cinematografia, está a par do kubrik para mim.

  2. Someone out there...

    October 6, 2010 at 7:42 pm

    Com experiência…em…?!
    E ficou gravado no teu cérebro…deve ter doído…

  3. Como é que um gajo pode ver um filme e esquecer as ideias e os pré conceitos já formados por nós? Estereótipos que serão inevitáveis. Tenho que ir ver isso, mas cheira-me que vai ser duro…

  4. Someone out there...

    October 10, 2010 at 1:31 pm

    Os estereótipos são próprios de quem tem a mente fácil e limitada. Quebrá-los é próprio de quem vê mais além. Mas falar de ideias pré-concebidas é outra coisa. Todos as temos. A diferença está naqueles que conseguem relativizá-las e vê-las, apenas, como um ponto de partida,… e aqueles que não conseguem sequer descodificar o significado para além do sentido imediato. E, depois, entra a parte da tua consciência, dos teus valores…Se és mais conservador, mais fechado em termos de ideias, ou se, pelo contrário, admites a possibilidade de existirem novas abordagens, novas realidades…sem que isso te cause qualquer desconforto. O que é polémico e chocante para uns, não o é para outros, apenas, por uma questão de convicções e de sensibilidade (não que a pessoa não seja sensível a determinadas questões, mas tem uma postura mais aberta à diferença ou ao que é ‘desviante’ para a maioria).

  5. e os que têm familiares em Coimbra também conta?

  6. Ah, ah ………………………………………….. Ah!

  7. Someone out there...

    October 14, 2010 at 2:13 pm

    Que longo suspiro…
    Ou, no meio de algumas hesitações, ‘fez-se luz’? Raciocínio demasiado complexo…compreendo…

  8. Vi-o finalmente este fim de semana na televisão. Muito bom. Dos melhores do Gilliam.
    Fiquei pasmado com a capacidade da pequena actriz carregar com o filme inteiro às costas da maneira como o fez.
    Quando acabei de o vêr, ocorreu-me que muito provavelmente um filme semelhante nunca veria a luz de um projector de cinema no clima actual, pelo menos com algumas cenas e temas incluídos. É triste assistir à erradicação de determinados tópicos controversos na arte em nome da protecção. Desde quando a ignorância e o fingir que não existe alguma vez protegeu alguém? E principalmente quando é abordado sem qualquer malícia?

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