Desde 24 de Junho de 2003

Category: Xunga e Boff! (Page 1 of 10)

The Wizard of the Kremlin (2025)

Poderemos verdadeiramente escrever sobre um filme no qual adormecemos cinquenta por cento da sua duração? A resposta é sim, desde que a causa do adormecimento tenha sido o facto de o filme produzir um efeito sonífero capaz de aniquilar um cavalo, e não porque estamos realmente com sono. E neste caso, arrisco-me a dizer que existe carga sedação equina para pelo menos duas manadas de cavalos selvagens.

Continue reading

Lee Cronin’s The Mummy (2026)

Recentemente estreou A Múmia de Lee Cronin, um filme que, logo à partida, foi obrigado a agrafar o nome do realizador no título para que a malta perceba que isto é uma obra de distinta filigrana com assinatura em cama de veludo e não apenas mais uma bosta semi-liquida fumegante saída do “Dark Universe” dos monstros da Universal. Esse universo cinemático que tem andado por aí às voltas com falhanços atrás de falhanços, a começar pela versão de A Múmia com o Tom Cruise de que, felizmente, já ninguém se lembra.

Continue reading

Faces of Death (2026)

Nos anos 80, havia uma cassete mítica que estava envolvida numa névoa de lenda, que era o Faces of Death. Era meio cassete normal, meio lenda urbana, em que os miúdos sussuravam entre si, sempre em secretismo nervoso, acerca do filme. A lenda dizia ser uma sequência de clips de pessoas, a morrer mesmo mesmo a sério. Como ninguém tinha visto ainda o conteúdo, especulavam-se as coisas mais bizarras de sempre: pessoas a serem comidas por crocodilos a infelizes a caírem do avião sem paraquedas e espalmarem-se no chão à frente do cameraman.

Continue reading

Bad Biology (2008)

Uma das ferramentas mais utilizadas pelos cinéfilos, quase sempre de maneira instintiva, é o pedigree. O pedigree é a fé cega que nos faz correr para o cinema só porque gostámos de dois ou três filmes anteriores de um realizador ou porque o nosso ator fetiche está no cartaz. Vamos abençoados pelo histórico dessa entidade. E foi precisamente esse malfadado pedigree que me levou a Bad Biology, de 2008. Estava no Letterboxd a avaliar o famoso Frankenhooker quando reparei que o realizador, Frank Henenlotter, tinha esta obra mais recente.

Continue reading

C.H.U.D. (1985) e os pântanos do esquecimento

No Natal de 1986 fiz-me sócio de um videoclube barato, daqueles em que se pagava joia e mais de metade das prateleiras ainda era beta e dramas indianos. O catálogo era curto, mas para um miúdo que só conhecia dois canais de TV (e um deles sempre a dar ópera e teatros a preto e branco) a ideia de pôr um filme para trás, rever e voltar a rever era basicamente ficção científica doméstica. Entre os campeões de aluguer havia Os Deuses Devem Estar Loucos, Gente Gira (apanhados ultra-racista na África do Sul que hoje deve estar enterrado no tribunal de Haia) e, na secção terror, um título que piscava o olho: C.H.U.D., um acrónimo com pontinhos e cara de filme proibido. Nessa altura não havia 600 milhões de filmes de terror por semana; víamos tudo e, tal como as crianças de 3 anos, gostávamos de tudo.

Continue reading

Cold Storage (2026)

Os filmes de zombies deviam ter a sua própria árvore genealógica, um ramo independente de todo o resto do cinema. Podemos pegar em qualquer filme que exista e aplicar-lhe um arco narrativo de mortos-vivos e o filme ficaria inalterado. Imaginem o Titanic, a bordo aparecia uma infeção e o barco começava a ser atacado por hordas imensas, focadas na obliteração de toda a carne viva. O navio batia no iceberg na mesma e a partir daí tínhamos o mesmo exato filme, com a vantagem de ser bom e todos aqueles zombies ficarem a boiar, ao estilo de Guerra Mundial Z, até chegarem a terra em cima de um detrito e darem origem a uma sequela. Uma daquelas portas onde a protagonista original deitou o seu corpanzil narcisista, deixando o seu amado perecer à agonia de uma morte lenta por hipotermia no Atlântico norte. Estes hipotéticos zombies de uma epidemia a bordo do Titanic podiam perfeitamente chegar à costa de França ou dos Estados Unidos cheia de infetados para continuar a história.

Continue reading

Rhinestone (1984)

Por vezes temos que usar este mecanismo do podcast que ninguém ouve, blogs que ninguém lê, como uma espécie de psicólogo barato, em que fazemos sessões de 15 minutos para exteriorizar velhos e recalcados traumas. O que vos vou contar hoje aconteceu quando eu tinha uns 10, 11 ou 12 anos. Tudo começou numas férias em família na Figueira da Foz. O nosso parque de campismo era junto a um café que tinha uma peça de tecnologia inovadora: um leitor de VHS ligado a uma televisão pequenita. Foi lá que fui apresentado ao First Blood – Part II. Foi uma espécie de overdose de Sylvester Stallone; só havia três ou quatro cassetes a rodar e eu fiquei fascinado com o herói não cantado dos Estados Unidos a resgatar amigos no Vietname.

Continue reading

The Housemaid (2025)

Pensei que talvez fosse demasiado cedo para entrar na sala de cinema porque ainda lá estava o senhor com o carrinho das calças. Um funcionário que existe só para sessões deste filme que coloca todos os pares de calças, creme hidratante de mãos Hidrapirilau e comprimidos para hipertensão arterial esquecidos numa carreta que depois vai diretamente para o incinerador. Mal me sentei, escorreguei para a frente e fiquei no chão. Com a cara colada ao banco da frente, enfiado numa gosma parecida com as vítimas dos xeromorfos armazenadas antes de consumidas. Mudei de lugar e, com ajuda de uma lanterna de ultravioletas, lá encontrei um lugar relativamente seco. Sentei-me. Começam a entrar mulheres em grupo de 8 e 10. Ouve-se barulho de escorregarem das cadeiras e ficarem presas na gosma do banco da frente, uma galhofeira pegada.

Continue reading

I Know What You Did Last Summer (2025)

Em 1997 estreava um filme cuja premissa girava inteiramente em redor de uma frase “Eu sei o que fizeste no verão passado”. A história é conhecida, mesmo para aquele cinéfilo que só vê séries de TV, Titanics e TikTok. Um grupo de atraentes adolescentes tesudos, em plena fase de descoberta sexual, num verão louco a dar o tudo antes da faculdade, mata acidentalmente uma pessoa. Encobrem tudo e vão, bêbedos e drogados, à sua vida de deboche, excesso e sodomia seletiva. No ano seguinte recebem uma nota, magistralmente bem escrita para um maneta de gancho, que diz “ah ahhh meu bois, eu sei o que fizeram no verão passado. Mataram-me seus cães, mas eu fodo-vos um a um em esquema de sexta-feira 13. Não literalmente, mas figurativamente e com um gancho. De pesca.” E assim se transforma esta premissa inventada na hora por um argumentista, que acordou 5 minutos antes de uma reunião de pitch depois de passar uma noite a snifar coca do rego de prostitutas, com o pouco dinheiro que lhe sobrou do seu único êxito comercial.

Continue reading

Jurassic World Rebirth (2025)

Acordei numa sala escura. Uma lâmpada forte apontada cirurgicamente à minha cara. Mal conseguia abrir os olhos, sentia o sabor a sangue na boca e provavelmente meia dúzia de costelas partidas. Tentei falar. Ao fim da primeira sílaba, senti um pulmão pressionado por algo pontiagudo. “Foste tu quem escreveu o texto do Jurassic World Rebirth na página do Sr. Joaquim no Facebook?”. Aflito e assustado pensei que finalmente as consequências estavam a materializar-se na vida real. “Senhor quê? Nunca ouvi falar…”. De repente sinto um choque a percorrer-me o corpo, todos os músculos se mexem violentamente de modo involuntário. Incluindo o esfíncter retal, infelizmente. “Era uma pergunta retórica, óh burro! Sabemos que nem sequer viste o filme. Emprenhas pelos ouvidos só para te armares em espertinho e alguém tem que pôr fim a isso. Tens 3 dias para o ver. Senão voltas para aqui e levas uma segunda volta que não será tão agradável”. Um pensamento relâmpago tomou conta de mim, deixar completamente esta parvoíce de falar de cinema. Não necessito realmente disto para nada, muito menos morrer eletrocutado todo borrado por mim abaixo. “Quem és? Serviços Secretos? ASAE? Polícia Judiciária? Mossad? CIA? Mercenário? Espião MI6?”. Uma gargalhada que me vaporizou uma brisa de má higiene oral na cara. “Não, meu bandalho. Sou o Caló que trabalha de manhã no talho do Alcides. Primo da Gisela da Zouparria, que é recepcionista na Florista Linita. Campeão distrital de dominó”. Ok, pensei. Finalmente o famigerado reconhecimento público.

Continue reading

The Fantastic Four: First Steps (2025)

Aqui estamos nós, amigos, reunidos em volta da fogueira noturna na praia dos filmes Marvel. A assar chouriças, marshmallows tugas, e a degustar uma quantidade anormal de aguardente aquecida. Daquela que não se sente o álcool, e que mamamos sempre um garrafão preventivo antes de entrar na sala. Desta vez, é a quarta encarnação live action do Quarteto Fantástico, que só por este facto responde à habitual pergunta: “Mas quem é que quer saber disto?”. Aparentemente, toda a gente. Lá estou com os meus filhos, o escudo protetor de crítica que uso nestas ocasiões.

Continue reading

Karate Kid Legends (2025)

Uma das piadas recorrentes de Barney Stinson, popular personagem de How I Met Your Mother interpretado por Neil Patrick Harris, era que o verdadeiro Karate Kid seria Johnny Lawrence. Daniel LaRusso foi um principiante com sorte que estragou a meteórica carreira de Lawrence com um pontapé ilegal. E que depois lhe arruinou a vida para sempre, abandonando um futuro promissor, lançando-o para sempre numa vida de álcool, drogas, Rock n’Roll e decadência urbana. Essa tendência da série, para reforçar a sua personalidade oposicionista, acabou por dar origem à série Cobra Kai. E depois, com o êxito meteórico dessa série em todas as faixas etárias, Karate Kid começou a ser novamente um nome pomposo e popular, a criar tendências e a pedir o que se pede sempre: outro filme.

Continue reading

A Breed Apart (2025)

Mockbusters ou clones zero orçamento de empresas como a Asylum é  fugir a sete pés. A maior parte das vezes são exploitation a roçar os “direct to trash” clonando os conceitos de obras famosas. Transmorphers, Atlantic Rim, Snakes on a Train, Titanic 2… Um rol de compostagem pronta para ser atirada para os pântanos do eterno esquecimento. Ora acontece que às vezes são só filmes de terror série Z elaborados a partir de conceitos pouco abordados pelo cinema generalista. Desta vez, enrolado num tufão de lançamentos, iludido por capas lustrosas e moçoilas robustas vestidas para o excesso de calor, tropecei num filme de 80 minutos que parecia perfeito para uma quarta-feira às 23h. É certo que já teria que me deitar depois da meia-noite, desaconselhado a um idoso, mas a vida é curta para perder muito tempo com ponderações inúteis.

Continue reading

Thunderbolts* (2025)

Homem que já jurou por tudo nunca mais voltar a ir a uma sala de cinema ver outro filme da Marvel é apanhado em flagrante a sair de uma sala de cinema depois de ver outro filme da Marvel”, diziam as principais revistas e sites de mexericos depois de me terem apanhado com um grupo de paparazzis à saída do cinema, sem hipótese de negação. Ainda por cima ia bastante lento porque levava os 14 volumes da grande enciclopédia Marvel, um quadro onde anoto cuidadosamente todas as ligações entre filmes e séries da Marvel e sem dormir há 4 dias para poder fazer o TPC típico para filmes MCU. Ia com os meus filhos, mas é certo que os miúdos ajudarem os pais é uma utopia salazarista, que hoje em dia até para virem almoçar depois de acordarem às 12h30 é preciso chamá-los 4 vezes, como se nos estivessem a fazer um favor em vir comer. Para passados 15 minutos sairem a olhar para o telemóvel, deixando para trás uma cozinha que parece a casa da tia Meg do Twister, depois do Tornado a ter feito num aglomerado de lenha fina.

Continue reading

The Infernal Rapist (1988)

Carlos El Gato é preso e condenado à morte por cadeira elétrica. Coitado, certamente será engano ou uma injustiça do complicado sistema judicial mexicano, tantas vezes manipulado pelas garras dos barões da droga. Ah, não é nada. É um serial killer que também viola. Parafraseando o acordão da sua condenação, “viola à fartazana”. E no dia em que está para ser executado aparece-lhe Satanás com uma proposta. Longe do cornudo vermelho da literatura ocidental dos últimos séculos, este diabo é uma versão badalhoca das madames de bordel dos anos 60 e 70, aquelas senhoras que aviavam chouriça à taxa de largas dezenas por noite e agora só fazem trabalho administrativo pois o corpo revela bem as marcas do tempo e do excesso de cutucação uterina. Este diabo propõe soltar novamente El Gato para a sociedade na condição de que lhe mate e viole 7 mulheres. El Gato exclama “Ok” e passados 20 segundos já se está a preparar para passar a ferro uma cabeleireira especializada em caracóis e madeixas. E assim se repete o ritual de sexo e morte até à sétima pobre senhora.

Continue reading

7 Pecados Rurais (2013)

Este não é um bom filme. Por nenhuma métrica. Em termos de produção apresenta meios reciclados de filmagens de novelas, e mesmo assim restos estragados de cenários, adereços ou mesmo guarda roupa. O estilo de representação de todos, excetuando os titulares Zé e Quim, cai na gama tão temível chamada “representação de revista à portuguesa”. O toque de modernidade, gamado de 300 filmes anteriores, com a presença de Deus, interpretada pelo defunto e mui saudoso Nicolau Breyner, também não ajuda. Digamos que o tom, os temas e o próprio motor narrativo, que serve para agregar um conjunto de sketches soltos, contribui para dar um look and feel que a internet teima em chamar de “Azeite”, esse tão nobre e precioso líquido, ouro mediterrânico. Mas que neste contexto traduz como piroso e sem gosto.

Continue reading

The Boogeyman (2023)

Uma família de subúrbio muito feliz. Casa bonita e espaçosa, decorada de modo sóbrio e realista, uma existência idílica quebrada pela morte da mãezinha. “Oh, não! E agora?” Diz o pai aflito que estava tão bem na vidinha dele, afogado em trabalho, confiante nas largas costas da esposa que alombava sozinha todos os afazeres da casa. “Caraças, então, mas agora tenho que tomar conta da… aquela… como se chama? A minha filha e a irmã?” E é neste ponto que começa o filme, afundado na dor da perda e no luto. Luto, esse, que será pela pintelhésima vez personificado numa criatura escondida nas trevas que se alimenta da tristeza de quem não deslarga o osso da inquietação.

Continue reading

The Wonder (2022)

Florence Pugh, coitadinha, é enviada para uma aldeia irlandesa dos anos 50 do séc XIX. Enfermeira, mulher de ciência, vai ajudar a investigar o caso de uma miúda que não come há 4 meses. “É Deus, um milagre! Alimenta-se do maná dos céus!”. Os cabecilhas da aldeia salivam já de antecipação com a possibilidade de uma canonização, um santuário em honra daquela santinha que é alimentada por Deus. Catedrais, cultos diários, um convento dedicado à santinha, hotéis, lojinhas a vender harmónicas e pífaros da Santa Anna alimentada por Deus. Mas Pugh quer evitar a morte da menina, metida num turbilhão de infinita densidade católica. Será capaz a ciência de bofetear a mais católica de todas as eras e zonas geográficas.

Continue reading

Kimi (2022)

Continua a grande dificuldade dos argumentistas do cinema moderno se adaptarem a novas tecnologias. A necessidade de manter os conceitos do cinema tradicional, para não alienar a clientela, e associar-lhe toda a parafernália de tecnologias atuais nas suas tramas é a tarefa mais dolorosa para argumentistas. É muito comum estarmos a ver um filme em que se ignoram completamente facetas tecnológicas da vida atual. A escrita foca-se numa linha de fuga muito concreta para evitar distrações. A malta de humanidades, que escreve os filmes, não sabe usar as tecnologias que tem, quanto mais compreender a complexidade mastodôntica que lhes dá forma dentro das paredes, na atmosfera, no espaço, debaixo das cidades, em centros de dados e dos seus domadores que operam nas sombras. Mas isso não os impede de tentar, com resultados mistos. Se o casual utilizador de telemóvel para ver fotos da ex-namorada em bikini no whatsapp consegue engolir as instruções narrativas, o geek de gama média rebola os olhos para cima e sai imediatamente do transe da suspensão da descrença.

Continue reading

Deadstream (2022)

Há dois artifícios narrativos de que não sou grande fã, o found footage e os esquemas manhosos que agora se vêem em todos os filmes de terror para retirar o telemóvel do filme. Da primeira apenas não gosto do formato, que após alguns filmes se torna repetitivo e os 90 minutos de duração parecem 180. Mesmo com todo o contorcionismo e mortais empranchados que se injetam nesse molde, é uma agonia para chegar ao fim, parece que as almofadas do sofá se vão transformando lentamente em xisto pontiagudo. Em relação ao artefato de remover o telefone da narrativa, é uma incapacidade dos argumentistas de se adaptarem aos tempos. Claro que é muito mais difícil resolver os aborrecimentos de ser perseguido por uma família de mortos vivos abusadores sexuais canibais mutantes quando não temos telemóvel. Mas ainda mais difícil seria se não tivéssemos energia elétrica, automóveis, antibióticos, capacidade de locomoção bípede ou utilização do córtex cerebral primário. Ou que ainda não tivéssemos saído da água e fossemos amibas perseguidas por Mosasauros. Falei sobre isso aqui (Artigo: Telemóvel, o terror dos filmes de terror.).

Continue reading
« Older posts

© 2026 CinemaXunga

Theme by Anders NorenUp ↑