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Como fazer uma curta metragem em Portugal

Tendo eu sido um visitante das sessões de curtas metragens que decorreram nos Caminhos do Cinema Português em Coimbra, venho aqui com mais um magazine de ajuda a novos cineastas. Como podes tu então, jovem petiz, fazer uma curta metragem para passar num festival?

Em primeiro lugar tens que fazer tudo em inglês para alimentar uma vã esperança de te poderes internacionalizar. Provavelmente ganharás o Euromilhões primeiro, mas pelo menos a esperança não morre. Não tens ideias para um guião? Mas quem te disse que precisas de um? Fazes uso de um conceito muito em voga chamado “cenas maradas“. E o que são cenas maradas? Bem, basicamente é filmares uma lata de atum em cima de um alguidar de pepinos ou a tua avó a dormir enquanto fazes um plano de 360 graus desfocado. Depois editas na versão pirata do Adobe Premiere que sacaste da Net, metes slowmotion e usas os plugins com nomes mais bizarros que por lá encontrares, dando prioridade aos que comecem por Alucino-qualquer coisa. Ok?

Música… Que música meter? Como não vais passar nunca dos festivais de amadores podes usar qualquer música porque ninguém te vai foder o juízo com os direitos de autor. Depois usa muito musica minimalista ou tecnos manhosos arritmicos, estilo Clint Mansel, Orbital ou Aphex Twin. Podes sacar da net a OST do Pi. Ajuda. Mete também uns poemas obscuros e surreais de algum poeta que encontres na Internet, mas que seja pouco conhecido para pensarem que é teu. Deixa sempre estas confusões no campo do ambíguo, porque nunca te farão perguntas concretas e pensarão sempre que é teu.

Se conseguires convencer umas gajas quaisquer a posar nuas, aproveita. Dá um ar de modernidade e avant-guarde. Mas pede-lhes que não rapem a pintelheira para manter um aspecto ousado e anos 70. Não lhes filmes a cara, não vão aparecer lá no liceu fotos da desgraçada. Estudantes de teatro e dança dão um bom alvo. Mas, por amor de Deus, pede-lhes que rapem os sovacos.

Dá-lhe um título em inglês e mete-lhe uma versão, tipo “Nubian Flower 1.02” para dar um ar de tecnológico. Filma cenas na TV, aponta a camara directamente para o sol, filme cenas tradicionais com a tal música que falei anteriormente. Lembra-te que a cultura ciberpunk e as cores saturadas estão na moda, assim como tudo o que estiver fora de contexto.

No final, quando te perguntarem o que significa tudo, diz-lhes que exteriorizaste os teus sentimentos sob a forma de pesadelos gráficos em que os sonhos intervêm como personagens secundárias. Usa palavras como: dogma, paradigma, alienação do ser ou mesmo Oximoro e Pleonasmo.

Ao domingo à noite, enlatados! Este texto foi escrito em Dezembro de 2005, depois de uma noite agonizante que passei no Associação Académica de Coimbra a ver curtas metragens. De início apetecia-me arrancar os olhos com um garfo, mas disseram-me para ter calma porque se calhar a próxima era boa. Passei o resto da noite a olhar de soslaio para os classificados do Correio da Manhã a pensar qual seria a linha de tempo alternativa se tivesse ligado à Cindy, completa, 2ª oportunidade, peitinho 44 e com capacidade de projectar até 8 metros uma bola de ping-pong pela crica.

2 Comments

  1. É um prazer reler este texto! Sublime! Mal posso esperar pelo subsidiozinho para realizar um curta neste estilo!

  2. wow, incrível, toda esta dissertação à certa de como pode e é tão triste e ridículo o futuro do cinema português, ( vá lá sem ilusões ele também nunca existiu, não que eu me lembre),…isto é pura ironia!
    na minha opinião que se deveria dedicar e fazer uma curta eras tu, sejas lá tu uma lata de atum, um pimento, ou o colon súbito da tua avó! provavelmente passarias dos concursos para amadores ao impressionares o público ao arrancares os olhos com um garfo ao teu gato e em seguida esmagares pintainhos ao ponta pé, ( e em seguidas serias perseguido para toda a vida pela Greenpeace, PETA e por mim, o que daria toda uma saga fantástica se continuasses a filmar!)
    A sério que pelo movimento artístico contemporâneo que se vive actualmente no cinema não ser do teu agrado isso compromete toda a possível qualidade que se possa encontrar no futuro.
    estás a generalizar.

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